Em Caná da Galileia...


Domingo XXII do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

RENÚNCIA E SEDUÇÃO

A cruz é a companhia de eleição do cristão. Preferir a cruz às atrações e aos elogios do mundo, eis o que distingue um verdadeiro crente!

“Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir”, exclama Jeremias, numa oração profundamente emotiva. Sempre me questionei por que razão tantos cristãos, apesar de expostos à Palavra de Deus e se alimentarem com o Pão da Vida, não se sentem profundamente seduzidos por Jesus. Como é possível? Não é Ele o mais belo dos Filhos do Homem? A oração de Jeremias é esclarecedora: o Senhor seduz-nos, mas é preciso que nos deixemos seduzir, pois a sedução – divina ou humana – tem sempre dois sentidos. E deixarmo-nos seduzir é dizer: aqui me tens! Já não Te consigo resistir por mais tempo! Jeremias conclui: “Vós me dominastes e vencestes”.

Esta vitória do amor de Deus na nossa vida não acontece de um dia para o outro. Deixar que Deus domine as nossas tendências pecaminosas é o trabalho de uma vida. Como Jeremias, também a nossa natureza humana irá resistir: “Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em Seu nome.” S. Paulo explica assim aos Romanos: “transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir o que é bom”. Não esperemos atingir a santidade sem muita luta, sem uma guerra contínua contra nós mesmos!

É preciso, em cada momento, “renunciar a nós mesmos”, como ensina Jesus no Evangelho. Como se faz isso? Aqui em casa, a propósito deste Evangelho, as sugestões dos meninos foram várias: podemos, por exemplo, deixar o nosso irmão ter razão; ou deixá-lo escolher primeiro; ou não responder quando somos ofendidos; ou oferecer-nos para lavar a loiça mesmo não sendo a nossa vez… Nós, pais, renunciamos a nós mesmos quando, a meio da noite, somos acordados pelo choro do bebé e o servimos com alegria; ou quando desligamos o televisor para, em vez de descansar prazenteiramente sem nada fazer, vamos construir uma torre de lego ou jogar à bola com os filhos. Tantas ocasiões, nas 24 horas do dia, de renunciar a nós mesmos – com muita luta – deixando-nos, assim, dominar e vencer por Deus!

Uma vez vencidos, resta-nos rendermo-nos totalmente, aceitando as condições de paz do Senhor. Diz S. Paulo: “Peço-vos que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual.” Uma das minhas orações preferidas, aprendi com a Madre Teresa de Calcutá no livro magnífico que nos fala da sua vida interior, Vem, Sê a Minha Luz: “Jesus, tomo tudo o que me queiras dar, dou-Te tudo o que me queiras tomar.” Tenho sempre algum receio quando, diante do sacrário, rezo com estas palavras, pois sei, por experiência, que Deus leva a minha oração mais a sério do que eu. Estarei mesmo disposta a dar-Lhe tudo o que Ele me queira tomar e a tomar tudo o que Ele me queira dar? E, no entanto, também sei, por experiência, que a vida plena, feliz, de que fala o Evangelho, só se encontra quando sou capaz deste dar e deste tomar, ainda que dolorosos, deixando-me seduzir até ao fim por quem me ama infinitamente.

Os judeus que escutavam Jeremias faziam dele “objeto de escárnio”, porque profetizava “violência e ruína”. Vexado, Jeremias tentou fugir à sua difícil vocação, mas no seu coração, “havia um fogo ardente.” “Procurava contê-lo, mas não podia.” Também Pedro, escutando Jesus a profetizar sobre a sua morte em Jerusalém, O procura calar: “Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!” Jesus reage com veemência: “Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo.”

Que outra religião tem por símbolo um objeto de tortura antigo, a cruz? E quem, senão o cristão, descobre nesta cruz a nascente da felicidade? Nós sabemos bem que de nada “aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida”, essa vida eterna que só em Deus encontramos. Durante a pandemia, foi escandalosa a importância que muitos cristãos deram aos contínuos elogios do governo à prudência da Igreja, ao ponto de encherem com estas notícias perfeitamente inúteis as primeiras páginas de jornais diocesanos. Outros cristãos procuravam justificar o proceder da Igreja com critérios mundanos, afirmando que, tivesse a Igreja agido de outra forma, o mundo a teria criticado, etc. Se Jesus tinha em nada a opinião do mundo, porque a temos nós em tanto? As decisões da Igreja não são estratégicas, mas espirituais. Só temos uma bússola: a cruz de Jesus. “Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por Minha causa, há de encontrá-la.”

Hora da missa. “A minha alma tem sede de Vós, meu Deus!” Procuro-Te desde a aurora, suspiro por Ti, “como terra árida, sequiosa, sem água.” Em nenhum outro lugar e em nenhuma outra hora, sou tão feliz como aqui. Sei, por experiência, que “a tua graça vale mais do que a vida”, a saúde, o sucesso, a fama; e ainda que os meus dias sejam uma sucessão de fracassos ou uma corrida de obstáculos, unido à Tua cruz, “serei saciado com saborosos manjares, e com vozes de júbilo Vos louvarei…”

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