Em Caná da Galileia...


Domingo XXIII do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

EXIGÊNCIA CONTRA O ERRO

Neste domingo, o nosso olhar volta-se para o irmão, a fim de cumprirmos plenamente a lei do Senhor, “pois quem ama o próximo, cumpre a lei.”

“Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel”, diz o Senhor a Ezequiel. De pé sobre as muralhas do castelo, as sentinelas vigiam, atentas, de dia e de noite, e nada lhes passa despercebido. Estaremos nós a viver esta missão de sentinelas sobre a “casa de Israel”, sobre a nossa casa e a nossa comunidade? Estaremos atentos, alerta ao menor sinal de perigo, vigiando de dia e de noite?

“Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte”, continua o Senhor. A sentinela cristã tem esta dupla missão: escutar a Palavra e anunciá-la aos irmãos. Não existem discípulos que não sejam missionários.

Este anúncio nem sempre é agradável: “Sempre que Eu disser ao ímpio: Ímpio, hás de morrer, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte.” Há Palavras bíblicas muito duras. E, no entanto, são hoje mais urgentes do que nunca. Pois nunca, na História da Igreja, se viveu um relativismo tão grande como o que se vive hoje nas nossas famílias e comunidades.

Por um lado, há uma ignorância terrível sobre a doutrina católica entre os leigos. Por outro, há uma falta de exigência e de clareza da parte de muitos sacerdotes, sob uma falsa definição de misericórdia. Com medo de transmitir aos fiéis uma imagem demasiado severa de Deus, inibem-se de tratar os pecados pelos nomes, ou como diz Ezequiel, “de avisar o ímpio, para que se converta do seu caminho.” Já vi vários jovens confusos, porque numa confissão, lhes foi dito que viver maritalmente com o namorado era pecado, e na confissão seguinte, com outro sacerdote, lhes foi assegurado que não. E já vi gente a deixar a direção espiritual porque o diretor achava sempre que estava tudo bem. Nós, leigos, precisamos de exigência, e temos o direito a ser avisados quando fazemos escolhas erradas. A Palavra de Deus é dura para com os sacerdotes que não cumprem a sua missão de sentinela.

Também os pais e mães de família são chamados a exercer a sua missão de sentinela sem desfalecer. Quantos perigos ameaçam de morte os filhos, estrategicamente sentados, horas sem fim, ao computador para não incomodarem – e os pais a dormir! “Em que é que eu errei?” Perguntam, perplexos, pais e educadores, perante jovens fracassados em tantas áreas da vida. Como não se deram conta do que estava a acontecer?

Escrevo este texto no dia da festa litúrgica de Santa Mónica, essa grande mulher que se santificou através da oração e penitência contínuas pela conversão do filho, acompanhadas de atitudes firmes e palavras sábias. Ao contrário de muitos pais modernos, Mónica não se calou diante do pecado do filho, não lhe ocultou a doutrina, nem tolerou o seu pecado em sua casa. “O filho de tantas lágrimas” é Santo Agostinho. Que Santa Mónica nos ensine a rezar e a educar!

No Evangelho, Jesus indica-nos os passos a seguir nesta missão de sentinela junto daqueles por quem somos responsáveis. “Se o teu irmão te ofender”, diz Jesus, falando certamente de algo mais profundo do que uma simples ofensa de convivência. Trata-se, aqui, de pecado grave, daquele que ofende a Deus e ao próximo. Os passos que Jesus apresenta são claros, simples e eficazes. Já os praticamos?

Há uma atitude que não é cristã: a murmuração, o “falar pelas costas”. Em nenhuma circunstância o podemos fazer. Assim, quando o assunto é grave, o primeiro passo é o diálogo cara a cara, sem intermediários. Se o ofensor não reconhecer o seu pecado, chamemos um amigo; e se mesmo assim não houver conversão, peçamos ajuda ao sacerdote. Depois, fiquemos em paz: é preciso respeitar a liberdade do irmão, como Deus a respeita. A decisão final de conversão cabe a cada um, e nem Deus a impõe. Assim se justificam os casos, raros, de excomunhão, bem como a existência do Inferno, esse “lugar” espiritual onde nos encerramos quando recusamos definitivamente o amor. Na verdade, “tudo o que ligardes na Terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.”

“Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros”, escreve S. Paulo. O amor é uma dívida que nunca está saldada. Como dizia Pier Giorgio Frassati, “o amor nunca diz: já chega!” É por amor que nos queremos colocar, como sentinelas, sobre as muralhas da nossa casa e da nossa paróquia, atentos ao sopro do Espírito e atentos aos irmãos por quem somos responsáveis, a fim de, a todos, conduzir a Deus.

Hora da missa. “Onde estão dois ou três reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles”, dizes. Estamos mais do que dois ou três aqui, Senhor, unidos em Teu nome para Te pedir pelos nossos, por quem somos responsáveis de vida ou de morte, diante de Ti. Não permitas que endureçamos os nossos corações… Ensina-nos a escutar a Tua Palavra e a anunciá-la com fidelidade e caridade. Ámen.

(Fotos das nossas mais recentes férias, em Sortelha – como dizemos todos os anos, foram as melhores férias de sempre…)

6 Comments

  1. Pilar Pereira

    Obrigada por mais esta reflexão partilhada.

  2. ANA MARIA JORGE RIBEIRO ALVES

    Bom regresso a casa, à rotina; ao trabalho e à escola a todas as famílias.

  3. Catarina Silva

    Gostei muito desta reflexão!

  4. Fátima Pinho

    Muito obrigada pele reflexão.
    Gostei muito e vou reler mais calmamente !
    Bem haja

  5. A última foto é a mais fofa! 😍 Obrigada pela reflexão, confirma e esclarece algumas minhoquinhas da minha cabeça.🤣

  6. Sónia Santos

    Esta reflexão parece ter sido escrita para mim.

    Obrigado querida Teresa. Beijinhos para todos

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