Em Caná da Galileia...


Domingo XXIV do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

MISERICÓRDIA

Como é desafiante, a misericórdia do Senhor! Neste domingo, a Palavra alimenta-nos com cinco histórias de misericórdia. E nós? Estamos conscientes da nossa própria história?

A primeira surge no belo Livro do Êxodo. Sobre o monte Sinai, Moisés conversa longamente com Deus. Demasiado tempo, aliás. Quarenta dias longe de um povo ainda tão frágil na fé não foi uma boa ideia! Não admira que, sem o seu líder e pai, o povo se tenha corrompido. Porque se é importante os líderes, os párocos e os pais de família terem tempo de retiro, também é importante que não fiquem demasiado tempo longe do seu “pequeno rebanho”. A expressão, tão divulgada em alguns círculos na Igreja, “se os pais estão bem, os filhos estão bem”, justificando longos ou frequentes retiros sem filhos por perto, não é assim tão verdade. É essencial que os pais estejam bem, mas não é suficiente. Os filhos precisam de muito tempo e muita dedicação dos pais, se queremos que cresçam cristãos, e a história de Moisés é disso um grande exemplo.

“Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua”, diz o Senhor a Moisés. “Deixa”… Parece que, se Moisés não deixar, Deus nada poderá fazer. Como é humilde o Senhor, submetendo-Se assim livremente ao poder da oração! Que grande responsabilidade! Moisés “não deixou”: colocado diante da possibilidade daquele povo difícil e cansativo desaparecer da face da Terra, Moisés percebeu quanto o amava. E nem a promessa de Deus de que, a partir de Moisés, faria surgir “uma grande nação” o convenceu. Não nos acontece assim também? Quantas vezes aprendemos a valorizar os amigos, irmãos ou familiares apenas quando os perdemos? Só então percebemos que as suas imperfeições não eram obstáculo ao nosso amor.

A compaixão apoderou-se de Moisés e tornou-se intercessão: “Lembrai-vos dos vossos servos…”  E Deus, que não esperava outra coisa do seu amigo, “desistiu do mal com que tinha ameaçado o seu povo”, satisfazendo assim os desejos mais profundos do seu Coração. Porque a misericórdia de Deus só pode fluir na Terra através da nossa misericórdia; o seu Coração só pode verter o seu amor se tiver outro coração que Lhe sirva de recipiente. Moisés foi este canal da misericórdia divina, cumprindo aquele pedido que Jesus fará um dia a Santa Catarina de Sena: “Faz-te recipiente e far-Me-ei torrente.”

Também Paulo se tornou recipiente da misericórdia divina, acolhendo-a primeiro na sua vida e transbordando depois para todos: “A graça de Nosso Senhor superabundou em mim”. E explica: “Alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade, como exemplo para os que hão de acreditar n’Ele.” Só quem experimentou a misericórdia na sua vida é capaz de evangelizar, como o Papa Francisco não se cansa de repetir.

O Evangelho traz-nos mais três histórias de misericórdia, que Jesus contou. Na primeira há cem ovelhas, na segunda, dez moedas, e na terceira, dois filhos. O cerco vai apertando… Mas em cada uma destas histórias, a atenção do protagonista – o pastor, a mulher, o pai – centra-se sempre numa única ovelha, numa única moeda, num único filho, ou pelo menos, num filho de cada vez. Dizia Santa Teresa de Calcutá: “Deus não sabe contar senão até um.” Que importa se são cem ovelhas, dez moedas ou dois filhos? Para Deus somos sempre únicos, como sabe qualquer pai de uma família numerosa.

A ovelha regressou aos ombros do pastor, a dracma foi encontrada, o filho voltou para casa. A misericórdia divina, quando acolhida, gera conversão. Falar de misericórdia sem falar em mudança de vida, em submissão à Lei de Deus, em “regresso a Casa”, é mentir. Não enganemos os cristãos, fazendo equivaler a misericórdia à tolerância de qualquer forma de vida, à aceitação indiscriminada de qualquer conduta “desde que me sinta feliz”. Não há verdadeira felicidade fora da casa paterna, descobriu o filho pródigo, que só no regresso encontrou o que procurava ao partir.

Mas acolher a misericórdia significa também tornar-se magnânimo para com todos, solidário com os que sofrem, solícito com os que precisam, como Paulo explicou a Timóteo e como Moisés demonstrou perante Deus. O filho mais velho da parábola ainda tem muito que aprender!

Hora da missa. Subimos à montanha para encontrar o Senhor, mas trouxemos a família connosco, pois não vamos deixar os que amamos no sopé do monte. Sobre o altar, o Filho Único de Deus intercede por nós ao Pai, suplicando-Lhe que não nos castigue como os nossos pecados merecem. A sua oração é muito mais que palavras: para nos resgatar, vai descer ao “curral dos porcos” onde nos perdemos e morrer em nosso lugar… Diante de tamanho amor, confessamos como Paulo: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. Mas alcancei misericórdia.” Não podemos senão dar graças, recordando a nossa própria história de salvação. “Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor!”

(Crédito: as imagens do Monte Sinai neste post são da autoria da Marisa Milhano, Jovem de Caná colaboradora assídua deste site e que, no seu blogue Uma Jovem Católica, nos fala da sua peregrinação à Terra Santa com um entusiasmo contagiante. Obrigada, Marisa!)

 

4 Comments

  1. Obrigado Teresa, por esta reflexão maravilhosa. Como é importante sentirmo-nos únicos e filhos amados por Deus e deixar os nossos corações transbordar do amor paternal do Senhor.
    Para isso falta muitas vezes esvaziar o nosso recipiente, que está tão cheio de outras coisas que não tem espaço para o amor de Deus, que nos impele a amar os que nos rodeiam.
    Bem-haja pelo seu testemunho, que o Senhor vos cumule de bençãos.

  2. Obrigada Teresa por está bonita reflexão

  3. Catarina Silva

    Que linda reflexão Teresa,
    Faz para mim todo o sentido a ideia de ser essencial os pais estarem bem para os filhos estarem bem, mas não ser o suficiente…Como é que isto não é claro para tantas pessoas cristãs?
    Agradeço também este trecho: “Porque a misericórdia de Deus só pode fluir na Terra através da nossa misericórdia; o seu Coração só pode verter o seu amor se tiver outro coração que Lhe sirva de recipiente.” …Que hoje, particularmente, significou muito para mim…
    Também me deliciei com aquele bonequinho sentado no meio das bonecas….Têm de ter atenção porque ele deve precisar de umas vitaminas, tem ar de bebé com falta de apetite 🙂
    Só apetece pegar-lhe ao colo e dar beijinhos!
    Obrigada Teresa!

  4. Faço minhas as palavras anteriores, inclusive as da Catarina sobre o bonequinho no meio das bonecas! 😉

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