Em Caná da Galileia...


Domingo XXIX do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

LIBERDADE E CONFIANÇA

Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, eis a máxima do Senhor para vivermos na liberdade e confiança dos filhos de Deus.

O povo judeu, exilado na Babilónia, viu a sua sorte mudar no dia em que Ciro foi ungido rei dos persas e medos, pôs fim ao império babilónico e deixou os estrangeiros regressar a casa. A tão aguardada libertação tornou-se possível, não através de um novo Moisés, “um dos nossos”, mas de um pagão. O povo ficou confuso: devia agradecer aos deuses babilónicos, idolatrar Ciro, ou manter a fé no Deus de Israel?

O profeta responde em nome de Deus: “fora de Mim não há outro. Eu sou o Senhor e mais ninguém.” Não é próprio do crente adorar um simples mortal, idolatrar um salvador político, porque o único salvador é o Senhor. Assim, não foi Ciro a libertar Israel, mas o próprio Deus, que Se serviu de um rei pagão e o chamou – ainda que ele o não soubesse: “Eu te ungi, quando ainda não Me conhecias…”

O Criador tem plena liberdade para realizar a Sua vontade através de quaisquer das Suas criaturas, crentes ou não crentes. E se Ciro foi o Seu ungido para uma ação virtuosa, outros reis houve a quem Deus permitiu uma ação pecaminosa, mas perfeitamente fiel ao Seu plano de salvação: “Não terias poder algum sobre mim”, dizia Cristo a Pilatos, que O ia crucificar, “se do alto não te fora dado.” (Jo 19, 11)

Deus não nos manipula como marionetas; mas porque é omnipotente, tem poder para, sem beliscar a nossa liberdade, realizar a Sua vontade através ou apesar de nós e das nossas escolhas. E de todo o mal Ele tira o bem em nosso proveito (cf. Rm 8, 28). Assim, as teorias da conspiração, que se multiplicam em alturas de crise como a nossa, são profundamente pagãs, separando os homens entre “eles” e “nós”, entre “bons” e “maus”, disseminando o medo, e lendo a Bíblia como se lê um policial. Que terrível falta de confiança n’Aquele que “governa os povos com equidade” e conduz a História a bom termo “por causa de Israel, meu eleito”!

No tempo de Jesus, não era a Babilónia, mas Roma a dominar o mundo conhecido de então. E não se vislumbrava no horizonte nenhum “Ciro” capaz de libertar Israel. Humilhados, os judeus tinham de pagar impostos a César. Mas César era mais do que um imperador: para os romanos, era um deus. A moeda do denário trazia não só a imagem do imperador, como ainda uma inscrição com um título divino. César exigia do povo obediência e adoração.

Como devia Israel posicionar-se diante de Roma? Os fariseus aguardavam a resposta de Jesus para O condenarem. Iria Jesus incitar o povo à revolução? Iria Jesus aceitar passivamente a autoridade de um deus pagão? Não havia saída possível nesta cilada.

Jesus não entra em discussões políticas. Ele sabe que César está no poder por permissão – não aprovação – divina; tal como acontece hoje com os nossos governantes, inclusive aqueles que geram ódios e paixões um pouco por todo o mundo. Como chefe, César podia exigir impostos e regulamentar os seus territórios. Lutar por um sistema mais justo no futuro não pode impedir os cristãos de cumprir os seus deveres cívicos e políticos no presente.

Mas César não é um deus, porque como diz o salmista, “os deuses dos gentios não passam de ídolos, foi o Senhor quem fez os céus.” Assim, a César não é devida a adoração, ou a alienação da nossa consciência individual ou da dignidade com que Deus nos dotou ao criar-nos. De facto, se a moeda romana tem cunhada a imagem de César, o ser humano tem cunhada a imagem de Deus (cf. Gn 1, 26-27). Está, assim, inscrito no mais profundo do nosso ser que só a Ele podemos adorar.

Se César não é um deus, também não é um demónio. Se não atribuímos a César a nossa libertação – como Israel não atribuiu a sua a Ciro – também não lhe atribuamos a nossa condenação, lançando sobre “eles”, os romanos – ou os americanos, ou as grandes potências, ou… – a culpa pela nossa condenação. A César, só mesmo o que é de César.

Da mesma forma, não podemos roubar a Deus para dar a César. Nós, cristãos não nos submetemos a paradigmas que nos degradam – como os da “cultura de morte” em que vivemos – antes exercemos o direito à objeção de consciência, como o Papa reafirmou recentemente a propósito da eutanásia, ou, no caso dos países sem liberdade religiosa, preferindo o martírio, como tão bem testemunham os santos dos nossos dias. A Deus o que é de Deus!

Hora da missa. Esta hora, Jesus, pertence-Te por inteiro, e não lhe vou roubar nem um minuto, chegando atrasado ou saindo à pressa. Aqui, descubro que sou escolhido, como os Tessalonicenses a quem Paulo escreve, ou como Ciro, tomado “pela mão direita para abrir portas” e Te anunciar a todos. Contemplo, abismado, o Teu amor crucificado, feito pedaço de pão branco. Pareces tão frágil, e, no entanto, és “mais temível que todos os deuses” fabricados pelo Homem. Perdoa as vezes em que atribui à maldade de César mais poder do que ao Teu amor, e tive medo! “Trema diante de Ti a terra inteira”, pois só Tu és, realmente, Deus…

 

 

 

 

One Comment

  1. O medo que me (nos) tolhe assenta na fragilidade humana e na pouca fé ( mais pequena que um grão de mostarda…).
    Ensina-me (nos), Jesus, a confiar-Te a barca da vida acreditando que nunca (me/nos) deixarás sós!

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