Em Caná da Galileia...


Domingo XXV do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

A MAIOR RECOMPENSA

O Senhor está perto, mais perto de nós do que nós próprios. Não desviemos o nosso olhar!

“Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto”, diz Isaías. A Palavra soa a urgência: há um limite temporal que não pode ser ultrapassado. Quanto dura este “enquanto” do Senhor?

A resposta vem no Evangelho: o Senhor passa “muito cedo”, e de novo “a meia manhã”, “ao meio-dia”, “pelas três da tarde”, e ainda “ao cair da tarde”. Haverá afinal alguma hora que não pertença ao “enquanto” de Deus? Se Deus passa sempre, se Ele nos dá, não uma, não duas, mas todas as oportunidades que desejarmos, porquê então este tom de urgência? Porque o amor não se adia, o amor é sempre aqui e agora, pontualmente. Nenhum de nós tem mais do que o dia de hoje para amar: o ontem já não nos pertence, e o amanhã pode nunca chegar. Nem todos os que foram contratados “muito cedo” teriam oportunidade de dizer “sim”, se tivessem esperado pelo “anoitecer”… Não corramos o risco de morrer sem nos convertermos! Como sugere Paulo, procuremos “somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo”, um dia de cada vez.

Este Deus que “está perto” é tão “clemente e compassivo”, tão “paciente e cheio de bondade” que, diz o Evangelho, nem sequer precisamos de O procurar: é Ele mesmo que nos vem procurar a nós, que nos vem “contratar”, para trabalharmos na Sua vinha; Ele mesmo que “invoca” o nosso nome, chamando-nos na “praça” onde ficamos “ociosos”, “parados”. E procura-nos – reescrevamos Isaías à luz da parábola de Jesus – “enquanto nos deixamos encontrar”, “enquanto estamos perto”.

Os nossos tempos arrancaram a crosta e deixaram em carne viva a crise eucarística que já se vivia na Igreja. Parece-me ouvir o “dono da vinha” a passar, vezes sem conta, pela “praça” das nossas comunidades e das nossas casas, a perguntar: “Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?” O “regresso à normalidade” não se traduziu num regresso maciço à Eucaristia, e a vinha do Senhor esvaziou-se. Nas suas cartas pastorais, D. António Marto fala em “emergência eucarística”, e D. António Moiteiro apela a que “não tenhamos medo, mesmo com algum sacrifício, de participar na Eucaristia dominical com os outros membros da comunidade cristã.” O Senhor conta connosco para, junto dos irmãos mais indiferentes ou medrosos, testemunharmos a alegria de trabalhar nesta vinha, “que tem um Patrão tão bom”, como dizia Santa Bakhita, a escrava que se fez religiosa.

Leio o Evangelho até ao fim, e fico confusa: será possível que a preocupação dos “primeiros contratados” seja mesmo a insuficiência do pagamento? Será possível que estes privilegiados do Evangelho – nos quais me incluo -, chamados a servir o Senhor da vinha desde a mais tenra infância, não se deem conta do muito que receberam? Quando olham para os que, pelas injustiças da vida, só “ao cair da tarde” têm acesso ao dom de Deus, de que é que, exatamente, estes “primeiros” sentem inveja ou ciúme? Do tempo que os “últimos” passaram longe do Senhor? Dos “últimos” não terem, como eles, suportado “o peso do dia e o calor”? Mas não será este “peso” uma verdadeira honra, porque participação nos sofrimentos salvíficos do Crucificado? Não será a vida verdadeira apenas possível em Cristo e com Cristo, como escreve S. Paulo aos Filipenses? “Tarde te amei!” Desabafa Santo Agostinho nas suas Confissões, numa das orações mais belas de sempre, lamentando o tempo desperdiçado longe dos trabalhos da vinha do Senhor.

Trabalhar na vinha do Senhor não é um fardo, mas um privilégio, pois este trabalho é a antecâmara do Céu, como S. Paulo entendeu e explicou aos Filipenses: a vida terrena só tem sentido se nos preparar para o Céu e, pelo caminho, conduzir ao Céu o maior número possível de irmãos. No Céu, só existem absolutos, absolutos de felicidade, de paz, de realização. Todos os copos – grandes ou pequenos, de cristal ou de plástico – estarão cheios, a transbordar, deste vinho novo, o que fará com que todos – trabalhadores de primeira ou de última hora – experimentem a plenitude: ser-nos-á, realmente, a todos pago “um denário”, a totalidade; “um denário” artesanal, à medida de cada um. Por isso, S. Paulo conclui com esta afirmação em tom absoluto, que está inscrita no seu túmulo: “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”.

Hora da missa. Passaste pela manhã, e eu segui-Te de imediato, não fosse perder a oportunidade de Te encontrar enquanto estás perto… Não venho à procura de nenhuma recompensa, porque não há recompensa maior do que saber que me amas, que me procuras, que, por mim, voltarias de novo a sofrer toda a Paixão, se necessário fosse. Não Te peço um denário, porque nada ajustei contigo: vivo suspenso da Tua graça. Não sei se sou dos primeiros, se sou dos últimos, porque o meu sim é tantas vezes não, entro e saio da Tua vinha e nem sempre suporto com alegria o peso do dia e do calor… Daqui a pouco, Jesus, receber-Te-ei dentro de mim, e então já não saberei se vivo na Terra ou no Céu…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Comments

  1. Maravilhosa reflexão, Teresa!

  2. Tânia Côrte-Real

    Adorei a reflexão! Ontem, na nossa oração familiar, referi que só tenho pena de não ter atendido mais cedo à chamada do Senhor. Mas agora só nos resta trabalhar afincadamente na vinha do Senhor, durante o tempo que nos resta. Agradeço-lhe por mais um texto excelente 😍

  3. Li e agradeço a reflexão, mas mais ainda o Ensinamento Mensal, que só agora li. Possa eu, possa a minha família, construir sempre sobre a Rocha.

  4. ANA MARIA JORGE RIBEIRO ALVES

    Li com interesse o seu artigo. Gostaria de salientar a beleza sublime do último parágrafo. Parece que por vezes só entendo as palavras do evangelho quando a Teresa as decifra.

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