Em Caná da Galileia...


Domingo XXV do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

A TROCA MAIS “INJUSTA”

Nem o profeta Amós, nem Jesus parecem gostar de dinheiro. Mas dois mil anos depois do Evangelho, continuamos a tratar o dinheiro por “senhor”…

Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia os pecados mais comuns, no seu tempo como no nosso, relacionados com dinheiro: o roubo, a desonestidade, a exploração do pobre. Que podemos fazer para diminuir um pouco a injustiça deste mundo? Denunciar, como Amós, as situações, e contribuir para projetos de solidariedade e ambiente à escala mundial são dois belos gestos. Podemos ainda, como Paulo irá sugerir a Timóteo, rezar “por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica”. A oração é bem mais poderosa do que imaginamos, sobretudo se “erguermos ao Céu as mãos santas”, se a fizermos com coração purificado.

Mas é preciso ir ainda mais longe. É preciso que a profecia de Amós entre na nossa casa, no nosso bolso e na nossa consciência, pois como dirá Jesus, “quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes.” Serei eu, no meu pequeno universo, capaz de enganar o próximo, a família, o Estado, para obter mais lucros? Neste campo da idolatria do dinheiro, pouco importa ser-se rico ou pobre. Há pobres tão agarrados aos seus pedaços de sucata como ricos ao seu ouro. E há, em todas as classes sociais neste nosso Ocidente, quem não resista a comprar algo pelo simples facto de estar em promoção, fazendo do supérfluo uma necessidade. Bem diz a Imitação de Cristo: “É raro achar um homem tão espiritual que esteja desapegado de tudo. Pois o verdadeiro pobre de espírito e desprendido de toda criatura – quem o descobrirá?”

Na nossa família, de cada vez que mudámos de casa demo-nos conta da quantidade de coisas que acumulámos ao longo dos anos e de como seria ridículo empacotá-las para as continuar a transportar, sem necessidade, de um lado para o outro. Que tal aproveitar umas férias para esvaziar as nossas casas de tudo o que não faz falta? Tomaremos assim consciência do quão agarrados estamos aos nossos pequenos nadas. Ensinemos também os filhos a oferecer os seus brinquedos em bom estado a meninos carenciados, ou simplesmente a secar as lágrimas com rapidez quando o seu brinquedo preferido se estraga. “Deixa lá, era só um brinquedo”, digamos. Mas sejamos coerentes, e que eles nos vejam nesta “santa indiferença” quando se estragar o televisor ou quando tivermos de pagar uma multa inesperada. Como diz Jesus, “quem é fiel nas coisas pequenas, também é fiel nas grandes”. Só aprenderemos a ser fiéis nas coisas grandes, se aprendermos, uma após outras, as pequenas lições caseiras de desprendimento, entreajuda, renúncia.

No Evangelho, escutamos uma das parábolas mais estranhas de Jesus: O Administrador Infiel. Parece impossível que Jesus apresente o exemplo de um homem desonesto como modelo do cristão! Precisamos de entender o contexto histórico desta parábola para que ela faça sentido hoje.

No tempo de Jesus, os administradores geriam os bens dos patrões, guardando para si uma parte dos lucros como salário pelo seu trabalho. Nesta história, um administrador foi avisado de que devia prestar contas, pois iria ser despedido por “desperdiçar os bens” do seu senhor. Rapidamente se pôs a pensar: como iria sobreviver? Sem perder tempo, “mandou chamar um por um os devedores do seu senhor” e conquistou a sua gratidão, diminuindo as suas dívidas. Não se tratou de roubar o patrão, que recebeu o mesmo, mas de renunciar à sua margem de lucro imediato, para conquistar um bem maior, ou seja, assegurar o seu futuro.

Apesar de ter sido um mau administrador, este homem usou o dinheiro sabiamente: em vez de o acumular, em vez de o considerar um fim em si mesmo, foi capaz de o trocar por algo mais importante, como a gratidão e a oportunidade de trabalho. “Arranjai amigos com o vil dinheiro”, diz Jesus. Mas nós insistimos que “amigos, amigos, negócios à parte”… Sejamos capazes de renunciar ao nosso lucro e trocar o nosso dinheiro – muito ou pouco – por um lugar no Céu.

Não somos os senhores dos nossos bens, apenas administradores. Um dia, teremos de dar contas da nossa administração. Andaremos a desperdiçar os bens do nosso Patrão? Ah, certamente que sim, a começar por mim e por ti. Não percamos tempo, pois não sabemos o dia nem a hora.  Imitemos o administrador da parábola e façamos hoje mesmo o que é preciso fazer para arranjarmos “amigos que nos recebam nas moradas eternas”, servindo, dando, amando. Não há urgência maior.

Hora da missa. Domingo a domingo, prestamos contas ao Senhor da nossa fraca administração. Diante do altar, trazemos o “bem alheio” que nos foi confiado, e ainda diante do altar, recebemos do Senhor o verdadeiro bem: o seu Corpo e Sangue, entregue por nós e que aqui Se torna “nosso”, segundo a Palavra. Que Patrão tão bom nós temos, dizia Bakhita, a escrava que se tornou santa. Pois haverá troca mais injusta que esta? Oferecemos nada, e recebemos Tudo…

5 Comments

  1. Muito linda esta reflexão

  2. Pilar Pereira

    Às vezes desconfio que as minhas palavras são sempre as mesmas, em relação às reflexões que escreves sobre a Palavra que o Senhor nos oferece Domingo após Domingo: obrigada por mais uma excelente reflexão, muito, muito prática. Tenho absolutamente de esvaziar a minha casa de coisas que cá estão a mais, para começar. Não é a primeira vez que chego a esta conclusão e de vez em quando já tenho tirado algumas coisas, mas nunca cheguei ao esvaziamento total do supérfluo (nem estive perto)…

  3. Catarina Silva

    Esta é uma daquelas reflexões que pode ser útil todos os dias. É que, mesmo sem darmos conta, todos os dias temos de administrar os bens que nos são entregues. Temos de gerir, fazer escolhas estabelecer prioridades…E, neste tempo em que vivemos, onde crentes e não crentes, estão cada vez mais preocupados com as questões ambientais, deveríamos todos reflectir na forma como o consumo desenfreado nos prejudica física e espiritualmente. E em como esse consumo nos tira a liberdade, como tão bem diz a Teresa.
    “…Neste campo da idolatria do dinheiro, pouco importa ser-se rico ou pobre. Há pobres tão agarrados aos seus pedaços de sucata como ricos ao seu ouro…”
    Grande verdade esta!

  4. João Miranda Santos

    Permite-me só uma achega da minha opinião. Digamos aos nossos filhos “deixa lá era só um brinquedo” quando ele se estraga, mas não digamos isso quando eles o estragam. Porque é só um brinquedo mas é nas coisas pequenas que aprendemos a ser responsáveis, a ser cuidadosos, a tratar bem, a não desperdiçar, a sermos sóbrios…

    • Tens toda a razão, e era essa a minha intenção ao escrever, claro! Estava aliás com um exemplo bem concreto na minha cabeça, de algo que se passara aqui pouco antes de escrever 🙂

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