Em Caná da Galileia...


Domingo XXVII do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

VINHAS, VINHATEIROS E VINDIMAS

Este domingo, o Senhor vai declarar-nos o Seu amor num dos mais belos cânticos de amor de toda a Bíblia: o cântico da vinha. Escutemos com emoção desperta, deixemos as palavras cair no nosso coração como em terra fértil, convertamo-nos. Amor só com amor se paga.

“Vou cantar, em nome do meu amigo”, começa Isaías. Ser amigo do Senhor, que privilégio o do profeta – e que privilégio o nosso! “O meu amigo possuía uma vinha…” A narração desenrola-se com a descrição da beleza do lugar escolhido, num ambiente de alegre tranquilidade. De súbito, o tom muda drasticamente: “Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços.” Como pode uma vinha tão bem cultivada, plantada num terreno fértil e cercada de cuidados, dar frutos amargos?

É aqui que o Senhor Se apodera da narrativa de Isaías. Incapaz de conter por mais tempo a Sua emoção, interrompe o amigo e fala agora na primeira pessoa: “Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?” A pergunta divina, acutilante, atravessou a História até aos dias de hoje. Não há Sexta-feira Santa em que ela não nos atinja como uma flecha, enquanto ajoelhamos diante do crucifixo.

É, de facto, a pergunta que ficou eternamente pendurada da Cruz, como Jesus explica na parábola do Evangelho. Podia o dono da vinha ter feito mais do que fez? O salmo recorda – porque é preciso recordar sempre – a História da Salvação, os cuidados infinitos do Senhor para com Israel: “Arrancastes uma videira do Egito, expulsastes as nações para a transplantar…” Na altura em que profetizou, Isaías estava longe de imaginar o desfecho da sua canção, os extremos a que o amor levaria o dono da vinha, os mistérios do Tríduo Pascal.

Pegando no cântico de Isaías, Jesus sugere que a ausência de frutos não se deve a nenhuma causa natural, mas à preguiça dos vinhateiros. E à preguiça, junta-se a maldade: quando lhes foram pedidas contas do seu trabalho, os vinhateiros, “lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.” “Por fim, o dono da vinha mandou-lhes o seu próprio filho”, diz Jesus, falando de Si próprio e do destino que O esperava: “Mas os vinhateiros, (…) agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no”. Os vinhateiros – os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo a quem Jesus fala – já tinham maquinado a execução de Jesus por esta altura, com o recurso cobarde à governação romana, a fim de O matarem “fora da vinha”, fora dos muros de Jerusalém. Nem a lucidez impressionante de Jesus converteu os seus corações de pedra.

O que acontece a uma vinha que não dá fruto, ano após ano? O mais certo é ser abandonada: “Vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada.” Impressiona a leitura destes trechos em que o mal surge como castigo divino. Mas se os aceitarmos como Palavra de Deus, veremos que eles escondem uma sabedoria bíblica que nós, infelizmente, já perdemos: a certeza de que nenhum mal acontece que não traga uma mensagem de Deus, um apelo à reparação e à conversão. É esta certeza que faz S. Paulo dizer: “Não vos inquieteis com coisa alguma.”

Vivemos uma terrível crise eclesial, acentuada pela falta de “vinhateiros”. Quantas famílias cristãs e quantas paróquias veem as suas vedações ser destruídas e os seus muros derrubados! Mas esta crise não teria sido permitida por Deus se a Sua vinha estivesse cheia de doces frutos. A culpa de tanto “sangue derramado” e tantos “gritos de horror” não é, pois, do mundo, “deles”, como gostamos de dizer. A culpa é nossa. Colhemos o que semeámos. Aos vinhateiros – e todos somos vinhateiros de alguma cepa – serão pedidas contas. E a conclusão de Jesus – que se concretizou historicamente na transição de Israel para a Igreja – deve fazer-nos estremecer: “Por isso vos digo: ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos…” Não haverá aqui uma chave de leitura para a privação eucarística que vivemos na última Páscoa?

Emocionemo-nos, como Deus! Rezemos, como o salmista: “Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha!” Diz S. Paulo: “Em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças”. Faz-nos bem meditar nestes cânticos emocionados do Senhor, para nos libertarmos da imagem filosófica, nada bíblica, de um Deus impassível. O nosso Deus é um Deus apaixonado, tanto, que um dia morreu – literalmente – de amor por nós.

Hora da missa. Lá fora, Jesus, aqui na Bairrada, a vindima vai a bom ritmo. E cá dentro? Que “frutos da terra e do trabalho do homem” tenho eu para Te oferecer? Quisera, como S. Paulo, trazer-Te “tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é virtude e digno de louvor”… Tanto trabalho por fazer! Quando Te vejo suspenso dessa cruz, dando até à última gota de sangue para que eu frutifique e faça frutificar, descubro-me a rezar, como o salmista: “Fazei-nos voltar! Iluminai o vosso rosto e seremos salvos…”

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