Em Caná da Galileia...


Domingo XXVIII do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

NÃO COLOQUEMOS FALSOS TETOS NOS NOSSOS ESFORÇOS

Um homem corre ao encontro de Jesus, com ânsias de eternidade. Devia ter nos olhos aquele brilho de quem sabe sonhar. Corre e ajoelha-se, porque reconhece em Jesus um enviado de Deus, o único realmente bom.

“Que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?” A resposta de Jesus aponta para os mandamentos. É curioso que Jesus não refere os três primeiros, relativos à nossa relação com Deus, mas os restantes sete, relativos à nossa relação com o próximo. Podemos alcançar a vida eterna sem professar uma religião, mas não sem amar o próximo, concretizando com obras o nosso amor (cf. Mt 25, a parábola do Juízo Final).

O homem fica desapontado. Já faz isso tudo há tanto tempo! Não haverá algo mais? Jesus gosta desta inquietação e “olha para ele com simpatia”. É realmente motivo para tal! Os catequistas também olham com simpatia quando uma mãe pergunta: “Que mais posso eu fazer pelo meu filho para o ajudar a crescer na fé, para além do que ele já aprende aqui?” Pelo contrário, ficam desapontados quando outra mãe se queixa: “Não chega ele vir à catequese todos os sábados? Também o querem obrigar a vir à missa? E a mais o quê?” Vale a pena trabalhar para ter sobre nós o olhar de simpatia de Jesus, que gosta dos nossos esforços e se alegra por não estacionarmos na vida. “Quando salto, salto sempre para o infinito”, respondia Nelson Évora, o nosso campeão olímpico de Triplo Salto, quando questionado sobre as metas que estabelecia nos treinos. Também o cristão só tem uma meta: o céu. Não coloquemos falsos tetos nos nossos esforços!

Jesus então desafia este homem a ir mais longe, como já antes desafiara os Apóstolos: “Falta-te uma coisa”, diz-lhe. Falta dar tudo. Repetia Teresa de Calcutá: “Para o céu, só levamos o que tivermos dado.” Duras, estas palavras! Difíceis de aceitar para um rico, habituado a todas as seguranças; mas também difíceis para muitos pobres de bens materiais, agarrados mesquinhamente ao pouco que possuem e com o olhar treinado para explorar a mais pequena oportunidade, honesta ou desonesta, de fazer dinheiro. Ser rico de espírito no sentido que Jesus lhe dá não é sinónimo de ser rico materialmente, como o prova a quantidade de santos da nobreza e da realeza. É antes a condição de quem não quer abrir mão do muito ou pouco que possui para seguir Jesus. E este homem, que tinha muito, não foi capaz de o fazer. O Evangelho diz-nos que “se lhe anuviou o semblante e se retirou triste”.

Dizia ainda Teresa de Calcutá: “Quando vejo alguém triste, fico sempre a pensar no que estará a recusar a Jesus.” A tristeza denuncia o nosso apego – a bens materiais, ao pecado, a memórias dolorosas, àquele rancor silencioso contra alguém, e inclusive aos nossos sonhos e objetivos pessoais. A alegria, pelo contrário, é sinal evidente da presença de Deus na nossa vida, presença que só inunda aquele que se deixou esvaziar. O homem rico foi-se embora triste e perdeu-se na História, sem nome pelo qual o recordarmos. Os Apóstolos, cujos nomes conhecemos, encontraram na renúncia total a felicidade total, como a História o veio provar e Jesus o previu: “Todo aquele que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo (…) e no mundo futuro, a vida eterna.”

A primeira leitura reafirma: a sabedoria vale mais do que a saúde, a beleza, a fama, o poder ou a riqueza, pois só o sábio é feliz. Tenhamos, contudo, cuidado ao falarmos de sabedoria, pois como diz S. Paulo aos Coríntios, a sabedoria divina é frequentemente oposta à humana! A verdadeira sabedoria adquire-se, relembra-nos a Carta aos Hebreus, meditando na Palavra de Deus, que nos faz confrontar a vida com o que que o Senhor espera de nós, desafiando-nos a um “triplo salto” para o tal infinito divino.

Será que dedicamos tempo suficiente à Palavra de Deus, em cada um dos nossos dias? Ou preferimos a palavra do mundo, dos telejornais, das telenovelas, da conversa do café? Temos a tentação de nivelar por baixo a nossa vida, comparando-nos aos outros, aos que roubam, matam, educam mal, não frequentam a Igreja, e perante quem nos sentimos naturalmente superiores. E por isso evitamos a Palavra de Deus, que nos obrigaria, como ao homem rico, a “nivelar por cima”, a darmo-nos conta não do que já fazemos, mas do que nos falta fazer – ou largar – para sermos santos, isto é, alcançarmos a vida eterna.

Hora da missa. Quais homens ricos, corremos ao encontro de Jesus e ajoelhamo-nos, professando a nossa fé no Único que é bom. Depois, sedentos de felicidade, perguntamos: “Que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?” A Palavra irá confrontar-nos. E no Evangelho, Jesus irá desafiar-nos: “Falta-te uma coisa…” Um perdão recusado? Uma ferida que teimamos em manter aberta? Um sonho que insistimos em realizar? Um vício que não conseguimos vencer? Deixemos que a “espada de dois gumes” da Palavra corte o que for preciso. Da nossa resposta depende a nossa felicidade.

 

 

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