Em Caná da Galileia...


Domingo XXX do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

NÓS COMPLICAMOS TUDO!

Amar a Deus e ao próximo: “Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas.” Nós complicamos tanto tudo! “Ama, e faz o que quiseres”, dizia Santo Agostinho…

Quando o Papa Francisco publicou a encíclica “Fratelli Tutti”, houve muita alegria entre crentes e não crentes, mas também, infelizmente, muitas vozes de crítica que se levantaram entre católicos.  Enquanto uns perguntavam – imagine-se! – como podemos chamar irmãos aos não batizados, outros questionavam se não havia, na Igreja, muitos outros temas importantes a tratar, que não o tema da fraternidade universal.

Não faltam, de facto, temas atuais a discutir, por entre regras de liturgia, diretórios de catequese, ou direito canónico. Temos, como cristãos, pelo menos tantos pequenos “mandamentos” quantos os judeus no tempo de Jesus. Preocupados em atualizar e concretizar o Decálogo, os doutores da Lei tinham registado 613 preceitos, que qualquer judeu fiel devia observar.

Transpondo, hoje, para o contexto católico, certamente que desses preceitos fariam parte exigências como comungar na mão ou na boca, rezar em latim ou em vernáculo, etc. Todos estes temas, que precisam de ser abordados numa procura da perfeição, podem, contudo, gerar divisão na Igreja. É realmente muito triste ver, no contexto atual de pandemia, católicos que se recusam a comungar na mão, provocando o sacerdote a desobedecer ao seu bispo ali diante do altar.

O Evangelho tem 2000 anos, e ainda temos dúvidas sobre a resposta que Jesus dá a todas estas questões? Depois de lermos como Jesus desvalorizava a fé ritualística, não exigindo aos seus discípulos as lavagens rituais dos copos e das mãos, nem respeitando as regras do Sábado, ainda não entendemos? O doutor da Lei questiona Jesus sobre a ordem de importância dos mandamentos, e como é seu hábito, Jesus volta a pergunta do avesso: só descobrirás a importância relativa de lavar um copo ou uma vasilha de cobre ou de comungar assim ou assado, se o teu coração estiver centrado no amor. Sem amor, de nada valem os teus rituais. Porque te preocupas em lavar liturgicamente o copo se não lavas o coração? Porque te preocupas em receber Jesus diretamente na tua língua, se a tua língua está muito mais conspurcada que as tuas mãos? Como podes defender publicamente a superioridade de uma missa tradicional ou do canto gregoriano, se depois, ao comentares nas redes sociais um artigo de opinião contrária à tua, de imediato avanças para o insulto e o julgamento do outro? “Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força.” (FT nº 92) Ama a Deus e ao próximo, e todas as restantes leis se ordenarão por si mesmas. Lembra o Papa: “o paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.” (FT nº74) E, acrescento eu, a forma de viver de alguns crentes, a forma de se expressarem nas redes sociais, a vaidade com que se dedicam ao culto de si mesmos, a sua capacidade para encontrarem motivos de divisão, são um escândalo abominável aos olhos de Deus. Sejamos, como diz S. Paulo, “imitadores do Senhor”, a fim de nos tornarmos “exemplo para todos os crentes.”

Não, não é verdade que a Igreja de hoje tenha assuntos mais importantes que o amor para se ocupar. O amor a Deus, que pela sua natureza, exige vida sacramental, vida de oração e completa dedicação à Igreja, Corpo de Cristo, só é verdadeiro se se traduzir em gestos de misericórdia para com o próximo. Carlo Acutis, o novo jovem beato, tinha um “kit de santidade”: missa, adoração e terço diários, confissão semanal e, sempre e em todo o momento, serviço ao próximo. Aprendamos!

“Podes carregar-me às cavalitas a subir a serra?”

Esta encíclica, bem como a afirmação de Jesus, vêm lembrar-nos o que já o Livro do Êxodo dizia: “não prejudicarás o estrangeiro, (…) não maltratarás a viúva nem o órfão.” Os últimos deverão ser os primeiros a ser servidos. O Papa fala nos crimes da fome e do tráfico humano, no problema da emigração. Olhemos para a multidão de estrangeiros que batem desesperadamente à porta da Europa e dos EUA. Como podem os cristãos levantar muros? Olhemos para todas as formas de racismo ou exclusão. Diz o Papa: “Às vezes deixa-me triste o facto de (…) a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. (…) É importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade (…).” (FT nº 86)

Há sempre alguém metido em apuros…

Hora da missa. Sobre este altar feito cruz, és o último dos últimos, o pobre a quem nem a capa deixaram. Como pudeste descer tão baixo, ó Altíssimo? Rezo ao Pai, com o Papa: “Concedei-nos, a nós cristãos, que vivamos o Evangelho e reconheçamos Cristo em cada ser humano, para O vermos crucificado nas angústias dos abandonados e dos esquecidos deste mundo e ressuscitado em cada irmão que se levanta.” (FT, oração final) Ámen!

8 Comments

  1. Sónia Santos

    Obrigado por esta reflexão querida Teresa!

    O Daniel está de se trincar 🙂

    Que rapazola destemido!

    Beijinhos

  2. Obrigada Teresa 😊
    Já comecei a ler a encíclica mas ainda vou longe de acabar!
    Beijinhos para todos!

  3. Catarina Silva

    Tanta verdade nesta reflexão. É pena que a verdade seja, tantas vezes, ignorada 🙁
    Obrigada Teresa! Que saudades das vossas peripécias familiares!

    • Ahahah, já partilhámos peripécias suficientes para poderem inspirar outros a entrelaçar a Escritura e a vida! Continuamos cheios de entusiasmo e de peripécias, claro! Enquanto a pandemia não nos deixa organizar retiros abertos a todos, vamos partilhando as nossas peripécias com as Famílias de Caná nos retiros de formação e em encontros família a família, porque por aqui, tudo continua a girar 🙂 Um abraço!

      • Catarina Silva

        É verdade Teresa! Peripécias familiares vossas para nos inspirar, é coisa que não nos falta! Contudo, esse elemento mais pequenino da vossa família com cara de boneco, tem ar de vos proporcionar belas e hilariantes peripécias!
        Claro que isto é só uma suspeita, posso estar enganada! 😉

        • Sim, o nosso Nenuco é realmente fonte de inspiração. E eu vou tomando nota de alguns momentos, para os publicar algum dia em algum formato, se vier a calhar, ou pelo menos, para os partilhar nos retiros e encontros! Bj!

  4. Andreia Ribeiro

    Abençoada Teresa, que sensatez e lucidez nas sua palavras. Obrigada uma vez mais. Para ler e reler 70 x7

  5. ANA MARIA JORGE RIBEIRO ALVES

    Li com renovado interesse.

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