Em Caná da Galileia...


Domingo XXX do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

QUAL O NOSSO ESPELHO: O MUNDO OU A PALAVRA DE DEUS?

“Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano.” Assim começa a parábola que marca o domingo de hoje. A quem se dirige Jesus? Certamente que a mim e a ti, ou estaremos, também nós, a perder o nosso tempo no templo, como perdeu o fariseu.

“Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros,”, diz o fariseu, num monólogo que confunde com oração. Qualquer pessoa concordará que os ladrões, injustos e adúlteros não agradam a Deus. Nisto, o fariseu está certíssimo! Estamos, sem dúvida, perante uma “boa pessoa”, que “jejua duas vezes por semana e paga o dízimo de todos os seus rendimentos”.

Quando, ao fim do dia, ligamos a televisão para ver o que se passa pelo mundo, certamente que também nós suspiramos de alívio por não sermos como tantos. E do conforto do nosso sofá, sentimos um justo orgulho por sermos “boas pessoas”.

“Meninos, hoje é dia de confissão na paróquia, vamos aproveitar”, disse um dia aos adolescentes da minha catequese. Dez pares de olhos fixaram-me com espanto: “Teresa, confessámo-nos há três meses! De lá para cá, que fizemos nós que valha a pena confessar?” Somos todos “boas pessoas”, que não fazemos mal a ninguém, que vamos à missa ao domingo e que rezamos as nossas orações. Instalados na nossa autossatisfação, de facto não precisamos de Deus para nada.

“Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens…” Se o nosso espelho for o mundo, não há dúvida de que, como o fariseu, nos podemos sentir tranquilos. No estado em que as coisas estão, qualquer um de nós consegue ser melhor do que os exemplos que vê em volta. Mas seremos nós chamados a compararmo-nos com o mundo?

E se, em vez do mundo, o nosso espelho for a Palavra de Deus? “Sede perfeitos, como o vosso Pai do Céu é perfeito” (Mt 5, 48), disse Jesus. O que acontece então quando decidirmos olhar, não para os piores de entre nós, mas para os melhores e, acima de tudo, para o Único Santo? O que acontece quando decidimos examinar a nossa vida de Evangelho na mão?

Foi isso mesmo que fez o publicano. De joelhos, “batia no peito e dizia: Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador.” Diz, hoje também, Ben-Sirá: “A oração do humilde atravessa as nuvens e não descansa enquanto não chega ao seu destino”. Colocando-se humildemente diante d’Aquele que tudo conhece, o publicano recebeu uma graça muito grande: compreender que era pecador. E em vez de fazer um extenso relatório das suas conquistas, limitou-se a pedir perdão.

No seu Diário, Santa Faustina conta como um dia, depois da comunhão, teve uma perceção da sua miséria, de tal maneira forte, que foi preciso Jesus intervir: «Estás a ver o que és por ti só, mas não te assustes com isso. Se Eu te revelasse toda a tua miséria, morrerias de espanto. No entanto, deves saber o que és…” (Diário, nº718) Peçamos ao Senhor esta graça! Porque quando Jesus no-la dá, ela vem sempre acompanhada de uma outra, igualmente extraordinária: a compreensão da sua infinita misericórdia. De facto, depois de revelar a Faustina o seu pecado, Jesus fê-la experimentar um pouco do seu imenso amor, mas tratou de explicar: “Não suportarias a grandeza do amor que tenho para contigo, se Eu te revelasse esse amor aqui na Terra em toda a sua plenitude. Frequentemente afasto um pouco o véu para ti, mas deves saber que isso é apenas uma graça excecional. O meu amor não conhece limites.”

O fariseu era cumpridor, mas não tinha um pingo de amor pelo seu Deus. D’Ele, esperava apenas a recompensa final. Não havia no fariseu qualquer intenção de “consolar o Senhor”, essa bonita e singela expressão de São Francisco Marto. Não havia no fariseu qualquer intenção de reparar pelo pecado dos tais “ladrões, injustos e adúlteros”, nem de lutar para que o seu Senhor fosse conhecido e amado.

Contrastando com tamanha frieza, o publicano estava verdadeiramente emocionado. Descobrindo-se amado, já só desejava amar. Descobrindo-se perdoado, tudo nele era agora desejo sincero de conversão. A sua vida nunca mais seria a mesma.

Assim aconteceu também com Paulo. Logo que a visão de Jesus surgiu no espelho onde se revia, Paulo dedicou-se de alma e coração à evangelização, para que Jesus fosse amado e todos, n’Ele, pudessem ser salvos: “O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todas as nações a ouvissem.” O amor, não os méritos, fá-lo esperar do Senhor a “coroa da justiça,” prometida “a todos aqueles que tiverem esperado, com amor, a sua vinda”.

Hora da missa. Entro na igreja e ajoelho, porque não posso estar de pé diante da tua santidade. Não Te trago um relatório das minhas conquistas, porque não as contabilizo nem me foco nelas. Não quero que o meu olhar pare tão rasteiro! Contemplo a tua misericórdia, crucificada sobre este altar. Aquece o meu coração, remexe as minhas entranhas, converte-me de verdade! Tem piedade de mim, Senhor, que sou pecador…

4 Comments

  1. Célia Canadas

    Obrigada! Beijinhos

  2. Ana Timóteo Ramos

    Obrigada por tudo.

  3. “Se Eu te revelasse toda a tua miséria, morrerias de espanto.” Aqui fica tão claro como a consciência de pecado é, de facto uma graça concedida. E também, que Jesus modera essa mesma consciência e não é para nos sentirmos santinhos (quais fariseus!), antes para não cairmos por terra diante da nossa miséria real. É uma substâncial diferença! Aqui contemplo o amor paternal de Deus.
    “Não suportarias a grandeza do amor que tenho para contigo (…).” – mistério para contemplar, apenas.
    Oh, Teresa, obrigada! Deus te conserve a clarividência de pensamento!

  4. “Mas seremos nós chamados a compararmo-nos com o mundo?”
    De repente alguém questiona: como saber qual o limite entre confiar em Deus e ter bom senso? Entre viver com confiança em Deus e viver com bom senso (no que toca às condicionantes deste mundo – trabalho, dinheiro, reconhecimento social, obrigações e responsabilidades, ter ou não ter filhos e quando os ter…)?
    Quando é que viver confiando plenamente em Deus começa a ser (ou pode ser) irresponsabilidade?

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