Em Caná da Galileia...


Domingo XXXI do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

OUVI DIZER QUE IAS PASSAR…

“Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade.” Hoje, Jesus entra na nossa terra e começa a atravessar a cidade…

Ele vem aí! O que nos impede de correr até Ele? Ouvi dizer que vai estar na igreja matriz, que vai pregar e, depois, multiplicar o Pão, converter corações, transformar vidas, como sempre fez na Galileia, Judeia e Samaria, como sempre fez ao longo dos séculos e continuará a fazer até ao fim dos tempos. Jesus aqui tão perto, e eu tão longe!

Zaqueu era um homem rico e pecador. “Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura.” A sua criatividade foi transformada em Palavra de Deus: “Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro…”

“Mãe, pai, não consigo ver nada daqui!” Dizem as crianças, “de pequena estatura”, ao entrar na igreja. Cheguemo-nos à frente! E em casa, usemos de toda a nossa criatividade para transformar um momento de oração familiar numa desafiante “subida a uma árvore”. Ou então – e porque não? – subamos realmente a uma árvore, brincando pelo campo ao redor de algum santuário, aproveitando um piquenique em família para caminhar ao ritmo da Via Sacra ou do Terço. Exploremos todas as possibilidades – literais e figuradas – que esta Palavra nos dá!

Em Fátima, há alguns anos…

Ainda em Fátima, há alguns anos, noutra ocasião…

Santuário Nossa Senhora do Socorro, no ano passado…

Jesus “havia de passar por ali”. Entremos na igreja e cheguemo-nos à frente, se somos pecadores – como Zaqueu. Que ninguém se envergonhe de se aproximar de Jesus, na igreja como na vida! Diz a Sabedoria: “Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que fizestes, porque, se odiásseis alguma coisa, não a teríeis criado”. Nenhum de nós vive fora do olhar carinhoso de Deus, este Jesus que, ao passar sob a nossa “árvore”, olha para cima e diz: “Zaqueu (João, Maria, Cristina), desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa!”

“Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria.” Jesus não apontou a Zaqueu nenhum pecado. Delicadeza divina! Não tenhamos medo da acusação de Deus, nem durante a vida, nem na hora da morte. Seremos sempre nós a identificar o nosso próprio pecado e a coloca-lo sob o olhar do Senhor, como fez Zaqueu. “Deus vai castigar-me por este pecado”, dizemos. Mas o único castigo é esta nossa dor intensa por não podermos alterar o passado. E se sintonizarmos o coração com o do Senhor, até este castigo espiritual será “brando”, como explica a Sabedoria, bem distante da dolorosa tortura do remorso. Quanto a Deus, só sabe rejubilar e festejar, porque Lhe abrimos a porta. O seu maior poder é precisamente o poder de nos amar mesmo quando O ofendemos, diz a Sabedoria: “De todos vos compadeceis, porque sois omnipotente, e não olhais para os seus pecados, para que se arrependam.”

No exato momento em que recebeu Jesus em sua casa, tudo mudou na vida de Zaqueu. De ladrão, passou a benfeitor dos pobres, e a sua generosidade foi muito para além do que a Lei de Moisés ordenava. Os que “murmuravam, dizendo: Foi hospedar-se em casa de um pecador”, certamente que dias depois se calavam, envergonhados.

Não é possível abrir a porta a Jesus sem que toda a nossa vida mude. Não porque Deus exija de nós alguma coisa quando nos visita – Jesus não exigiu absolutamente nada a Zaqueu – mas porque o contacto com a sua Santidade nos santifica. Assim, se estamos há anos a receber Jesus através dos sacramentos e ainda nada mudou na nossa vida (especialmente situações de pecado grave e permanente, como no caso de Zaqueu), hoje é a altura certa para nos questionarmos: estaremos a exagerar no “protetor solar” contra o amor de Deus, deixando passar determinado tipo de “raios” mais suaves e filtrando os mais fortes, os que marcam e queimam? Estaremos a abrir a porta por tradição, ignorando a santa alegria e a santa pressa de Zaqueu? Ou estaremos a fazer pouco da misericórdia divina, repetindo que “Deus ama os pecadores”, mas sem nos deixarmos realmente amar?

É que Jesus não entrou em casa de Zaqueu para trocar dois dedos de conversa nem para tomar um café, mas porque “o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” A visita de Jesus tratou-se, diz o Evangelho, de um salvamento, e num salvamento, todos os segundos contam. Não percamos tempo, enquanto esperamos a Última Vinda do Senhor! Sejamos tão impacientes quanto os primeiros cristãos, segundo nos diz Paulo na leitura de hoje.

Hora da missa. Ouvi dizer que ias passar, e não podia perder esta oportunidade de Te ver. Não esperava mais que isso, pois afinal, sou um pobre pecador… Mas eis que Tu me olhas, chamas o meu nome – Tu conheces o meu nome! – e me dizes: “Quero ficar em tua casa!” Coloco-me na fila dos que Te abrem a porta, recebo-Te na Comunhão e apresso-me a levar-Te comigo. Ah, Jesus, vais hospedar-Te em casa de um pecador! Será que é mesmo aqui, escondido na rotina dos meus dias, que queres morar? Como Paulo, também eu só desejo que me consideres digno do teu chamamento e que o Teu nome seja glorificado em mim! Parece-me ouvir-Te dizer: “Hoje entrou a salvação nesta casa…”

3 Comments

  1. Que reflexão tão profunda e bela! E que ensinamento tão bonito também este mês!

  2. Que benção poder ‘beber’ de tão refrescante ensinamento, poder ter a graça de ler tão sábias reflexões! Ah, Senhor se todos te conhecessem e se pudessem encontrar conTigo…. também em suas casas podia entrar a salvação.
    Bem-haja Teresa pela graça que o Senhor lhe concedeu. Que nunca perca o ânimo de continuar a partilhar connosco estas reflexões. Que Deus vos recompense por tão belo anúncio!

  3. Natércia Fernandes Coelho

    Olá! Como não se deixar tocar pela personagem de Zaqueu! Diante de Deus somos todos minúsculos, e bem precisamos subir ao sicómoro, sair do nosso conforto e do nosso orgulho para O encontrarmos. É hoje ou nunca!! E é bem verdade que muitas vezes exageramos no protetor solar, e é impossível que os raios da graça nos alcancem. Obrigada pela reflexão, Teresa! 😊🌸🙏🏻

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