Em Caná da Galileia...


Domingo XXXII do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

QUEREMOS MELHORES EXEMPLOS?

As leituras deste domingo apresentam-nos duas mulheres valentes, dessa valentia que caracteriza os santos e que os faz desafiar os pensamentos sensatos e equilibrados do “cristão mediano”. Estas mulheres valentes não foram rainhas, mas duas humildes viúvas, que nos tempos bíblicos se encontravam entre os mais pobres dos pobres. Ambas receberam de Jesus o reconhecimento dos seus méritos, no Evangelho de hoje e, no caso da viúva de Sarepta, no Evangelho de Lucas (4, 26). Vale a pena imitá-las.

No reinado de Acab, no século IX a.C., uma grande seca destruiu as colheitas por toda a região de Canaã. O profeta Elias, também atingido pela fome, recebeu de Deus a promessa de que em Sarepta, cidade pagã, uma viúva pobre lhe mataria a fome. Como poderia uma viúva pobre saciar a fome de alguém? Contra toda a esperança, Elias acreditou.

Assim que entrou na cidade, Elias encontrou a viúva da promessa, curvada sobre a terra apanhando lenha. Elias apressou-se a pedir-lhe alimento, mas a viúva, com honesta simplicidade, falou-lhe da sua extrema pobreza. Restava-lhes, a ela e ao filho, uma única refeição antes da morte, explicou. Foi então que a situação, quer do lado de Elias, quer da viúva, se tornou totalmente ilógica e insensata: Elias pediu à viúva que preparasse o pão, não para ela e o seu filho, mas para ele, Elias, um estrangeiro, com a promessa de que Deus a recompensaria infinitamente; e a viúva, cheia de fome, aceitou tamanha loucura, acreditando na promessa de um Deus de que nunca ouvira falar. Os santos, já o sabemos, são loucos… Mas o resultado desta loucura não se fez esperar: “Desde aquele dia, nem a panela da farinha se esgotou, nem se esvaziou a almotolia do azeite, como o Senhor prometera”. Deus cumpriu a sua promessa a um e a outro, e a salvação chegou a ambos.

No Evangelho, Jesus fala-nos de uma outra viúva. Também ela, santamente insensata, deitou no cesto das ofertas “tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver”: duas pequenas moedas. Pelo contrário, os fariseus ricos deitavam quantias avultadas, tendo o cuidado de se fazerem notados, a fim de receberem elogios e expressões de admiração. Mas essas quantias avultadas não lhes faziam falta, pois davam do que lhes sobrava. E quem dá do que lhe sobra, aos olhos de Deus não dá nada.

Como a viúva do Evangelho, também nós sentimos, alguma vez na vida, que só possuímos “duas pequenas moedas”, sejam elas talentos naturais, sejam elas a nossa vida difícil ou atormentada. Como a viúva de Sarepta, também nós sentimos, alguma vez na vida, que chegámos ao limite da “farinha” e do “azeite”. Talvez achemos que não podemos fazer mais nada pelo nosso casamento, por um filho, por um amigo; talvez sintamos que não temos tempo para dedicar às obras da Igreja ou ao serviço do próximo, ou que não temos dons para oferecer; talvez achemos insensato ter mais um filho, ou doar mais dinheiro para uma causa nobre. Talvez nos sintamos tentados a acomodarmo-nos na mediania, vivendo uma religião de mínimos obrigatórios, sem correr riscos.

Mas se quisermos conhecer o milagre de Deus, a vida em abundância de que Jesus tanto fala, precisamos abandonar este bom-senso e, num grande salto de fé, imitar a viúva do Evangelho, a viúva de Sarepta e todos os santos, dando do que nos faz falta e não apenas do que nos sobra, ou como dizia a Madre Teresa, dando até doer, quer se trate de tempo ou de dinheiro, de paciência ou de perdão, de alegria ou de serviço, de obras de misericórdia ou de planeamento familiar.

O nosso mundo cristão ocidental está cheio de gente razoável, que dá do que lhe sobra, sem correr riscos. Poucos se esvaziam completamente do que são e do que têm, para fazer espaço para a generosidade divina. “Já fiz a minha parte”, “já faço o suficiente”, ouvimos com frequência. Mas fazer a nossa parte não é suficiente na lógica divina. Contemplemos o modelo da nossa fé, Jesus Cristo. Diz a Carta aos Hebreus: “Ele manifestou-Se uma só vez, na plenitude dos tempos, para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo.” Jesus não foi razoável nem sensato, e da Encarnação à Cruz, a sua vida foi um contínuo despojar-Se de toda a sua infinita riqueza. Ele fez muito mais do que “a sua parte”, deu muito mais do que o que seria suficiente. Queremos melhor exemplo?

Hora da missa. No cesto das ofertas, iremos colocar alguns trocos, que não nos farão falta. Mas mesmo que façam, não são, de todo, suficientes. Precisamos de dar mais. Que temos nós para levar ao altar, juntamente com o pão e o vinho? Entremos no mais profundo de nós mesmos e escutemos o pedido – certamente tão “insensato” como o de Elias à viúva de Sarepta – que o Senhor nos faz… Cada um saberá dizer qual ele é. Vamos recusar-Lho? Entreguemo-nos, sem medo, num ato de fé. Pois com o pedido, vem a promessa. E o pão e o vinho, “frutos do trabalho do homem”, frutos da nossa entrega, serão milagrosamente convertidos em alimento de eternidade, o Corpo e o Sangue do nosso Salvador. Ámen!

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