Em Caná da Galileia...


Domingo XXXIII do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

O FIM DO UNIVERSO NÃO É UMA MÁ NOTÍCIA

O ano litúrgico está a chegar ao fim. No próximo domingo, será a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. Que maravilha! Aqui deste lado do planeta, os dias são cada vez mais frios, pequenos e escuros; mas a cada missa que celebramos, eles tornam-se mais repletos de luz e de esperança… Tudo na liturgia destes dias se harmoniza como uma sinfonia em contínuo crescendo, cada vez mais forte, mais bela, mais sentida, até à grande apoteose final, que nos faz saltar do nosso lugar e aplaudir de pé.

Num destes fins de tarde escolares, os meus filhos conversavam animadamente em volta de uma enciclopédia ilustrada sobre o Universo. O tema, sugerido pelas aulas de Físico-Química, era o Sistema Solar. As perguntas ao irmão mais velho, estudante universitário apaixonado por Física, estavam cheias de espanto: é verdade que irá chegar o dia em que o Sol explodirá e deixará de haver vida na Terra? É verdade que as estrelas que vemos brilhar no céu já morreram há muito tempo? A Física tem a resposta a muitas destas perguntas, o irmão mais velho também; e segundo o Evangelho, Jesus também: “Naqueles dias, o Sol escurecerá e a Lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu”. E ainda: “Passará o céu e a terra…”

O fim do Universo é uma má notícia? De forma alguma! É que quando o Sol deixar de iluminar, viveremos iluminados por uma luz bem mais bela e quente, a luz do amor salvífico de Jesus: “Então hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória.” E se o céu e a terra passarão, como a Física e Jesus nos dizem, “as minhas palavras não passarão”, diz-nos o Senhor, falando de eternidade. Então já não serão precisas estrelas, pois seremos nós mesmos, os que tivermos praticado o duplo mandamento do amor, a iluminar o firmamento: “Os sábios resplandecerão como a luz do firmamento e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade.” Haverá melhor notícia?

Mas as leituras deste domingo não nos falam apenas da interceção entre a Física e a Palavra, entre o fim do Universo e o esplendor da Eternidade. As leituras deste domingo falam-nos de algo muito mais próximo de nós, muito mais corriqueiro e, contudo, igualmente grandioso. É que este Jesus, que virá um dia de forma espetacular inundar tudo com a sua luz, vem continuamente ao nosso encontro, revelando-Se por inteiro a cada geração: “Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça”, assegura-nos. Ao falar-nos da “grande aflição” que atingirá a Terra, não está Jesus a falar de todas as aflições da História da Igreja, desde as primeiras perseguições aos cristãos até hoje? Talvez afinal estes textos apocalípticos de Marcos se refiram, não ao fim do Universo, mas a toda a História cristã, uma história feita de dor, perseguição, angústia – e contudo, uma História repleta de esperança, porque a Igreja é o sacrário vivo do Senhor, a sua forma de Se fazer presente junto dos homens de todos os tempos e lugares.

Assim o atesta também a leitura do livro de Daniel: “Naquele tempo surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então…” Estamos a escutar as palavras do escritor bíblico, ou do Papa Francisco quando, no mês passado, nos pediu que rezássemos todos os dias ao Arcanjo Miguel para que viesse em defesa da Igreja, ameaçada de divisão e vivendo tempos de terrível angústia? Não, não estamos apenas perante cenários futuros; estamos bem enraizados no presente. E se, no ciclo da História, estes momentos de angústia se repetem, eles também acontecem no ciclo da vida de cada um de nós.

Que fazer, quando na História da Igreja e na nossa história pessoal vivemos tempos de angústia? Desesperar? Pelo contrário: “Quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta”, diz Jesus. E Daniel explica: “Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo”. Um cristão desesperado é uma contradição. Porque os momentos de maior aflição são também os momentos da nossa salvação, os momentos em que a graça de Deus nos fortalece e nos purifica, os momentos em que o Céu se abre para nós, como nos assegura a Escritura. Paradoxos divinos!

Hora da missa. Uma igreja talvez mal iluminada e fria, alguns bancos vazios, a chuva a cair lá fora. Talvez o sacerdote, participante deste sacerdócio de Jesus de que nos continua a falar a Carta aos Hebreus, seja jovem e eloquente, ou talvez nem por isso. Talvez eu me sinta bem aqui, ou talvez não. Que importa? Jesus vai passar por mim como tem passado por cada geração de crentes; Jesus “está perto, mesmo à porta”, escondido no irmão a meu lado, no sacerdote, na Palavra, no Pão e no Vinho. Ele está à minha porta, mas a chave está do lado de dentro. Se decidir abrir, poderei cantar como o salmista: “Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida, alegria plena em vossa presença, delícias eternas à vossa direita”… Vem, Senhor Jesus!

 

2 Comments

  1. antónio assunção

    Teresa Este como os outros é um comentário cheio de esperança… que também se pode dizer com o Hino da Liturgia das Horas “A primavera vem depois do inverno … a alegria virá depois da cruz” Só de coração aberto, por dentro, se podem conhecer os caminhos da vida Vem, Senhor Jesus!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *