Em Caná da Galileia...


Domingo XXXIII do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

CABELOS AJEITADOS PARA ENTRAR NO CÉU

Texto após texto, a Palavra vai abrindo caminho para o grande final. E enquanto as nossas mentes se povoam de imagens aterradoras, S. Paulo vem dizer que a única coisa que importa é o aqui e o agora do dever tranquilo…

“Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas”. Grandioso e carregado de História, o Templo de Jerusalém impressionava qualquer um. Mas Jesus não se deixa iludir: “Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído.” Algumas décadas mais tarde, o impensável aconteceu, e o templo foi destruído irremediavelmente. Com o seu pesado simbolismo, a destruição do templo marca o fim de uma Era, a do Povo Escolhido, e o início de uma outra, a Era da Igreja. É nela que vivemos ainda, à espera do Último Dia, em que também a Igreja deixará de ser necessária, porque o Reino de Deus se estenderá a toda a Terra.

Habitamos, pois, entre o “já não” e o “ainda não”, entre as ruínas do Templo de Jerusalém e as construções e reconstruções das nossas igrejas, da Porciúncula à Notre Dame. “Não ficará pedra sobre pedra”, nem do templo, nem de qualquer igreja, nem das nossas casas, nem sequer dos nossos títulos ou posses ou ambições. “Tudo será destruído”, tudo se perderá nos escombros do tempo e do espaço. Pobres de nós, se depositamos a esperança nas “belas pedras” das nossas conquistas! O Templo de Jerusalém tinha de ser destruído, para que a Igreja nascesse; as nossas vaidades têm de ser reduzidas a palha – assim diz Malaquias – para que a nossa verdadeira grandeza se manifeste. “Não vos alarmeis”, diz-nos Jesus, “quando ouvirdes falar” de destruição e perda. “É preciso que estas coisas aconteçam primeiro” na nossa vida, para que se crie em nós espaço para algo melhor.

Entre a Queda de Jerusalém e os Últimos Tempos, vivemos o Tempo da Igreja. Gostaríamos que fosse um tempo fácil, em que a evidência da superioridade dos valores cristãos se impusesse naturalmente. Para nós é tão claro! Porque não o é para todos? De facto, o que a História tem testemunhado é bem diferente: “deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, por causa do meu nome”, profetizou Jesus. “Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome.”

A marca do cristão é a marca da derrota; pois que maior derrota que a do Crucificado? E contudo, esta derrota, como a Queda de Jerusalém, é a chave para a verdadeira vitória, a vitória do Ressuscitado. Penso nos mártires de todos os tempos, felizes na hora sublime do seu martírio. Recordo Santa Perpétua, esposa e mãe, que preferiu o amor de Jesus ao da própria família, tendo-se separado do filho que amamentava, pouco tempo antes de ser lançada às feras. Os registos da época dizem que Santa Perpétua e a sua amiga Felicidade “entraram na arena como se entrassem no Paraíso, alegres e serenas. Se tremiam, era de alegria, não de medo.” Mas a frase mais brilhante é esta: estando já em plena arena, sofrendo o ataque do animal feroz, “Perpétua ajeitou o seu cabelo desalinhado, pois não é próprio de um mártir morrer com o cabelo desalinhado, não fossem os espetadores pensar que ela lamentava a sua glória.” Só os santos são realmente felizes, porque só eles sabem, com absoluta certeza, que “nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá”, como assegura Jesus.

Santa Perpétua…

Este Tempo da Igreja é, assim, o nosso tempo, o tempo em que nos preparamos para o Juízo Particular, para o feliz encontro com o Esposo. Se alguns são chamados a dar testemunho na arena do martírio, a grande maioria dos cristãos precisa de “ajeitar alegremente o cabelo” numa arena muito mais trivial: a rotina de cada dia.

O tempo urge, não o percamos com futilidades nem na ociosidade, adverte Paulo. “Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga”, diz, mostrando-nos como o nosso justo cansaço agrada ao Senhor. Não é o cansaço de quem acumula “belas pedras” e se serve a si mesmo. É antes o cansaço de quem cumpre fielmente o seu dever, a fim de “não se tornar pesado a ninguém”, pelo contrário: pronto para aliviar o próximo dos seus pesos. Porque Deus gosta que nos gastemos no cuidado dos filhos e dos pais, no serviço aos irmãos e à Igreja, no sustento da família.

Trabalho de equipa: estendendo a roupa

Hora da missa. Sobre o altar, contemplo a Vida que ofereces na tua morte, a força da ressurreição que brota da tua crucifixão. Destruímos o Templo do teu Corpo, e Tu o reconstruíste ao terceiro dia… Sobre o altar, contemplo também a minha vida, a vida que brota das mortes contínuas e diárias que vou experimentando, em casa e no trabalho, no corpo e no espírito. O teu dia, diz o profeta, é ardente como uma fornalha. Que seja hoje então, que seja aqui e agora! Vem, Senhor, e queima toda a palha que juntei! Que eu persevere no cumprimento do dever diário, “com esforço e fadiga”, sem alienações nem vaidade, preparando alegremente o nosso encontro final…

 

2 Comments

  1. Na pequena heroicidade do dia a dia sem vaidade, aceitando o esforço e a fadiga….. Assim é a cruz da maioria de nós.
    Este blog tem sido um Cireneu para mim.
    Bem hajam.

    • Querida leitora, que alegria o seu comentário! Continuemos a ajudar-nos uns aos outros a carregar a cruz que o Senhor vai partilhando connosco! Nós, Jesus!

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