Em Caná da Galileia...


Farisaísmos

No meio das polémicas que marcaram a semana passada no Vaticano, com a publicação do livro do cardeal Robert Sarah, encontrei um artigo seu já com mais de um ano, onde o senhor cardeal dizia que a prática da comunhão na mão fazia parte de um ataque diabólico à Eucaristia. E perguntava, “porque nos obstinamos a comungar de pé e na mão?”

Reagi com espanto e indignação: eu, obstinada a comungar de pé e na mão? Porque me iria obstinar? Se comungo de pé e na mão, é porque a Igreja a que pertenço mo permite e mo ensinou a fazê-lo, o que não pode, com objetividade, ser considerado obstinação. E se há alguma coisa de diabólico nisto tudo – a marca de Satanás é a divisão – é precisamente a afirmação citada.

“Ah, mas os exorcistas dizem…” Alguns católicos recebem a doutrina da boca dos exorcistas, confiando mais neles do que no papa, o que deve agradar imenso a Satanás.

Palavra puxa palavra, artigo puxa artigo, acabei a ler muita coisa relacionada com esta visão tradicionalista, ou ultra-conservadora da Igreja. Há hoje muitos católicos que celebram a chamada Missa Tridentina, em latim e com o sacerdote de costas para o povo. Aqui sim, podemos usar a palavra obstinação. Porque se o nosso Papa diz que “a reforma litúrgica é irreversível”, só a obstinação justifica que se queira impedir o seu curso.

E como justificam estes católicos a sua obstinação? Alegando que o ritual tridentino tem uma história milenar, que “sempre se fez assim”, que o latim é a língua mais santa, que todos os santos da História se ajoelharam para comungar… Falam em maior reverência para com a Eucaristia, em devoção, em piedade. E por oposição, julgam os que assim não procedem de orgulhosos, pouco devotos e pouco piedosos.

Jesus passou grande parte do seu tempo a denunciar a hipocrisia dos fariseus. Há até uma ou duas semanas no calendário litúrgico em que o Evangelho do dia se torna, digamos assim, um pouco cansativo, porque começa invariavelmente com vários “insultos divinos”: “Hipócritas!” “Raça de víboras!” “Sepulcros caiados!” (Os meus filhos acham sempre muito útil aprender novas formas de insultar os irmãos quando se zangam, e por isso encontram algo de útil nestes Evangelhos.)

Com uma enorme liberdade de espírito, Jesus não cumpria muitos dos rituais de então: comia sem lavar as mãos, não lavava o interior das vasilhas de cobre, e fazia, ao sábado, uma série de coisas proibidas. Ao contrário dos fariseus, Jesus estava convencido de que o conteúdo é superior à forma, que a fé e o amor são superiores ao rito e que é errado fazermos juízos sobre o valor de algo a partir do que parece ser.

Como podem os cristãos, que todos os dias leem as palavras de Jesus, continuar a acreditar que é preciso vestir capa sobre capa, e renda sobre renda, e mantilha e manto e sapato e chapéu, para que Jesus Se torne presente entre nós na Sagrada Eucaristia?

Ou que é satânico mexer nas tradições?

Ou que existe uma língua superior a todas as outras, como se Deus só compreendesse o latim? Ou que escutar uma série de orações sem as compreender é mais santificante do que fazê-las com simplicidade na língua que se conhece?

Ou que tocar na Hóstia Sagrada é pecado, mas comê-la, não é?

Ou que nos tornamos mais santos por sermos mais rígidos?

Ou que nenhum dos que comungam na mão e em pé pode sequer aspirar à santidade, visto “todos os santos” (e estou a citar o senhor cardeal Sarah) comungarem de joelhos e na boca? (Ah, senhor cardeal, posso dar-lhe alguns exemplos…)

Ou que Deus lhes concedeu mais luzes do que ao Papa Francisco, cabendo-lhes, portanto, a eles corrigir o Papa? (Ah, e por favor, não citem Santa Catarina de Sena e as suas cartas ao papa, como já vi fazer, porque citá-la neste contexto é uma manifestação de ignorância e, imagino, ofensivo para quem tanto defendeu o papado)

Diz o Papa, numa entrevista a Marco Pozza, publicada em livro com o título Ave Maria:

Existe um pecado que agrada muito a Satanás, o pecado da elite. A elite não sabe o que significa viver no povo e não falo de uma classe social, falo de uma atitude da alma. É possível pertencer-se a uma Igreja de elite… O diabo gosta de elites.

Numa das suas catequeses, o Papa Francisco falou da comunhão. E disse:

De acordo com a prática eclesial, o fiel aproxima-se normalmente da eucaristia em forma processional, e comunga em pé com devoção, ou de joelhos, como estabelecido pela Conferência Episcopal, recebendo o sacramento na boca ou, onde é permitido, na mão, como preferir. Depois da comunhão, para conservar no coração o dom recebido, o silêncio e a oração silenciosa ajudam-nos. (22-3-18)

Perguntava-me outro dia o nosso bispo enfaticamente: “Teresa, como é que nós pecamos mais: com as mãos ou com a língua?” Eu sorri, não só porque a resposta é evidente, mas também porque a pergunta me pareceu típica de Jesus.

Claro que a comunhão nas mãos favorece a falta de reverência, e basta estar atento à procissão dos comungantes nas paróquias um pouco por todo o lado para o constatar. Mas esta falta de reverência não significa senão falta de catequese. Talvez fosse importante os sacerdotes dedicarem um pouco do tempo de homilia a ensinar os seus paroquianos a comungar com reverência, pois bem sabemos que a homilia é o único acesso à catequese da maioria dos cristãos. Obrigar a todos a comungar na boca resolve de imediato o assunto e poupa aos pastores o esforço da educação na fé. É mesmo isso que queremos?

Ao contrário do senhor cardeal Sarah, nunca me ocorreu fazer distinções entre níveis de piedade ou devoção a partir da forma como os outros comungam. Eu comungo muitas vezes na boca, especialmente quando tenho um bebé ao colo. Mas enquanto me for dado escolher, prefiro comungar na mão. Não é certamente por obstinação. É antes porque as mãos estendidas em concha me fazem sentir pedinte à espera de uma esmola; ou pastorinha a caminho do Presépio, pedindo à Mãe para, por favor, me deixar pegar no seu Menino só um bocadinho; e porque tocar o Corpo de Jesus me recorda o leproso, a mulher adúltera, e tantos outros pecadores dos Evangelhos, que Lhe puxavam ao menos pelo manto. “Quem Me tocou?” Perguntou Jesus. Eu gosto de Lhe responder, “fui eu!” Gosto especialmente daqueles breves segundos em que tenho o Céu na concha das mãos. É para mim um privilégio enorme e uma fonte de meditação incrível.

Mas se um dia, o Santo Padre, ou o meu bispo (uma vez que a decisão local pertence aos bispos) mo proibir de o fazer, alegremente o deixarei de fazer. Não irei, de todo, perder o meu sono por tão pouco, nem fraturar a Igreja a quem pertenço por detalhes de ritual, pois a única coisa que realmente me importa é receber o meu Senhor na morada do meu coração.

Os homens olham às aparências, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16, 7)

disse Deus ao ouvido de Samuel na primeira leitura da missa de hoje.

Quem tem ouvidos, oiça!

 

 

18 Comments

  1. Bom dia Teresa,

    como estamos pontuados de sepulcros caiados, por entre a comunidade católica… é da natureza humana encontrar conforto na rotina e diabolizar o estranho, para conforto das suas escolhas… Gosto de ajoelhar antes de comungar, é uma reverência profunda ante a perspectiva do Milagre que é a Eucaristia… e gosto de pegar no Senhor com a a minha mão, como se afaga um Amor maior… Escolhas pessoais, que cabem na Igreja…

    Vivemos tempos atribulados em que o nosso falar cada vez mais terá de ser sim, sim, não, não… espero que deixemos Deus guiar-Nos, com o exemplo de Sua Mãe Santíssima!
    beijinhos a todos

  2. Vitor espadilha

    Gostei do artigo…isso mesmo..pena nao chegara cardeais ou a tridentinos..mas rezemos para que o Espirito Santo nos ajude a ser Igreja sempre com o papa…obrigado Teresa

  3. P. José A. Fernandes

    Obrigado, Teresa. O seu artigo tem o resumo na própria expressão de Jesus na última Ceia: “Tomai e comei…”
    Tudo tão natural em Jesus.
    Uma simples análise de texto basta para nos maravilhar com o carinho daquelas Mãos que entregam e o respeito-assombro daquelas mãos que recebem e levam à boca o Corpo do Senhor: “Amigos, isto sou Eu! Tomai e comei!”

  4. Que bela reflexão Teresa.
    Acho que devemos rezar por todos estes (cardeais, tridentinos e tantos outros….) que insistem em manter o seu Deus na cabeça, impedindo-O de chegar aos seus corações, aqueles que refletem e tentam compreender algo que as nossas limitações (mesmo as dos grandes intelectuais) não consegue abarcar: o mistério insondável do Altíssimo.
    Se ao menos pudessem colocar esses dons (a inteligência, o conhecimento) verdadeiramente ao serviço do Senhor…
    O meu Deus deu-me a graça de poder todos os dias confrontar-me com o privilégio do conteúdo sobre a forma, quando à noite, em oração familiar, a irrequietude do meu filhote na oração do terço por vezes fala mais alto, mas que ainda assim não o impede de se deixar tocar pelo Senhor e de Lhe rezar paciente e alegremente.
    Também caio na tentação de o chamar a atenção, mas depois também me lembro destes farisaismos.
    «Não olheis Senhor aos nossos pecados, mas à fé com que nos dirigimos a Vós».
    Obrigado Teresa por estas reflexões, que nos alertam e nos ensinam o caminho.

  5. Catarina Silva

    Que maravilhosa e também corajosa reflexão…Ás vezes é preciso coragem para abrir o coração e dizer aquilo que ecoa cá dentro…Muita coragem, mesmo. Faço ideia as vezes que a Teresa pensou sobre este tema e aquilo que teve de “ver”, para escrever sobre este assunto.
    E que bem que escreve! Agradeço muito a oportunidade que Deus me deu de a minha vida se ter cruzado com a vossa e de poder aprender tanto…Sou uma pessoa completamente sedenta de aprender sobre Jesus. A Teresa veio matar a minha sede e aliviar os meus dias!
    Obrigada!

  6. João Silveira

    A imagem mais fiel do fariseu que me é dada ver no Evangelho é do fariseu que vai lá para a frente dizer: “Ainda bem que não sou como os outros, como os publicanos”. Enquanto o publicano apenas pedia misericórdia a Deus dos seus pecados.

    A autora deste texto também se põe na posição do fariseu, enquanto diz: “Ainda bem que não sou como aqueles fariseus, os que vão à Missa Tridentina”, etc. Eu sim sou obediente ao Papa, e um continuar de auto-elogios feitos, mesmo que as entrelinhas.

    Não há nada mais farisaico do que chamar fariseu aos outros. E isto não há “obediência” que salve.

    • Parece-me a mim que esse tom do “ainda bem que…” não é, nem nunca foi, aqui usado… O texto partilhado tem uma riqueza e um conteúdo que não se prendem com essas questoezinhas que só criam mal entendidos. Enfim… Espírito de guerrilha nunca foi opção neste site, muito menos neste movimento!

  7. João Silveira

    Quanto à, erradamente chamada, Missa Tridentina ser para elites. Eu viajo pelo Mundo inteiro para conhecer pessoas que vão à “Missa Tridentina”. Estou neste momento em África, por exemplo. Quem vai à “Missa Tridentina” de elite tem pouco ou nada nestas terras.

    Mas, claro, para saber isto é preciso sair da terrinha e ver como é que as coisas são na realidade. Fazer juízos de valor atrás dum computador é fácil.

    Neste texto vi (quase) todos os lugares-comuns das pessoas que ignoram completamente a “Missa Tridentina”. Alimentam-lhe uma aversão, e a quem a frequenta, baseada apenas em preconceitos.

    A autora deste texto queixa-se da falta de formação das pessoas mas atreve-se a discorrer sobre um tema que ela própria ignora e que aparentemente não tem vontade de conhecer. Sendo assim, porquê escrever sobre ele?

    A consequência óbvia é a divisão da Igreja. A mesma que a autora de orgulha de não fazer, faz. Porque a lei da Igreja Católica permite tanto a “Missa Tridentina” como a Missa que a autora assiste.

    E fazendo uma guerra contra a “Missa Tridentina” faz também uma guerra contra o Papa e contra a Igreja, os mesmos que jura defender.

    • Bom dia! Bem vindo ao nosso site! Obrigada por comentar. Já agora, eu chamo-me Teresa e, por aqui, tratamos as pessoas pelos nomes. Um abraço!

      • João Silveira

        Obrigado, Teresa. Que irónico que no seu comentário a alertar, com maternalismo, para o uso de nomes das pessoas não tenha usado o meu nome, acaba por se contra-dizer…mais uma vez.

        Mas não se preocupe, pode chamar-me apenas fariseu, como fez no texto, e continuar feliz na sua vida. Nem se preocupe por ter escrito um dos textos mais desonestos que já li até hoje. De certeza que ajudou bastante a unidade da Igreja. Agora foi a minha vez de ser irónico. Um abraço

        • Caro João, lamento profundamente o seu comentário. Permita-me que lhe peça o favor de não regressar a este site, porque não é bem vindo. O meu artigo parece tê-lo afetado diretamente, pois o senhor lê o seu nome em todas as referências a fariseus. Mas a verdade é que eu nunca mencionei o seu nome, como reconhece. Agora o mesmo já não se pode dizer dos seus comentários, que me são todos direcionados, em vez de tratarem do tema em questão, e a que eu me recusei a responder por serem tão ofensivos, preconceituosos e indelicados. Visitar um site alheio com ofensas diretas ao seu moderador não me parece, de todo, correto. Nunca o fiz no seu blog… O senhor não me conhece, não sabe o nome da minha terrinha e não faz ideia se eu viajo ou se eu não viajo. Não tem porque falar sobre os temas num tom insultuoso. Não estamos habituados a este tom aqui, tom que já conhecia do seu blog, mas que não é comum nas Famílias de Caná. Irei pois proceder a que o seu contacto seja bloqueado. Sim, fazemos dessas coisas por aqui.

  8. Catarina Campos

    Teresa, o meu nome é Catarina e sou seguidora do seu blog há muitos anos, desde que comecei, com o meu marido, a constituir a nossa família.
    Hoje li com tristeza este texto. Em primeiro lugar porque vejo pouca diferença entre criticar um Cardeal ou um Papa. E depois, porque esperava que, à semelhança do que tem sido apanágio de todo o caminho que tenho acompanhado à distância, houvesse uma tolerância maior e uma capacidade de reconhecer, pelo menos, que há carismas diferentes na Igreja.
    Em meados de 2013 conhecemos a Missa Tridentina e conhecemos uma realidade que nunca nos tinha sido dada anteriormente. Mas nesta Missa não encontrámos apenas um rito diferente: encontrámos uma Missa sem estrelatos, sem protagonismos, sem distrações, centrada em Jesus. O sacerdote não está de costas para o povo, está a guiar o seu povo no sacrifício que oferece no altar. Uma Missa onde o tempo pára e que nos permitiu, no reboliço do quotidiano, sentir a presença de Deus. Uma Missa onde recebemos a absolvição 2 vezes antes de comungar. Uma Missa onde a dimensão divina da Eucaristia se torna empiricamente mais evidente, o que nos ajuda também na preparação interior para receber Jesus.
    Não somos católicos de elite, não queremos ser fariseus, não achamos que somos superiores a ninguém. Também não dominamos o latim, mas seguimos a Missa com um missal completo, que tem a versão em latim e a tradução em português. Percebemos, acompanhamos e participamos, juntamente com os nossos filhos, de uma forma muito mais completa e inteira a Missa. Por haver mais silêncio, as crianças ficam também mais tranquilas.
    A Missa foi celebrada assim durante séculos. Nunca foi dito ou escrito que deveria deixar de ser celebrada assim. Este é o nosso “carisma” e não percebo, por isso, este ataque gratuito. Por que razão este ódio, esta má vontade, esta falta de capacidade de acolher a Tradição da Igreja, que para nós é um verdadeiro tesouro.
    Fico triste que a Teresa pense isso de quem, como nós, vai à Missa Tridentina e nela encontra o seu lugar.
    Como dizia, sigo o vosso blogue há alguns anos e, embora o nosso caminho não tenha passado pelas Famílias de Caná, admiramos o vosso testemunho e muitas coisas que fomos lendo por aqui, fomos adotando na nossa vida também. Só por isso, estou-lhe muito grata Teresa. Mas também por isso compreenderá a minha tristeza ao ler as suas palavras.

    Rezamos por todos, na esperança que um dia a Teresa possa olhar de maneira diferente para a Missa Tridentina e para quem nela participa.

    • Bem vinda aos comentários, Catarina! Só lamento que comente apenas quando discorda de algo. A comunidade cria-se com empatia e partilha ativa, sempre! Espero, portanto, que continue e nos diga o que a ajuda a crescer aqui.
      Quanto à crítica que diz eu fazer, peço-lhe que volte a ler o artigo e o seu início, onde refiro o livro e os vários artigos do cardeal Sarah. Aí ele fala em obstinação e em ataque satânico. Não sei em que é que o meu comentário é mais ofensivo do que o do senhor cardeal… Quanto a criticar um cardeal ou um papa, a diferença é absoluta! Um abraço!

  9. Cristina Duarte

    Mais nada querida Teresa!

  10. Obrigada Teresa pela partilha, pela coragem e pela simplicidade e clareza com que sempre consegue explicar assuntos tão complexos!!

  11. Obrigada pela sua coragem, clareza, frontalidade e amor à Igreja de Jesus Cristo!

  12. Tal como a Teresa descreveu, Jesus Cristo, na sua simplicidade e no seu tão grande Amor era de facto fascinante e desconcertante… O seu Amor era tão simples que para muitos outros era uma complicação!!…
    E ainda hoje é assim, o nosso entendimento parece estar formatado apenas para coisas complicadas, se aparece uma coisa simples, baralha-se, desorienta-se, desconfia… “o que é isto?? Tão simples, na, não pode ser!…”
    Julgo que foi precisamente isso que Jesus quis mostrar em várias situações e que a Teresa relembrou… O conteúdo, o que trazemos verdadeiramente no coração, a nossa fidelidade a Deus, o Amor com que tocamos o outro é o que mais importa…
    Muito obrigada Teresa pelo excelente texto que nos fez reflectir tanto!
    Beijinhos!

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