Em Caná da Galileia...


Festa da Apresentação do Senhor

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

APRESENTAÇÃO DO SENHOR

Neste domingo, por feliz coincidência de datas, celebramos a Festa da Apresentação do Senhor, este mistério que todas as semanas contemplamos no Terço. Nos braços de Maria, Jesus entra pela primeira vez no Templo de Jerusalém…

“Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos pórticos antigos, e entrará o Rei da glória”, canta o salmo hoje. E acrescenta: “Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos, é Ele o Rei da glória!”

Mas naquela manhã, no Templo, não entrou ninguém com trajes reais nem chefiando um exército. Naquela manhã, no Templo, entrou simplesmente uma família humilde, pai e mãe muito jovens com um recém-nascido nos braços e duas pombinhas numa gaiola. Escondido ao colo de Maria, Deus é “semelhante em tudo aos seus irmãos”, como diz o autor da Carta aos Hebreus.

Ornado de belas pedras, guardado por sacerdotes zelosos, visitado por todo o povo de Israel, o Templo de Jerusalém era o sinal mais completo da presença de Deus entre os homens. Mas só a partir daquele dia santo, é que o Templo foi verdadeiramente habitado por Deus. Alguém imaginaria que “o Senhor a quem buscais, o Anjo da Aliança por quem suspirais”, iria “entrar no seu templo” feito recém-nascido ao colo de sua mãe?

Francisco Marto, pastorinho de Fátima, gostava de passar horas a rezar diante do sacrário, onde adorava “Jesus escondido”. Foi certamente um “Jesus escondido” sob muitas mantas quentinhas que Maria levou ao Templo, naquela manhã de fevereiro. O Templo fora construído para Ele, mas quando “o dia da sua vinda” chegou, ninguém O reconheceu…

Exceto Simeão e Ana, dois velhinhos “justos e piedosos”. Diz o Evangelho que tinham o coração purificado pelo jejum e pela oração. Apesar da idade avançada, ousavam viver, não de recordações, mas da esperança que emanava das promessas de Deus. Uma vida inteira à espera do Senhor preparara-os para o grande encontro. As almas simples e mansas reconhecem-se sem dificuldade. Bastou certamente um olhar atento para que Simeão e Ana percebessem que aquela família igual a tantas outras continha, no seu seio, a Salvação.

Jesus entrou no Templo nos braços da Mãe. Sem o colo de Maria, o Templo continuaria vazio de Deus. A Ela coube – e continua a caber – a dignidade de levar Jesus ao Templo e de O oferecer a todos.

Maria é o mais perfeito sacrário, a mais bela píxide, o mais precioso cálice que alguma vez conteve Jesus. Maria é o verdadeiro ostensório que o Pai nos oferece para podermos adorar Jesus. Sem Maria, nenhum sacerdote sobre a Terra seria capaz de celebrar a Eucaristia. Porque sem Maria, não há Pão nem Vinho, “o mesmo sangue e a mesma carne” que habitaram o seu seio virginal e que Maria deu ao mundo. O sacerdote que eleva a Hóstia Santa sobre o altar, enchendo os nossos templos de Deus, recebe-A dos braços de Maria, pois só Ela pode apresentar Jesus ao mundo e introduzi-l’O no Templo.

Por isso também, quando o Pão se parte para dar Vida, o Coração da Mãe parte-se com Ele. No mistério da Anunciação, só houve alegria, porque o Anjo não teve coragem de magoar a Cheia de Graça com profecias dolorosas. Mas no mistério da Apresentação, a Mãe não foi poupada: “uma espada trespassará a tua alma”, diz Simeão a Maria, profetizando sobre o “sinal de contradição” da Cruz. A espada que abriu ao meio o Coração do Filho, abriu também o da Mãe. Em Fátima, será um Coração coroado de espinhos que a Senhora mostrará aos pastorinhos, a pedir reparação. Ninguém magoa o Filho sem magoar a sua Mãe, ninguém abre o Coração de Jesus sem abrir o de Maria, e quem se abriga num, abriga-se em ambos.

“Agora, Senhor, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos”, reza em voz alta Simeão. Que graça tão grande lhe foi concedida, descobrir Deus escondido num bebé, a santidade no quotidiano, a transcendência na normalidade da vida de família! O Natal, que hoje temos a graça de espreitar mais uma vez, trouxe-nos o milagre de um Deus vulnerável, que Se deixa tocar, ver, escutar, apreender pelos nossos sentidos e pela nossa ternura. Teremos nós o mesmo olhar reverente de Simeão? Porque também hoje, o “Rei da glória” e o “Senhor dos Exércitos” Se faz Carne na carne de cada irmão, e Pão sobre os altares de todas as nossas igrejas, até ao fim dos tempos, segundo a promessa.

Hora da missa. Entro de vela acesa, Jesus, porque hoje é o dia em que a tua Mãe leva ao Templo a “luz para se revelar às nações”. Será Ela que, daqui a pouco, Te apresentará sobre o altar, como Te apresentou no Templo. Não sou aqui tão assíduo como Simeão e Ana, nem tenho o olhar tão purificado por jejuns e orações, mas também eu espero a libertação de Israel e do meu povo e, na minha pobreza, também eu Te trago a oblação da minha vida. Concede-me a graça de Te reconhecer, “Jesus escondido” no irmão e no Pão! Por fim, colocar-me-ei na fila dos que Te querem receber e, como fez com o velho Simeão, a Mãe deitar-Te-á, só um bocadinho, no berço das minhas mãos…

2 Comments

  1. Verdadeiramente inspirada pelo Espírito! Que texto tão lindo… obrigada por acolher e cultivar o Espírito Santo, obrigada por nos envolver nesse olhar tão bonito, na esperança da Salvação. Um beijinho

  2. Teresa acho que não há um post seu que não me deixe de lágrima no olho e de coração tocado! Obrigada

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