Em Caná da Galileia...


Gratidão

Num destes domingos participei numa missa de Primeira Comunhão, na Sé Catedral de uma cidade. A missa foi belíssima, as crianças estavam muitíssimo bem preparadas, o ambiente solene, os participantes vestidos a rigor, a música perfeita, enfim, tudo foi maravilhoso.

Houve um único momento que me incomodou: durante a apresentação dos dons – toda ela muito bem organizada -, no momento em que as crianças apresentaram o dinheiro recolhido, o menino que lia o texto correspondente, no meio de muitos outros textos lindíssimos, leu: “Senhor, recebe estas ofertas materiais, um pouco do pouco que nós temos…”

O primeiro “um pouco” está adequadíssimo: os cêntimos que deitamos no cesto do ofertório são realmente um pouco, muito pouco, do que nós temos. Mas o segundo “pouco” chocou-me. Naquela igreja, não me pareceu que alguém tivesse pouco. E mesmo que a festa fosse aqui numa igreja mais rural, mesmo que a festa fosse na aldeia mais pobre de Portugal, quem é que se atreve a dizer que, materialmente falando, temos “pouco”?

Quando vou a Fátima, gosto sempre de visitar as casas dos Pastorinhos, mesmo já as conhecendo de cor. É que faz-me sempre muito bem ver como viviam as famílias antigamente, e como as casas eram espaçosas o suficiente para acolherem oito, dez, treze pessoas à volta de uma lareira – apesar dessas mesmas casas espaçosas caberem inteiras na minha sala.

Muro onde os Três Pastorinhos foram fotografados – Manos Power, 2014

Talvez quem veja o noticiário todos os dias se tenha tornado um bocadinho imune ao sofrimento dos irmãos que, lá longe, na guerra, na fome, nos campos de refugiados, têm realmente “pouco”. Eu peço sempre perdão ao Senhor cada vez que deito fora restos de comida.

E todos os dias agradeço o muito, muito que tenho, espiritualmente mas também materialmente. Acho até que Deus me deu demais. Nunca passei fome. Nunca me faltou que vestir. Nunca me faltou trabalho. Nunca dormi na rua. Nunca mendiguei. Nunca adormeci ao som das bombas sobre o meu telhado. Nunca.

Estou convencida de que um dos pecados que mais enche o Purgatório é a ingratidão. E lembro-me muitas vezes da frase que a Olívia um dia partilhou:

Imagina que amanhã acordavas só com o que hoje agradeceste…

A nossa oração familiar começa todos os dias da mesma maneira. Depois de cantarmos e de rezarmos em coro o Escuta, Israel, fazemos a nossa ação de graças, por ordem crescente de idade. Procuramos agradecer o que de material e espiritual o Senhor nos dá em cada dia, da escola aos amigos, dos pais aos irmãos, do alimento à casa, bem como as surpresas que foram surgindo.

Dia 3 será sobretudo um dia de gratidão. Quando olho para a obra que o Senhor começou, aqui na nossa casa, e que já se estendeu a todo o país, e que agora vai ter um templo próprio, e uma imagem para venerarmos a Mãe… Quando olho para as famílias que o Senhor chamou para connosco caminharem, não posso senão dizer ao Senhor: “Obrigado! Obrigado! Obrigado!”

É por tudo isto que o dia 3 só fará sentido se todos vós aqui estiverem connosco. Para agradecermos juntos. Para chorarmos de alegria juntos. Para louvarmos o Senhor juntos. Para fazermos festa juntos…

 

2 Comments

  1. Está tão bonito! Espero conhecer em breve 😊

  2. Catarina Silva

    Um dos grandes problemas da Humanidade (na minha opinião) prende-se com a gratidão, ou concretamente com a falta dela….
    A maioria das pessoas vive do queixume, tudo serve para se lamentarem. Se não tiverem problemas sérios queixam-se das insignificâncias, nem que seja do estado do tempo, têm é sempre de se queixar de qualquer coisa.
    As pessoas têm memória curta…. lembro-me do meu avô contar várias vezes as dificuldades que a geração dele passou ( o meu avô foi da geração dos pastorinhos). Lembro-me de ser ainda muito pequena e de o meu avô falar de uma mãe que, no tempo das favas, ia roubar favas para cozer para os filhos que não tinham nada que comer e de para ela cozer as cascas das favas. Lembro-me de o meu avô contar que as crianças iam para a escola descalças, no inverno em cima de uma camada de gelo, e de chegarem à escola geladas e com os pés roxos do frio. A professora tinha de lhes enrolar os pés em papel de jornal para aquecerem. Papel de jornal porque era a única coisa que tinha para aquecer os pés das crianças. Alguém faz ideia do que isto é? Alguém consegue imaginar realmente esta realidade? Como seria se tivéssemos de comer cascas de favas cozidas para que os nossos filhos pudessem ter favas para comer? Como seria se mandássemos os nossos filhos para a escola sem nada no estômago, descalços em pleno inverno, em que o seu único conforto seria jornal para embrulhar os pés?
    Como seria?
    De facto os cêntimos que colocamos no cesto são uma mísera migalha do muito que temos, e infelizmente, até essa migalha lamentamos…..eu já ouvi lamentar…
    Desculpe o meu comentário, Teresa. Mas a ingratidão humana é das coisas que mais me entristece.
    Parece-me que quanto mais conforto material a humanidade possui mais ingrata está, parece-me que as duas coisas estão proporcionalmente relacionadas…
    Que tenham um dia Muito Feliz amanhã, vocês merecem! E, quando nas vossas orações agradecerem, peço-vos por favor, que apelem à Mãe de Caná para que aumente a gratidão nos nossos miseráveis corações humanos.

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