Em Caná da Galileia...


Laudato Si e a casa comum da nossa aldeia

Vivemos um ano aniversário da Laudato Si. Tenho grandes expetativas para este ano! Aos quinze anos, decidi que o meu primeiro filho se chamaria Francisco, em honra de S. Francisco, o pobrezinho que cantava à chuva e que brincava com as flores, enquanto se entregava por completo ao amor de Deus na oração contemplativa e no serviço aos últimos dos últimos. O Niall aceitou a escolha deste nome. Hoje, o nosso Francisco tem 21 anos, e tanto ele como os seus irmãos estão acostumados a brincar à chuva, a subir às árvores, a plantar flores, a colher frutos, a tomar banho na água gelada de qualquer fonte ou de qualquer mar.

No sábado passado, de manhã, foi assim:

Ao reler a Laudato Si por estes dias, apercebi-me deste ponto. Leiam comigo:

151. É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de «estar em casa» dentro da cidade que nos envolve e une. É importante que as diferentes partes duma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma visão de conjunto em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros. (…) Assim, os outros deixam de ser estranhos e podemos senti-los como parte de um «nós» que construímos juntos.

O nosso jardim não é grande (eu sei que já faz muita inveja a quem apenas tem uma varanda!), mas não precisa de ser, pois os nossos filhos não vivem encerrados nele. Como eu costumo dizer, o nosso jardim é a aldeia inteira. Saindo livremente de casa, os nossos filhos, a partir de certa idade, são livres para patinar nas ruas da aldeia, para ir tomar banho no riacho que corre por entre os campos das ovelhas, para subir às árvores das pequenas florestas entre bairros, para terem os seus “esconderijos secretos” que nós não conhecemos, para pescar peixes nos poços (não se aflijam, nós ensinamos-lhes a lidar com poços desde tenra idade) e para construírem castelos, fortalezas, ninhos de fadas e mundos encantados por onde quiserem. Os nossos filhos têm uma infância com uma liberdade que talvez só a geração dos nossos avós conheceu.

Vigiamo-los, naturalmente, mas fazemo-lo de longe, enviando de vez em quando um irmão mais velho, de bicicleta, para ver se está tudo bem, acompanhando-os quando temos tempo livre, ou simplesmente pedindo-lhes que vão passando por casa, ao longo da tarde, para nos contar o que estão a fazer. Temos duas regras: nunca andar sozinhos – no mínimo, vão dois irmãos juntos -, e brincar perto das hortas, das casas, dos jardins, para que possam ser socorridos nalguma aflição.

A partir do fim do estado de emergência, os nossos filhos têm tido a liberdade de visitar os amigos da aldeia, a pé ou de bicicleta, com a permissão dos respetivos pais. Mas os amigos da aldeia não têm permissão para fazer quase nada do que os nossos fazem. Podem vir até aqui e brincar aqui, mas não podem fazer da aldeia, do rio, da floresta, das silvas, das rochas, dos descampados, a sua casa comum. E no entanto, ao contrário de nós, eles têm as suas raízes todas aqui nesta zona, vivendo perto dos tios, dos primos, dos avós e dos padrinhos…

Porquê tanto medo? Há aqui na aldeia casos conhecidos de homens perigosos? Não. Apesar de não sermos daqui, sabemos, provavelmente bem melhor do que muita gente, que a horta ali à frente é da dona Maria, e que o senhor Zé não se importa que atravessemos a serventia da sua quinta, e que o senhor António só não quer que lhe pisem as couves, e que a dona Fernanda se diverte a observar “os meninos da professora”, e que todos são boa gente da terra, tostada pelo sol quente.

Então o que faz com que todas, ou quase todas as crianças da nossa aldeia vivam atrás dos muros dos seus jardins, “renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros”, ao ponto de eu não reconhecer a cara dos filhos dos meus vizinhos do lado e da frente? Não sei. Juro que não entendo. E fico triste pela mensagem de desconfiança e falta de fé no outro ser humano, no vizinho, que esta atitude transmite.

Enquanto isto, os meninos continuam a ir, todas as tardes, tomar banho ao riacho.  O dono das ovelhas sorri-lhes e indica-lhes os melhores sítios para apanhar lagostins. A velhinha que cuida da sua horta, ali perto, acena-lhes. Nós acreditamos na bondade dos dois. E Deus cuida do rio, das ovelhas, do pastor, da velhinha e dos nossos filhos…

o riacho

 

4 Comments

  1. Catarina Ramos Tomás

    No passeio noturno que damos em família completa (como faz questão de dizer o Filipe, pois a cadela também vai) os rapazes dizem “boa noite” a toda a gente, esteja na rua ou detrás dos muros. Ao princípio eu ficava envergonhada. O que pensariam as pessoas? Pois, depois de cada boa noite vinha uma grande risada dos três… Hoje desconfio que há alguns vizinhos velhinhos que veem naquele momento à rua só para ouvir o boa noite dos rapazes, pois estão todos os dias no mesmo sítio à mesma hora.
    A dificuldade está nos pais e não nas crianças…
    Temos hoje a geração de pais com maior acesso à informação mas com o maior dos medos…

  2. Eu cresci a tomar banho de mangueira nos dias quentes, a lavar o carro em fato de banho, a andar de patins e bicicleta por todo o lado, a subir às arvores e a chegar a casa todos os dias com arranhões; os nossos pais desde muito cedo davam-nos “responsabilidades”: ir à fonte buscar água a pé, ir cortar o cabelo de bicicleta à aldeia vizinha, ir à mercearia e ao padeiro. Os poços em casa sempre estiveram abertos e assim continuam e animais nunca faltaram. Agora que a vida tem de ser vivida na cidade algumas coisas mudam mas…nem tudo! Não faltam os pic nic’s em zonas isoladas, a procura de cascatas, ribeiras, praias perdidas…para não dizer as subidas até aos marcos geodésicos para apreciar as belíssimas paisagens! Infelizmente num mesmo prédio só se conhecem 2 ou 3 pessoas ou melhor, só nos respondem ao bom dia e boa tarde essas 2 ou 3 pessoas…na rua quase ninguém olha para ninguém, as paróquias são mais formais e menos familiares. É um trabalho a ser feito…este aproximar as pessoas na confiança e na empatia…que nestes ambientes não é realmente fácil! E principalmente nestes tempos…em que abriram lojas, cinemas, teatros, supermercados…e os parques infantis continuam fechados nos jardins públicos (às vezes único divertimento que uma criança da cidade tem!). Comentávamos entre nós estes dias “como diz uma mãe a um filho que não pode ir ao escorrega um bocadinho mas que pode caminhar pelos relvados ou sentar nas mesas de pic nic??”

    • Filipa, às vezes, as crianças da cidade aproveitam mais a natureza – a Criação, como diz a Laudato Si – do que as crianças do campo… Tenho vizinhos pequenos que NUNCA brincaram no espaço da aldeia, NUNCA saíram a pé do seu jardim. No campo ou na cidade, é preciso esse esforço de aproximação ao outro e às criaturas, ainda mais neste tempo de distanciamento social, como lhe chamam, mas que já se vinha a agravar há tanto tempo! Bjs e continuem a fazer grandes e belos piqueniques aí!

  3. Gostei muito da reflexão, Teresa! Nós vivemos num condomínio com muitas crianças, e uma área comum de lazer muito grande. No entanto, são muito poucas as famílias que se aventuram…

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