Em Caná da Galileia...


Manter a calma em tempos de vírus

A crise que estamos a viver está a gerar uma onda de pânico internacional. O imenso tempo livre que de repente, muitos de nós, pais de filhos pequenos, temos nas mãos, não ajuda a manter a calma, pois permite-nos mais tempo também para ler as notificações do whatsapp e seguir todas as atualizações da situação mundial, ao minuto. Já não há conversas sobre outros temas, e tudo o que foi dito ou escrito como preparação desta Quaresma já está desatualizado.

No último dia em que fui à escola, uma colega e amiga perguntava-me: “Teresa, como fazes para estar tão calma? Não tens o estômago às voltas? Eu já mal consigo respirar…” E outra perguntava, um pouco duvidosa: “Sabes dos perigos todos, não sabes? Tens seguido as notícias, ou…?”

A calma não é a mesma coisa que a imprudência. Sim, tenho todos os cuidados possíveis, não só por mim e pelos meus, mas pela humanidade inteira, de quem sou uma ínfima parte, mas uma parte muito solidária. E sim, estou calma.

Há dois pensamentos que me ajudam a manter a calma nesta altura em que, na minha casa, ainda ninguém adoeceu. Ou seja, que me ajudam a não me pre-ocupar, a não sofrer por antecipação, a não me angustiar. Dois pensamentos que me permitem centrar-me apenas e simplesmente aqui e agora.

O primeiro é muito simples: eu sou mortal, assim como todos os membros da minha família. Se sobrevivermos ao corona vírus, morreremos de outra forma qualquer. Esta é a maior certeza da nossa vida, a certeza objetiva e comprovável, pois as outras certezas que eu tenho são de fé.

Descobri que sou mortal há muitos anos, quando o Tomás adoeceu, na Quaresma mais difícil das nossas vidas. “Vou levar-te ao deserto e falar-te ao coração”, disse-me o Senhor nessa altura (como contei no livro Em Tua Casa, já leram? Um livro interessante para quem, nestes dias, tateia um caminho de catequese e oração familiar, e que podem comprar online…). Entrei num deserto muito longo, que terminou em pleno tempo pascal, no dia 19 de maio. Deus falou-me, de facto, ao coração e, com a morte do Tomás, curou-me do medo da morte.

Tomarmos consciência de que somos mortais é talvez um dos mais importantes exercícios a fazer nestes dias. Não tenham medo de pensar na morte, vossa ou dos vossos! Mas não façam este exercício “a seco”. Deixem-me primeiro falar-vos da outra grande certeza que tenho na vida, e desta vez, uma certeza que não consigo comprovar, porque em muitas ocasiões se parece contradizer. É uma certeza de fé. E diz o seguinte:

Deus ama-me. Deus ama-me com tal arrebatamento, que criou um universo inteiro, com os seus milhões de estrelas e de galáxias, apenas para que eu pudesse viver. Deus ama-me com tal paixão, que desceu dos Céus, encarnou no seio da Virgem Maria, fez-Se homem e morreu crucificado, para que eu pudesse, um dia, habitar no seu Céu. O amor de Deus por mim, só por mim, é tão imensurável, que Ele não hesitaria em criar este universo inteiro, não hesitaria em morrer de novo na Cruz, se preciso fosse, só por mim.

Deus não só me ama, como ama cada uma das pessoas que eu amo, com um amor infinitamente superior ao meu. A minha preocupação com os meus filhos é apenas uma sombra muito fraquinha do cuidado extremo que Deus tem para com eles. Nunca serei mais cuidadosa do que o Senhor!

Quando eu era ainda pequenina, encontrei um dia uma pagela antiga, que a minha avó guardava numa Bíblia. Dizia assim: “Eu amo-te. Que te importa o resto?”

A Bíblia está cheia, transbordante de textos que expressam este amor eterno de Deus por mim, só por mim. Por ti, só por ti. Pelos teus filhos. Pelos teus pais e avós. Pelos que mais amas. É preciso pegar na Bíblia, abri-la, folheá-la, e mastigar cada uma destas Palavras, fazendo-as descer da inteligência para o coração, com muito cuidado. Aqui fica uma das minhas preferidas:

Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te resgatei; chamei-te pelo teu nome, tu és meu.
Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando passares pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.
Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e a Seba em teu lugar. Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei, assim dei os homens por ti, e os povos pela tua vida.
Não temas, pois, porque estou contigo; trarei a tua descendência desde o oriente, e te ajuntarei desde o ocidente. (Is 43, 1-5)

Então como conciliar estas duas certezas – vou morrer, e sou eternamente amada por Deus? Significa isto que não preciso de tomar precauções para me proteger, e para proteger o meu próximo, o de minha casa e o de longe? Pelo contrário. Estas certezas dizem-me que a vida humana é preciosa, porque muito querida de Deus, que por ela empenhou o seu Tudo. Nada Lhe dá mais alegria do que me ver a empenhar o meu tudo também pela vida dos irmãos. Não o fazer seria pecar contra a Sua Providência.

Mas é igualmente pecar contra a Sua Providência entrar em pânico e deixar-me levar pela angústia e o medo. Porque nada me poderá acontecer que o Seu amor por mim não permita que aconteça. Ainda que seja a morte, minha ou de alguém que amo mais do que a mim mesma. Dito por outras palavras: só posso morrer porque Deus me ama. Só posso perder um filho porque Deus me ama. Tudo o que me acontece na vida, de bom ou de mau na minha perspetiva, acontece porque Deus me ama. E se Deus me ama, podemos ficar descansados: o pior que me acontece é sempre – por amor. Confuso? Enquanto não estivermos absolutamente certos disto, não teremos compreendido nada.

Experimentem memorizar esta passagem da Escritura:

Portanto eu vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, quanto ao que comer ou beber; nem com o vosso corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa? Olhai as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não valeis vós mais do que elas? Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?Porque vos preocupais com o vestuário? Vede como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem tecem, e contudo, Eu vos digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos preocupeis, dizendo: ‘Que vamos comer? ’ ou ‘que vamos beber? ’ ou ‘que vamos vestir?’ Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que precisais delas. Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos preocupeis com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia a sua preocupação. (Mateus 6, 25-34)

Aqui e agora. Porque Deus me ama. Porque Deus te ama. Nós, Jesus!

Ámen.

15 Comments

  1. Portugal entrou em pânico social.
    Esta estrada do cornona foi-nos dada para podermos pensar no que é verdadeiramente importante.
    Mas será que Deus quer o fim das nossas vidas e das vidas daqueles que do nosso trabalho dependem?
    Parar a sociedade e a economia por decreto, exigido por uma sociedade em pânico é o caminho que Deus quer de nós? Como é que as famílias e os filhos dos simples trabalhadores vão sobreviver agora, e principalmente num futuro próximo, se as empresas não venderem, não produzirem não servirem?
    Se pensarmos que a nossa actividade económica está ao serviço do bem comum, o pânico mata o bem comum, e vai contra o desejo de Deus.
    Tenhamos cuidados mas, saibamos que temos nas nossas mãos, através dos nosso trabalhos e responsabilidades, muitas vidas, de gente simples, com família e filhos para comer.
    Que Deus nos proteja a todos.

    • Ai, Carla, ainda agora falava com o Niall sobre isso… Como vão os restaurantes, os cabeleireiros, e tantos outros serviços sobreviver! Nisto, como em tudo o resto com que possamos não concordar (impedir as pessoas de aceder aos bens essenciais, sejam eles físicos ou espirituais, e impedir os trabalhadores de os fornecer), precisamos de continuar a confiar em Deus, aqui e agora…

  2. É verdade Teresa! Frequentemente me vem ao pensamento “faço o que tenho que fazer e sou um servo inútil”. O Senhor não me pede que viva o pânico e o medo ou que tenha a solução para algo…apenas que confie e que, com consciência e prudência, viva alegre! Várias vezes falamos entre nós aqui em casa no exemplo de s.Jose que, não levado pelo pânico mas pela confiança em Deus, foi para o Egipto com o Menino e sua Mãe. Fez o que lhe era pedido para fazer, e Deus, porque ama, cuida!
    Vivo em paz estes tempos…e com maior abertura interior para contemplar a Mão de Deus nas coisas mais pequenas. Atrevo-me a dizer que tem sido tempos de Graça!
    Obrigada pelo seu testemunho e pela coragem que transmite com as suas palavras. É importante!
    Nós Jesus!

  3. Por isso mesmo é que estou a trabalhar. Com os devidos cuidados naturalmente, mas sem pânico e sempre a pensar no serviço ao outro, ao bem comum.
    Reconheço que não tenho a noção exata nem a visão dos profissionais de saúde. Mas a vida continua e mais do que ontem, hoje precisamos de garantir que as vidas das pessoas continuam e vão continuar.
    Não são só os restaurantes, e os bares e os hotéis. Se fecharem fronteiras, todas as mercadorias, bens industriais, transportes, etc param. A europa pára e as vidas das pessoas ficam em suspenso.
    Quem vai poder pagar salários se não tiver atividade? Quem vai poder comprar comida se não tiver salário?
    As nossas vidas dependem uns dos outros. Temos todos de fazer a nossa parte e, ficar em casa, parados à espera que Deus nos proteja, não é solução, no meu entender.
    Isto não é bem comum… Isto não é a economia ao serviço dos outros. O “meu ” Deus pede-me para pôr os meus talentos ao serviço. E não é fechada em casa, a consumir papel higiénico em catadupa, que eu vou fazer a vontade de Deus e servir o bem comum.
    Não podemos enterrar os nossos talentos. Não nesta altura. Temos cada vez mais de os colocar a render e ao serviço de todos.
    Acho que estou completamente fora da caixa nesta pandemia do corona.

    • É tão chocante este teu comentário como o meu post sobre as missas 🙂 Em ambos os casos, precisamos de obedecer, ao Estado e à Igreja, respetivamente!

  4. Pede-se que fiquemos em casa, pede-se que tenhamos calma. Mais do que isso pede-se que tenhamos confiança. Que cuidemos dos nossos. Como vamos sobreviver com os nossos pequenos negócios fechados? Não sei. Mas entrar em pânico não resolve nada. Este deserto que atravessamos está a tornar-se muito doloroso, mas o que dizer dos que trabalham horas a fio nos hospitais deste mundo? Mais do que rezar pelos os meus, rezo por eles, pelos que não podem estar com os seus, pelos que dão tudo pelos outros, pelos que vivem o Evangelho em cada dia, sem desanimar!
    Nós Jesus…

  5. Obrigada por este post, Teresa. Os tempos difíceis que se avizinham serão mesmo uma boa oportunidade para aprendermos a confiar mais no Senhor. Tenho ainda bastante dificuldade em aceitar que “o pior que me acontece é sempre por amor”, mas com a oração e com o exemplo de cristãos mais maduros na fé como a Teresa espero ir, pouco a pouco, aprendendo a confiar e a aceitar a vontade de Deus.

    Não querendo iniciar aqui nenhuma discussão, queria também deixar aqui um artigo que talvez ajude a esclarecer o porquê de certas medidas de contenção, para quem ainda tem alguma dificuldade em aceitar estas medidas: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/como-e-que-as-medidas-de-contencao-e-o-isolamento-voluntario-salvam-vidas-veja-este-grafico_n1211055

    Compreendo perfeitamente as preocupações de cariz económico, temendo as repercussões que esta crise possa vir a ter na vida das famílias que dependem dos pequenos negócios. Rezemos para que haja apoios suficientes e atempados para todos os que se encontram nesta situação. No entanto, se deixarmos o vírus alastrar de forma descontrolada teremos de igual modo impactos negativos na economia (por exemplo, estando uma parte significativa da população doente ou a cuidar de doentes, haverá clientes?) e teremos um sistema de saúde sobrecarregado, com profissionais de saúde esgotados e a serem obrigados a escolher quem vive e quem morre…

    Vejamos estas medidas como um gesto de amor nosso para com as pessoas mais vulneráveis e para com os profissionais de saúde. E aproveitemos este tempo para rezar muito.

    • Tens razão, Delora! Eu penso assim: Uma opinião, todos podemos ter. Mas quem sabe mais – no estado, na Igreja – é que decide, e a nós cabe-nos obedecer. E ainda bem! Porque se fôssemos nós a ter de decidir, a dor de cabeça seria bem maior! Rezemos pelos que tomam decisões.
      Mas este post é, mesmo, sobre confiança, amor, fé. O resto é conversa 🙂
      Ab

    • Pilar Pereira

      Obrigada pela partilha do gráfico. Faz todo o sentido!

  6. antónio assunção

    Também faço parte do grupo de uma das fotos Muitas vezes faço memória desse dia… e voltei a fazê-lo hoje…
    Nestes dias dei por mim a pensar e a rezar a palavra NOVO… Agora é tudo NOVO… e por isso é preciso tornar-se criança e voltar a aprender… (cf Mateus 18,1–11; Marcos 9,38–42) O Papa Francisco pensa na família e usando várias formas da palavra NOVO reza “Deus ajude as famílias a reencontrar verdadeiros afetos neste tempo difícil
    VATICAN NEWS
    O Papa Francisco celebra a missa via streaming da Casa Santa Marta também esta semana para manifestar a sua proximidade aos fiéis que não podem participar da Eucaristia devido à emergência coronavírus. Na manhã desta segunda-feira (16/03), introduzindo a celebração, continuou rezando pelos doentes e as famílias.
    “Continuemos rezando pelos doentes. Penso nas famílias, fechadas em casa, as crianças que não vão à escola, os pais que talvez não possam sair; alguns estarão em quarentena. Que o Senhor os ajude a descobrir novos modos, novas expressões de amor, de convivência nesta nova situação. É uma ocasião bela para reencontrar os verdadeiros afetos com uma criatividade na família. Rezemos pela família, para que as relações na família neste momento floresçam sempre para o bem.”
    Maria, Rainha das famílias Rogai por nós

    • Sim, padre Assunção, tudo é novo! Escutava o Niall esta manhã na renascença, na homilia, que a Igreja cancelar a participação dos fiéis na missa é absolutamente inédito em 2000 anos de cristianismo, 2000 anos em que se enfrentaram pestes, epidemias, guerras, perseguições e tudo o mais… Agora temos de lidar com esta novidade absoluta, porque a doença, em si, não é uma novidade!
      Quanto àquele dia dos balões… Só tenho para consigo pensamentos de gratidão! Foi uma celebração tão bonita!
      Ab

  7. Parece-me estar a ser muito mais fácil comentarmos e darmos opiniões sobre a forma como o mundo tem gerido o coronavírus do que comentar o tema do post! Aí em casa, como convivem com o tema da morte, e que certezas têm do amor de Deus por nós? 🙂

    • Falávamos da morte à pouco ao jantar, coisa certa essa de que isto é uma passagem e quanto mais cedo aceitarmos isto, mais leve anda o nosso coração. Aqui em casa o problema do vírus não é tanto eu (p. ex.) a ser infectada, mas ser eu a responsável por infectar toda a minha família, e é por isso que resolvi ficar em casa por agora. O grande problema é aceitar que algo de bom vai sair daqui. Porque acredito que “tudo concorre em para o bem dos que amam a Deus”. Aí a confiança….

  8. Nós profissionais de saúde contamos que nos”apadrinhem”na fé e nos ajudem a ser fortes e humildes, para que o medo da morte, da insegurança e dos recursos limitados (pessoais e institucionais) não nos impeçam de cuidar de quem mais precisa.
    Tudo isto também é novo para nós….

  9. Licínia Maria Vieira

    Como era bom estar a trabalhar na escola! Nunca entendi os trabalhadores que se queixavam por coisas tão importantes como o início de uma semana de trabalho. Nunca mais é sábado!!!!!! Ouvia-se frequentemente em tempos áureos, tempos em que se podia sair à rua, tempos em que o ar não nos preocupava e todo o azul era puro. Afastava-me um pouco, apenas. Poucos dias passaram e a realidade é tão diferente. Que diremos agora da vida dos profissionais de saúde! É por eles que todos devemos cumprir e fazer cumprir!
    O desespero? Esse vai sendo trabalhado dando valor às pequeninas coisas, ao amor, à entreajuda, à força das tuas palavras. Vou tentando assimilá-las pois sempre as compreendi. Obrigada, obrigada, obrigada pela tua força, Teresa. Também tu és profissional de saúde psíquica pela fé. Tenho saudades dos abraços dos meus alunos mas virtualmente podemos dar todos as mãos. Beijo, amiga,

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