Em Caná da Galileia...


Maranatha!

Esta noite, Justin Bieber está em Lisboa a dar um grande concerto. Ontem, pela televisão, fiquei a saber que, à porta do local do evento, há desde segunda-feira dezenas de jovens à espera. O frio, o vento, a chuva, a noite, nada os parece perturbar: com grande entusiasmo, de gargalhada e lágrima fácil, eles vão cantando e fazendo novas amizades para passar o tempo. “Quero ser a primeira a tocar-lhe”, explica às câmaras uma jovem risonha. “Ele é o meu ídolo”, confessa outra. “Não estão cansados de dormir ao relento? Não sentem frio?” Pergunta, atónito, o jornalista. Risos: “Tudo se suporta! Frio, chuva, noites mal dormidas, cansaço… Tudo aguentamos! A recompensa é grande, muito grande!” E de novo rompem em alegres cantigas.

Não vou aqui comentar a atração dos jovens por Justin Bieber, ou a (ir)responsabilidade dos seus pais, ou o tipo de valores ocidentais que possibilita tamanha loucura. Porque ao ver aquela reportagem, o que me veio à cabeça foi o Evangelho deste primeiro domingo de Advento, que eu tinha acabado de ler para poder escolher adequadamente os cânticos da missa:

Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também vós preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais. (Mt 24, 43-44)

E S. Paulo acrescenta:

Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo. (Rm 13, 11-12)

Já ouvi muitos adolescentes e jovens dizer que não vão à missa ao domingo de manhã porque estão muito cansados e não conseguem sair da cama. Talvez – certamente – alguns deles estejam agora a saltar e a pular ao som de Justin Bieber depois de várias noites ao relento…

Será mesmo o cansaço que impede jovens, adultos e crianças de ir à missa ao domingo de manhã? Não seremos nós capazes de qualquer esforço, de qualquer batalha, de qualquer renúncia quando achamos que vale a pena?

Em Lisboa, os jovens que passaram mais dias de vigia, ao frio e à chuva, vão poder tocar de relance em Justin Bieber, e para eles, terá valido a pena todo o sacrifício. Mas na Eucaristia – qualquer Eucaristia, com melhor ou pior música, com uma comunidade mais ou menos acolhedora, com um sacerdote mais ou menos santo, com leitores e acólitos mais ou menos preparados – na Eucaristia, é Jesus, o Rei do Universo, o Salvador do mundo, o Filho de Deus, que eu posso tocar. Tocar, sim, com as minhas próprias mãos, com a minha língua, com o meu coração, com todo o meu ser. E não só tocar, como acolher dentro de mim!

Não há filas à porta da igreja. Não há gente a dormir ao relento, à chuva e ao frio, à espera que a missa comece, com medo de não ter lugar. Não há seguranças ou polícias a controlar o trânsito, à entrada, com receio dos atropelos da multidão. Não há grande pressa nas pessoas que insistem em chegar atrasadas, que não se importam de chegar em cima da hora, que não adiantam o relógio dez minutos para terem dez minutos de preparação silenciosa para a Eucaristia.

E no entanto, sabemos que é Ele, o Senhor, Ele, Jesus, que lá vai estar… Sabemos mesmo? E se sabemos, como o transmitimos aos nossos, aos que nos foram confiados, aos amigos, para que eles o saibam também e, como nós, tenham pressa e estejam vigilantes?

Ah, se nos fosse oferecido um vislumbre, um minúsculo vislumbre, do que nos é dado viver na Eucaristia, com dificuldade conciliaríamos o sono, na alegre expetativa da manhã seguinte, do encontro marcado com Ele… Nenhum sacrifício nos pareceria demasiado grande, quando comparado com a eternidade de amor que Ele nos oferece em cada Eucaristia… Não um ídolo, mas o próprio Deus… “E vou poder tocar-Lhe!” E vou poder tocar-Lhe…

Advento é tempo de vigilância, de alegre esperança. Maranatha! Vem, Senhor Jesus! Gritavam os primeiros cristãos. Gritamos nós, todos os dias na Eucaristia, depois da consagração:

Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde, Senhor Jesus!

a-cruz-da-ressurreicao_fatima

A Cruz do novo presbitério do Recinto de Oração do Santuário de Fátima

Vinde, Senhor Jesus!

2 Comments

  1. Realmente o caminho que a sociedade leva, a forma de se educar os filhos leva-nos a pensar e a meditar, que o nosso testemunho é muito necessário, é urgente!
    É urgente que as pessoas abram os olhos, que vejam e se sintam feridos, ao saber que homens, mulheres e crianças… morrem todos os dias, são perseguidos, maltratados… quando o seu único pecado é o seu amor por Cristo!
    A sociedade está dormente, está incapaz de olhar para o lado… vivem perdidos nos seus ídolos, e é isto que estão a passar para as nossas crianças!
    Temos de ser o sal, temos o dever de aproveitarmos a nossa liberdade religiosa e dar testemunho de Jesus, fazendo a diferença, imitando-O, sendo luz para o mundo!
    Um abraço em Cristo

  2. Rogėrio Ribeiro

    Tanta euforia para ouvir e tocar alguém (Justin Bieber) que na minha opinião,tendo em conta atitudes e comportamentos desse jovem não è modelo inspirador para ninguém!
    Mas infelizmente è o mundo em que vivemos…!

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