Em Caná da Galileia...


Minha casa, meu mosteiro

Segundo artigo de uma série de artigos sobre o carisma e a espiritualidade do Movimento

Há uns anos, passando por Fátima, entrei no Carmelo para rezar Vésperas com as Irmãs, de acordo com a permissão explícita no seu horário. Ajoelhei-me na igreja acolhedora, enquanto uma Irmã saía da clausura para preparar o altar e expôr o Senhor. Fez tudo com gestos respeitosos, eloquentes, e regressou à clausura. Alguns minutos depois, um ruído de passos alertou-me para a chegada de toda a comunidade ao coro da igreja, por detrás das grades. O órgão começou a tocar, e vozes melodiosas começaram a elevar a Deus um louvor cantado. Parecia-me estar no Céu.

Hora e meia depois, entrei na minha própria casa, em Mogofores. A família reunida iniciava, naquele momento, a Oração Familiar. Bati à porta várias vezes antes que alguém me ouvisse, e não, não foi por causa de vozes angélicas em oração: era antes uma gritaria organizada, com pandeiretas, danças e o ladrar dos cães. Entrei, e uma enxurrada de filhos abraçou-me, aos gritos de alegria: mãe, vens a tempo de rezar! Louvámos, cantámos, agradecemos, lemos e comentámos as leituras da missa diária, rezámos o Terço. Pelo meio, o António fez birra quando a Lúcia lhe cortou a palavra durante a sua vez de agradecer, a Sara amuou porque ninguém a deixou conduzir um mistério do Terço, o Niall teve de dar um par de berros para impor alguma ordem – um bocadinho de concentração, por favor, pediu.

Eu ri-me interiormente, pensando nas Irmãs do Carmelo de Fátima… Depois, com o coração cheio, agradeci a Deus o meu pequenino mosteiro familiar. E fiquei com a certeza absoluta que os sons desafinados que subiam da minha casa agradavam tanto ao Senhor como os sons harmoniosos do convento.

As ordens religiosas contemplativas são formadas por casas, cada uma delas independente das outras. Quando um jovem escolhe a vida monástica, escolhe também uma casa onde, em princípio, irá viver até ao fim dos seus dias, pois ao contrário das ordens de vida ativa, há muito pouca movimentação entre casas na vida contemplativa. A unidade entre as várias comunidades nasce apenas da unidade do carisma.

As Famílias de Caná herdaram este e outros valores deste grande baluarte que é a vida monástica. No nosso Movimento, cada família é uma casa independente, uma verdadeira Igreja Doméstica. O Movimento é constituído por muitas destas casinhas, como a ordem carmelita é constituída por muitos conventos independentes.

Já por várias vezes me foi colocada a questão: pode uma Família de Caná viver em comunidade com outras, como acontece nas chamadas “comunidades novas” (Canção Nova, Shalom, Emanuel), partilhando não apenas a mesma rua, mas também um horário de vida e oração? A resposta é, como ficou explícito, “não”. Cada Família de Caná é um pequeno mosteiro, independente de todos os outros, embora partilhando com todos os outros o mesmo carisma.

Também não faz sentido a comparação entre as Famílias de Caná e movimentos conjugais como as Equipas de Nossa Senhora. Nestes, a pertença à “equipa” define a pertença ao movimento, como se lê no site oficial: “Os casais (…) decidem formar equipa e constituir uma comunidade de fé para percorrerem juntos um caminho de conversão, apoiando-se uns nos outros. As equipas são constituídas por um número indicativo de 5 a 7 casais e um sacerdote, designado Conselheiro Espiritual.”

Mas então, as Famílias de Caná não se juntam? Claro que sim! Juntamo-nos muitas e muitas vezes, especialmente aqui, no Canto de Caná, para retiros, encontros, acampamentos e, cada vez mais, formação. No início do próximo ano pastoral, contamos poder apresentar-vos um calendário de formações e encontros com uma frequência mensal ou perto.

Juntamo-nos também nas Aldeias de Caná. Chamamos-lhe “aldeias” precisamente pela sua simplicidade, a sua falta de estrutura, a amizade que está na base das relações entre “vizinhos”, que se entreajudam quando é preciso, que mantêm a privacidade quando é preciso também, que se reúnem quando é adequado e possível, sem regras fixas.

Nem a Aldeia, nem os encontros no Canto de Caná, poderão substituir os dois encontro principais: o encontro diário no Canto de Oração Familiar, no horário nobre de cada família; e o encontro semanal na Eucaristia dominical, na casa comum da paróquia. São estes encontros que formam a verdadeira comunidade de Caná: a comunidade da família de cada um de nós. Como a comunidade da família de Jesus, Maria e José.

Presépio em crochet, presente de um grupo de pais e catequistas de Matosinhos. Bem hajam!

Cada Família de Caná é, assim, um pequenino mosteiro, onde o Senhor é acarinhado, louvado, servido, amado. “Nós, Jesus!” Rezamos todos os dias. E Ele fica connosco e, sem quase nos darmos conta, conduz-nos em segurança até à casa definitiva do Céu…

3 Comments

  1. Pilar Pereira

    Pouco tempo, poucas palavras, resumidas numa: obrigada!

  2. Querida Teresa ficou-me esta dúvida: e com a espiritualidade Opus dei? É possível pertencer às duas?
    Abraço.

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