Em Caná da Galileia...


Missão jovem nas cinzas do Pedrógão #1

O nosso Francisco acabou os exames do primeiro ano de Engenharia Mecânica numa quarta-feira, e na sexta-feira seguinte partiu em missão. Uma semana depois regressou, com muito, muito para contar. Tanto, que resolvemos dividir por dois posts! Aqui fica, pois, o seu testemunho:

Escrito pelo Francisco Power:

Desde as Jornadas Mundiais da Juventude 2016, o meu grupo fantástico de Jovens do Estoril e Lisboa e eu andámos a planear um campo de trabalho para fazer este verão. Com a infeliz catástrofe que começou em Pedrógão Grande há um mês, decidimos tornar esse campo de trabalho numa missão de voluntariado para ajudar as pessoas de Castanheira de Pêra, um dos concelhos afetados pelo incêndio.

As notícias não chegam para se compreender a dimensão e o impacto do incêndio. Logo no primeiro dia, ao entrar na zona afetada, a visão de árvores queimadas onde quer que se olhasse foi aterradora. É impossível imaginar tudo aquilo em chamas, mas deve ter parecido um verdadeiro inferno para as pessoas que, em pânico, tentavam escapar ao fogo. Vimos carros, tratores e camiões completamente queimados, por dentro e por fora, carros cujo vidro tinha derretido, ficando moldado segundo o tablier, e jantes de alumínio derretidas. Vimos casas reduzidas a escombros negros com hortas e pomares transformados em carvão. E a nossa missão enquanto voluntários foi precisamente as hortas e os pomares.

A população de Macieira de Pêra vive muito à base da madeira das árvores e do que planta nas suas hortas e pomares. O fogo reduziu a cinzas não só a sua maneira de arranjar comida, mas também a esperança e vontade de voltar ao dia a dia que costumavam ter.

Juntamente com a Lúcia, uma engenheira agrónoma, e o Fernando, seu marido, começámos a ir de terra em terra, casa em casa, seguindo as indicações fornecidas pela ONG dos Médicos do Mundo e a Proteção Civil, para oferecer a nossa ajuda na restauração das hortas.

Muitas pessoas a quem batíamos à porta não queriam ou não podiam deixar-nos arranjar os seus quintais. Em parte, porque as bombas de água tinham ficado estragadas, as mangueiras tinham derretido ou porque diziam que não era boa altura para plantar, em parte porque, devido a queimaduras, não se encontravam em condições físicas para tratar da horta, uma vez feita, e em parte por medo que as nossas intenções não fossem boas (acredito que não seja fácil deixar um grupo de 13 pessoas entrar de repente no quintal e mudar tudo, especialmente devido aos roubos que ocorreram pouco depois de o incêndio ter passado por aquela zona).

No entanto ajudávamos essas pessoas de outras maneiras. Entregávamos árvores e sementes de vários tipos para serem plantadas no próximo ano, mas, ainda mais importante do que isso, ouvíamos as pessoas. Mesmo as mais tímidas acabaram sempre por começar a falar e desabafar, contando os horrores e milagres que viveram durante o incêndio. Ouvimos verdadeiros milagres, como pessoas que queriam fugir de carro, mas por causa da má visibilidade não conseguiram, escapando assim à morte certa na “Estrada da Morte”, ou pessoas que conseguiram salvar a casa deixando uma mangueira com água a escorrer à volta da casa e molhando portas e janelas. E todas essas pessoas falavam cheias de fé, agradecendo a Deus o dom da vida. Fomo-nos apercebendo disso durante as reflexões que fazíamos, como grupo de salesianos, durante a oração da noite.

Nos primeiros dois dias, tivemos a companhia da Lúcia e do Fernando, e no penúltimo dia, durante a tarde, tivemos ajuda de uma outra voluntária, a Teresa, uma senhora extremamente simpática e divertida. Nos restantes dias estivemos por nossa conta. Repito, estivemos por nossa conta. E digo isto porque no nosso grupo, apenas eu e a Ângela – a pessoa que tornou possível este sonho – tínhamos alguma experiência com hortas. O resto do grupo estava a plantar legumes pela primeira vez. E, no entanto, fizemos muitas hortas fantásticas, plantando legumes de vários tipos, cortando e limpando ramos secos e queimados de árvores e arbustos, mas, acima de tudo, alegrando pessoas de tal modo que acabavam o dia a sorrir e com vontade de recomeçar a vida: “Ah, já estou com vontade de amanhã de manhã vir regar esta horta!”

É fantástico como mesmo não percebendo nada de hortas conseguimos fazer isto. É a prova real de que para dar não é preciso ter nada mais do que uma grande vontade de nos entregarmos ao outro de uma forma completamente desinteressada. As nossas hortas podem não ter sido muito grandes e certamente não vão mudar completamente a vida das pessoas, mas foram a locomotiva que fizeram as carruagens do comboio começar a andar, como dizia S. João Bosco. E qual era o carvão que alimentava essa locomotiva? A fé e a caridade.

Continua…

2 Comments

  1. Sem palavras…. mas com o coração cheio!
    ” É a prova real de que para dar não é preciso ter nada mais do que uma grande vontade de nos entregarmos ao outro de uma forma completamente desinteressada.”
    Eu sou da Beira Baixa mas vivo na Alemanha. Hoje li na net que mesmo perto da minha terra está mais um incêndio… daqui a umas semanas vou passar férias a Portugal e tenho medo do que vou encontrar… Tudo negro e queimado, onde havia pinhais verdes e frondosos.
    Em nome de todas a pessoas a quem vocês ajudaram, Franciso, o meu muito obrigada! Que Deus vos pague!

  2. Rogério Ribeiro

    Parabéns Francisco pela vossa solidariedade!

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