Em Caná da Galileia...


Missão jovem nas cinzas do Pedrógão #2

Escrito pelo Francisco Power (continuação do post anterior):

O nosso principal trabalho foi, como referi no post anterior, nas hortas, nos pomares e na preparação de kits de sementes para distribuir.

Mas fizemos outras coisas! Logo no primeiro dia, tivemos a “praxe” do voluntariado: como estava muito calor para começar a plantar fosse o que fosse, fomos para um ginásio enorme completamente cheio de caixotes de roupa para fazer triagem e separação. Neste momento já não é necessária mais roupa, e a que chega está a ser encaminhada para os PALOP.

Se por um lado é bonito ver a generosidade dos portugueses, inclusive dos emigrantes, que enviaram roupa de França, por outro foi triste ver a quantidade de roupa que, uma vez abertos os sacos, temos de deitar fora para reciclagem, de pessoas que enviam roupa suja ou velha e gasta. Acredito que a intenção seja boa, mas o resultado é apenas um monte de roupa desnecessária que faz os voluntários perder tempo e desanimar. Gostaria de aproveitar este post para alertar para esta causa e pedir que espalhassem isso: quando enviarem roupa como forma de caridade, pensem primeiro se gostariam de receber aquela roupa naquele estado como um presente. Claro que há os outros, que enviam roupa ainda por estrear. Essa roupa é de imediato entregue às pessoas que perderam tudo. Que contentes eles ficam!

Houve dificuldades? Naturalmente que sim, muitas! Não é fácil acordar ás 7h da manhã todos os dias, depois de passar uma noite a dormir no chão duro, comer rapidamente um pequeno almoço no quartel dos bombeiros, enfiar-se na carrinha e ir fazer hortas. Não é fácil arranjar forças para, depois do almoço, apesar do cansaço de uma manhã de trabalho, irmos para a cozinha para ajudar a lavar a louça, voluntariamente, e voltar a fazer o mesmo à noite, a seguir ao jantar, jantar esse tomado bem tarde para aproveitar ao máximo o dia para ajudar pessoas. E não é fácil esperar meia hora que todas as pessoas passem pelo único chuveiro funcional da escola onde estávamos alojados.

Recompensas? Sim, muitas também!

Os sorrisos das pessoas que ajudávamos, o convívio com outros voluntários, os “briefings” que se fazia entre voluntários todas as noites, onde também se partilhavam acontecimentos do dia e onde ouvimos histórias fantásticas e que de vez em quando terminavam com um pouco de ilusionismo da minha parte.

Há muita gente boa e muita grandeza a acontecer por aí que nunca faz notícia. Todos os dias chegavam novos voluntários: grupos de Escuteiros e Guias, funcionários de diferentes companhias a quem eram oferecidas folgas precisamente para este serviço, pais e filhos, pessoas que vinham sem estarem integradas em grupos, apenas porque sim. Todos eles foram extremamente importantes, quer tenham ido ou não para o terreno (contactar e participar ativamente na limpeza e realojamento de pessoas). Em Castanheira de Pêra, tudo foi organizado pela ONG Médicos do Mundo, e assim vai continuar durante, pelo menos, mais um ano.

Bem disse Jesus:

Há mais alegria em dar do que em receber. (At 20, 35)

Acabámos este campo de trabalho com um Terço em Fátima, porque não há melhor maneira de acabar.

One Comment

  1. Ines Miranda Santos

    “enviam roupa suja ou velha e gasta. Acredito que a intenção seja boa,” – também acredito e podemos rezar por estas pessoas e por nós próprios para crescermos na sabedoria da doação evangélica que nos consola a dar o que o outro precisa, na medida que ele precisa, independentemente da minha necessidade e abundância. Dar bens, tempo, espaço, conselhos…
    “«Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver.»”Lc 21,3-4. Dar colocando o outro no centro, em detrimento de dar o que me custa ou me sobra.

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