Em Caná da Galileia...


Mount Melleray e os nossos mosteiros domésticos

Domingo, dia 20 de agosto. Em Portugal, segundo nos disseram, uma onda de calor e novos incêndios; na Irlanda, 15 graus e chuva miudinha contínua… Tínhamos planeado um piquenique, mas o tempo não estava a ajudar. Depois da missa paroquial, de vermos um filme na televisão irlandesa e de um belo almoço, o Niall estava impaciente: “Vamos deixar a chuva destruir os nossos planos?”

É que o piquenique que tínhamos planeado não era a um sítio qualquer: era ao Mosteiro Trapista Mount Melleray. Sempre ouvi o Niall falar deste mosteiro. Mount Melleray invoca nele algumas das mais belas recordações da sua infância e juventude, desde retiros particulares a acampamentos escutistas. Os mosteiros, explica o site de Mount Melleray, foram desde tempos medievais as hospedarias mais procuradas. Acolher o outro pertence à tradição judaica e cristã, e assim, à tradição monástica desde o início. Em Mount Melleray, todos são bem-vindos para rezar com os monges ou simplesmente para passear em silêncio e tranquilidade.

“Não podemos ir embora da Irlanda sem visitar Mount Melleray”, insistiu o Niall, olhando a chuva miudinha pela janela.

“Vamos então, Niall”, concordei. E lá nos pusemos a caminho.

Uma hora e meia depois, chegámos ao cimo da colina, envolvida em nevoeiro. A chuva, a neblina, o silêncio, o cemitério a toda a volta, os pináculos esguios, a floresta, as teias de aranha a brilhar nos arbustos, tudo fazia parecer que acabávamos de entrar num filme misterioso sobre monges medievais:

Entrámos no mosteiro. Uma luzinha e uma porta entreaberta indicavam o confessionário. Corri para lá, agradecida por este dom inesperado, já que não tinha conseguido confessar-me antes da Solenidade da Assunção de Maria. Confessámo-nos vários, e depois acendemos algumas velas diante da imagem da Mãe.

Nos jardins do Mosteiro, a neblina levantava. Resolvemos passear pelos campos, até o nosso caminho ser alegremente interrompido por uma manada de vacas a caminho de casa.

Depois de algumas brincadeiras na floresta, chegou a hora de Vésperas. Na igreja imensa e silenciosa, iluminada por vitrais poderosos, rezámos alguns minutos. Imaginei ver entrar ali uma comunidade de vinte ou trinta monges. Foi com surpresa que contei apenas oito, numa média de idades a rondar os oitenta anos. Rezámos com eles, escutando os salmos cantados e as preces pelo mundo inteiro.

É por causa destes salmos cantados que Deus ainda não destruiu o mundo… Trabalhar pela paz e pela reconciliação entre os povos não se faz apenas através da política; faz-se também através do louvor intenso, cantado, dos monges trapistas. Precisamos de muitos esforços para combater o terrorismo, mas nada alcançaremos sem esta oração contínua. Só oito…

Se houver em Sodoma dez justos, por amor a eles não a destruirei. (Gn 18, 32)

Para dez, faltam dois… O que acontecerá a este convento centenário, quando estes oito monges morrerem? Onde estão as vocações jovens? Estará Deus distraído? Ou estaremos nós surdos? Falamos aos nossos filhos destas vocações de clausura? Levamo-los a visitar mosteiros, conventos, seminários, para que brinquem nos seus campos enquanto recebem a sua paz?

Tarde na noite, como sempre, fizemos a nossa oração familiar. A Clarinha tocou, e nós cantámos, com menos solenidade que os monges trapistas, mas com igual beleza.

Pareceu-me escutar Jesus dizer-me…

A tua casa é o teu mosteiro. Cada família, cada convento, cada paróquia, uma Arca de Noé, capaz de guardar e multiplicar em si as sementes de um mundo mais justo e mais feliz. É por isso que as tuas orações precisam de ser cuidadas e embelezadas, é por isso que as tuas crianças e os teus jovens precisam de ser iniciados com esmero nos caminhos do Evangelho. Se a tua casa é o Mosteiro, os mais novos são os noviços, aprendendo com os mais velhos a louvar o Senhor.

Imaginei as casas de cada Família de Caná como pequenos Mount Melleray, abertas aos irmãos que as procurem, acolhendo os que têm fome de paz. Imaginei a Hora de Oração Familiar de cada Família de Caná com o mesmo poder de atração que tem a Oração de Vésperas num mosteiro trapista. Imaginei…

2 Comments

  1. Amen Teresa, que Deus Nosso Senhor nos ouça… e nós O saibamos escutar… não ouso comentar, apenas corroborar.
    Um beijinho muito grande a todos, na ilha dos vossos pais… e parece que também a mãe já está em casa!!!
    Que bom…

  2. Estive a ver estas imagens e achei-as lindíssimas!!!
    Quanto à chuva miudinha, essa está a fazer muita falta para apagar estes incêndios que até já chateiam e que já fez prejuízo que chegue!!!
    Um beijinho para todos vocês!!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *