Em Caná da Galileia...


Namorados, e então?

“Mamã, tenho uma amiga e não sei como é que ela existe.”

“O quê, Lúcia?”

“Sim, ora vê: ela diz que os pais não estão casados, são só namorados. Explica-me: como é que ela nasceu?”

Dei-lhe a explicação possível, por entre sorrisos divertidos dos mais velhos, à volta da mesa do jantar. Mas isto de separar biologia e sacramento, ou biologia e decisão social, quando se conversa com uma menina de oito anos, não é tão simples quanto parece! O David acrescentou então:

“Sabes, Lúcia, é normal não ter os pais casados. Há vários meninos assim, não é só a tua amiga!”

O David tem razão: é normal “viver junto”, é normal sair de casa para ir viver com o namorado ou a namorada, e assim continuar até muito depois dos filhos nascerem. É normal.

Mas não é cristão, e aqui reside o grande problema na cabeça de muita gente, educada na fé cristã. Desde quando o “normal” é equivalente a “cristão”? Terá Jesus morrido numa cruz para eu ter uma vida “normal”? Aliás: se Jesus procurasse a normalidade, por que teria sido assassinado? E porque teriam os primeiros cristãos e os cristãos de todos os tempos, até aos dias de hoje, sido alvo de perseguições e morte? Se somos “normais”, em que é que incomodamos?

Ser cristão nunca foi, nem nunca será, “normal”. Não nos enganemos a nós próprios, deixando-nos levar pelo que todos fazem, todos dizem, todos acreditam. Ser cristão é sempre e em toda a parte ser sinal de contradição; ou, como diria S. Paulo, “loucura”:

A doutrina da cruz é loucura para os que se perdem, mas é poder de Deus para os que se salvam. (…) Nós pregamos Jesus Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos. Porque o que se julga loucura de Deus é mais sábio do que os homens; e o que se julga fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (1cor 1, 18.23-25)

Na sua exortação apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco fala-nos insistentemente da misericórdia que precisamos viver, quando em contacto com aqueles que estão fora do ideal cristão. Mas em lado nenhum ele sugere que este ideal mudou, ou que não é trabalho – misericordioso – da Igreja conduzir os fiéis a ele. Pelo contrário:

Atualmente é fácil confundir a liberdade genuína com a ideia de que cada um julga como lhe parece, como se, para além dos indivíduos, não houvesse verdades, valores, princípios que nos guiam, como se tudo fosse igual e tudo se devesse permitir. (nº34)

Como cristãos, não podemos renunciar a propor o matrimónio, para não contradizer a sensibilidade atual, para estar na moda, ou por sentimentos de inferioridade face ao descalabro moral e humano; estaríamos a privar o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer. (nº 35)

Dizia S. Josemaria Escrivá:

O namoro cristão há de ser curto. Mas se não puder ser curto, há de ser heróico.

É preciso que isto seja repetido aos quatro ventos, testemunhado pelos jovens, ensinado na catequese, estudado na preparação para o crisma, anunciado, de vez em quando, nas homilias. As Famílias de Caná estão aqui também para isto! O mundo precisa com urgência de um apostolado tão misericordioso quanto exigente, propondo a todos os cristãos, nada mais, nem nada menos, que a santidade…

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