Em Caná da Galileia...


“Não tenho filhos. Porquê? Para quê?”

Antes de termos filhos – o Francisco só chegou dois anos depois de nos casarmos – o Niall e eu íamos à missa todos os dias, sem exceção, prática que iniciámos na universidade. É uma das saudades que tenho, a missa diária. Que bem que nos fazia, e como alimentava a nossa relação com Deus! Um dia, quando deixarmos de ter bebés ou filhos pequeninos, quando deixarmos de correr de escola em escola para recolher crianças, quando deixarmos de ter TPCs para orientar, contamos retomar a prática. Vai ser tão bom!

Antes de termos filhos, o Niall e eu trabalhávamos em conjunto com as Criaditas dos Pobres, visitando famílias carenciadas e ajudando no que podíamos. Um dia, lembrámo-nos de oferecer o nosso tempo para fazermos as compras semanais das Criaditas no hipermercado. Já que tínhamos de fazer as nossas, porque não aproveitar e fazer as das Irmãs, permitindo-lhes assim mais tempo para o seu trabalho junto dos pobres? Elas agradeceram, e para nós era um prazer ajudar. Entretanto, os filhos chegaram, um após outro, e as sucessivas mudanças de casa levaram-nos para longe das Irmãs. No hipermercado, continuamos a trazer dois carros cheios de compras, mas são ambos cá para casa.

Nem tudo era serviço e disponibilidade, antes de termos filhos…

Antes de termos filhos, era para mim um esforço muito grande acordar cedo ao sábado e ao domingo. Sabia tão bem dormir um pouco mais! O Niall, que sempre foi madrugador, esperava pacientemente que eu acordasse para irmos então dar algum passeio. Apesar das suas tentativas bem humoradas, não foi ele que conseguiu o milagre do meu acordar matinal: foi o Francisco recém-nascido. E depois dele, os seus irmãos e irmãs. Porque há vinte anos que eu não sei o que é dormir para lá das sete da manhã, grávida ou não grávida, cansada ou descansada. Virtude? Não: necessidade!

Ser Família de Caná numa casa cheia de filhos não é o mesmo que ser Família de Caná numa casa sem crianças, seja porque ainda não chegaram, seja porque já se foram embora, seja porque não existem nem vão existir. Quando se é apenas um casal, sobram muitas horas no dia, horas que não existem numa família a lidar diariamente com horários escolares, birras infantis, vírus de inverno, reuniões de pais. A grande questão que se coloca é esta: como vou eu preencher estas horas?

As respostas são o mais variado possível: posso enchê-las de trabalho, dedicando-me totalmente à minha profissão (o que é fantástico se a minha profissão for também uma bela vocação de serviço ao outro); posso enchê-las de hobbies e divertir-me a valer; posso fazer amigos, viajar, estudar; e posso, como eu fazia, dormir até mais tarde ao sábado e ao domingo 🙂

Mas uma Família de Caná comprometida anseia por mais. Posso, por exemplo, rezar o dobro ou o triplo do que reza uma mãe ou um pai de muitos filhos, compensando, com a minha oração, a falta dela em tantas famílias que conheço. Não é isso que fazem os consagrados de clausura? Rezarem por mim e por ti? Posso, por exemplo, ir à missa todos os dias, construindo uma relação com o Senhor que nunca imaginara poder ser tão profunda. Posso dedicar-me à paróquia e à minha comunidade. Posso servir as famílias à minha volta, visitando-as, ajudando-as no cuidado dos filhos, ensinando-as a rezar, de uma forma que não pode uma família cheia de filhos.

Porque ir à missa ao domingo ou rezar um único mistério do Terço pode ser um ato de quase heroísmo quando a família é maioritariamente composta por elementos com menos de cinco anos, mas pode ser um gesto muito pouco exigente quando não se têm filhos ou quando eles já são crescidos. Nestes casos, a dificuldade não está em movimentar a nossa “caravana”, mas em movimentar o nosso interior, conquistando a virtude que nos impede de nos instalarmos nos nossos confortos e de ceder ao mais fácil. O amor pede sempre um bocadinho mais…

“Porquê, porquê, porquê?” Imagino que seja a primeira pergunta a assomar à mente, quando a família teima em não crescer. Foi a pergunta que me fiz quando, pouco depois de casar, sofri o meu primeiro aborto espontâneo e pela primeira vez me assustei com a possibilidade real de nunca vir a levar uma gravidez a termo. Imagino contudo uma pergunta diferente… E se não ter filhos, mesmo sendo um acidente da natureza, fizer parte do grande sonho de Deus para mim? E se o Senhor quiser que esta minha dor seja convertida em amor? E se Ele precisar da minha oração mais longa, da minha missa diária, da minha disponibilidade para servir a paróquia e as famílias que me rodeiam? Tudo isto – importante notar – sem deixar de gozar a vida, como gozam a vida as famílias com filhos?

Há várias Famílias de Caná sem filhos no Movimento. Deus tem um sonho concreto para cada uma delas, e é preciso que estas famílias descubram este sonho e lhe sejam fiéis. Não foi certamente para terem mais tempo para ir ao cinema que o Senhor as privou de um bem tão precioso, e elas sabem disso melhor que ninguém! A sua vocação é de uma grandeza imensa, porque feita de uma dor aguda, que não é preciso cicatrizar nem ignorar. As feridas de Jesus continuam abertas até hoje, e delas jorra a nossa salvação! É uma dor que ninguém com filhos consegue entender perfeitamente. Mas Jesus entende. E tem um plano para a converter em amor.

Marta e João, e outros amigos que lutam com o drama da infertilidade, sintam-se desafiados a elevar o vosso compromisso aos cumes mais altos da santidade, cumprindo não apenas os mínimos, mas empurrando os máximos cada vez mais para cima! Ajudem-nos com o vosso sacrifício, diferente do nosso, com a vossa oração mais intensa, a vossa generosidade, a vossa disponibilidade! E partilhem connosco as descobertas que forem fazendo neste caminho sempre a subir! O Movimento precisa de vós muito mais do que conseguis sequer imaginar…

Fotografia da Marisa Milhano, Monte Sinai

10 Comments

  1. Susana Machado

    Boa tarde,

    Esta leitura faz-nos pensar, refletir e meditar, aos que têm e aos que não têm filhos…
    Obrigada Teresa

    • Obrigada, muito obrigada por esta reflexão e partilha logo no inicio da semana! Depois de ter enviado email à Teresa com assunto semelhante há algum tempo atrás, isto ajuda a não desistir, a não pensar que “é só comigo”, “talvez eu seja tão pecadora que Deus não me conceda esta graça”, “sem filhos não podemos ser uma família verdadeiramente católica”…. Mas nada disso! Esta partilha me faz ver que vale a pena confiar no Senhor e esperar no tempo Dele! Obrigada!!!

  2. Marta Antunes

    Ora eu que não costumo comentar as publicações pois nunca sei o que dizer ou não tenho tempo (digo eu), não posso virar as costas e deixar de dizer: Obrigada Teresa!, por mim e pelo João. Apesar de irmos percebendo que é a vontade de Deus não termos filhos, é de uma iluminação maravilhosa no nosso espírito entender que este Seu desígnio para nós e outros como nós, ou com outras dificuldades e desafios, não é uma decisão repentina do Senhor. Ele fez-nos e encaminhou-nos deste modo para que possamos amar e dar de outras formas que não aquelas que todos nos habituámos a entender como “normais”. Rezem por nós… vamos esticar esses máximos. Que bem que sabe transformar uma dor em amor!

  3. Marisa Milhano

    E assim faremos! 😀 Amén!

  4. Catarina Silva

    Que maravilha de post!
    Apesar de se dirigir sobretudo aqueles que carregam a dor profunda da infertilidade, serve também para tantas dores e tantos porquês, que tantos de nós carregamos.
    Porquê? Também eu pergunto tantas vezes…Porquê tanta falta de fé à minha volta? Porquê esta luta “sozinha”? Porque tenho de ouvir tantas palavras contra o meu Senhor, sem nada conseguir fazer?…Porquê?
    Mas depois leio:
    … “E se o Senhor quiser que esta minha dor seja convertida em amor?”….”As feridas de Jesus continuam abertas até hoje, e delas jorra a nossa salvação!”… E tudo passa a fazer sentido, como peças de puzzle que se encaixam e nos deixam vislumbrar o quadro…
    Obrigada Teresa!

  5. Que texto tão belo Teresa… Muito obrigada…
    É tão verdade… cada um sente e tem as suas dores… só Deus conhece o coração de cada um… e quando dói muito é fácil perguntarmo-nos “porquê?”… eu pergunto muitas vezes, repetidamente,”porquê Senhor”… e é aí que percebo o quanto preciso de oração…

  6. Bem haja Teresa pela tua reflexão. A mim, particularmente, porque não tenho filhos nem sou “casal”, conforta-me a ideia de que Deus terá um designio para mim que vou descobrindo no meio da minha imperfeição e dor. Procuro ver esse designo, essa vontade nas pequeninas coisas, no dar-se nos nadas que são isso mesmo, nadas. Sou chamada a rezar mais e melhor? talvez sim. obrigada porque através deste post me disseste isso. Tenho a certeza que foi um recado de Deus para mim que tantas vezes caio em desanimo e pergunto: para quê? Porquê?

  7. Que bonito Teresa! Obrigada por esta janela aberta 🙂 é tão bom dar-nos conta de como a nossa história é única e podermos partilhar de que forma o Espírito vai soprando na nossa vida! Ao mesmo tempo, unirmo-nos à comunhão dos Santos em oração com um pouquinho de fé para obter as graças que o Senhor tem preparadas desde sempre para os seus filhos.
    Recordo que, em tempos, visitei a pequena “cela” onde viveu a beata Giulia di Certaldo e alguém me dizia “aqui muitas jovens obtêm a graça da maternidade e depois vêm com os seus bebés agradecer à santa!”. As flores no alto das torres de Certaldo estão a desaparecer… façamo-las florir novamente!!! 😉
    Temos os Santos no céu a interceder por nós…temo-nos uns aos outros a fortalecermo-nos através da oração, da amizade…e temos uma Mãe e um Pai muito bons no Céu que não se cansam de nos amar.
    Que nunca nos cansemos de rezar uns pelos outros!! 🙂

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