Em Caná da Galileia...


Natal – precisa-se!

A Lúcia, com oito anos, tem tido bastante dificuldade na resolução dos problemas de Matemática. Não é propriamente uma dificuldade matemática, sejamos claros. A dificuldade é o português: “O pai do João comprou um televisor. Para o pagar, optou por duas prestações de tantos euros cada.” “Mãe”, pergunta a Lúcia, muito confusa, “o que são prestações?” No problema seguinte, falamos em empréstimos. Vou chamar o pai, que o entendido em empréstimos é ele, pois a “pasta das contas familiares” não me pertence… Mas já tenho outro problema nas mãos: é sobre uma pastelaria onde foram confecionados cem bolos de arroz. “Mãe, não entendo…” “Que não entendes tu? Se foram cem, tens de tirar os que se venderam, e sobram os que restaram!” “Mas, mãe, o que é ‘confecionados’?” Abrimos o livro do Estudo do Meio, e surge-nos novo problema: o texto fala em percentagem de fumadores inquiridos numa dada escola. Explico pacientemente a palavra “inquiridos”, mas o símbolo % continua a confundir a Lúcia, que em Matemática nunca ouviu falar em tal… Desta vez chamo o Francisco, para que lhe explique, que eu já não sei mais.

Também o David, que cá em casa é devorador oficial de livros, está com problemas no Português. Segundo pude perceber, ele não entendeu o texto científico que era suposto analisar no teste. Palavras como “escassez” foram problemáticas para ele. Suspiro. Talvez ele esteja a ler demasiados livros, digamos, para a sua idade, e devesse começar a ler, vá lá, José Saramago ou o Jornal de Notícias. A Enid Blyton e a Condessa de Ségur têm, obviamente, um vocabulário demasiado pobre para uma criança de dez anos…

Não entendo, juro que não entendo aonde nós queremos chegar. Já não se pode ser criança, falar como criança, pensar como criança? Onde estão os problemas com berlindes, sugos, bolos de anos? Onde, os textos sobre meninos a brincar na floresta?

É preciso falar de sexo no pré-escolar, dizem as novas orientações para a Educação para a Saúde em contexto escolar. Ah, e o aborto é para ser discutido no quinto ano, com os meninos de dez anos…

Dez anos? Quando, no verão passado, a nossa querida gatinha teve a sua terceira ninhada diante dos nossos olhos extasiados, uma breve troca de palavras fez-me compreender que o David – com dez anos – ainda não dominava completamente os mecanismos de reprodução humana ou animal.

Dez anos? Falar de aborto aos dez anos? Neste país já não há temas de adultos e temas de crianças?

O nosso mundo lida mal com as crianças. Aliás, o nosso mundo lida cada vez pior com a vida. Do Brasil à França, passando pelo nosso pequeno país de brandos costumes, a vida mete raiva aos poderosos nos governos. Defender verbalmente a vida por nascer pode vir a ser crime em França, dizem os jornais, segundo li aqui. “Je suis Charlie”, diziam os cartazes há uns tempos… Na altura, escrevi sobre a hipocrisia de tal afirmação. Onde está a liberdade de expressão, agora? “Eu sou bebé por nascer”, “Eu sou criança com trissomia 21″… Já viram algum desses cartazes por aí? Não, foram proibidos porque podem incomodar as consciências das mães que optaram pelo aborto.

Ser criança está a incomodar muita gente. Não preciso de navegar nas águas atribuladas dos movimentos pró-vida para o perceber; basta-me tentar ajudar a minha filha de oito anos a entender os enunciados dos problemas no seu manual de Matemática… Nem os autores dos manuais parecem gostar de crianças. O mais provável é nunca terem tido uma criança de oito anos em casa.

E o Natal está aí. Primeiro, a Imaculada Conceição: Maria, a Rainha do Céu, exaltada no exato momento em que um espermatozóide e um óvulo se unem para formar um novo ser, uma criança, uma menina, toda pura, toda santa, sem mancha de pecado original. Só a Igreja Católica para se lembrar de uma festa assim!

Depois, o Menino indefeso, sem lugar nas casas importantes, sem lugar na hospedaria, sem lugar na cidade, perseguido pelos homens do poder, pelos que fazem as leis a seu bel-prazer, alimentando com a morte dos bebés inocentes o seu profundo ódio à vida.

Ah, só Deus sabe o quanto nós precisamos do Natal!

E os “Bebés de Caná” a nascer… Parabéns à família Santos, pelo seu quarto menino, o Inácio! Parabéns à Família Almeida, pela quarta criança, a Miriam!

Vamos repovoar este país com um grande, grande amor à vida!

E venha esse Natal!

Ámen.

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Terço de luz, feito pelas crianças da catequese durante a sua oração, preparando a Imaculada Conceição

9 Comments

  1. Parabéns às duas Famílias de Caná mencionadas, pelos seus bebés! Que Deus os abençoe a todos!

  2. Parabéns às duas famílias de Canã!!!!
    Que grande alegria!
    Quanto ao restante, concordo tanto contigo Teresa e por vezes sinto-me perdida… quero fazer o melhor, mas não sei até que ponto não me baralho toda e saí tudo errado…

    Beijinhos

  3. No outro dia li uma frase algures no Facebook que dizia que não é difícil ser criança, o difícil é ser criança num mundo com pessoas/pais cansados.
    Corre-se demais, exige-se demais, já não existem dias simples, conversas simples, a inocência das crianças vai desaparecendo… sim, Natal precisa-se!

    Parabéns ao João e à Sónia!
    Parabéns ao Serge e à Rute!

  4. Concordo convosco, sou mãe de um menino de 4 anos e uma bebé, por vezes sinto-me impotente neste mundo, impotente na educação, porque o mundo domina a cabeça das pessoas há muito barulho não se consegue silenciar, pensar nas coisas simples, como olhar para mão da minha bebé de 5 meses e dizer que Dom de DEUS.
    Só no silêncio fala Jesus e por vezes vem de forma tão dócil, que pensamos, “fica Senhor Jesus, vem para ficar”.
    Que a nossa esperança seja o SENHOR.

  5. Concordo em absoluto com o deixar as crianças serem crianças, e com a necessidade de os manuais escolares usarem uma linguagem clara e acessível.
    Quanto à educação sexual, deixo apenas o alerta de que, às vezes, o não falar das coisas pode ser tão mau quanto o falar – tudo depende de como se fala, e se os conteúdos estão adequados às idades das crianças (e aqui, sim, concordo que podemos estar perante um problema). Isto porque ao não se falar está-se implicitamente a criar tabus… é claro que não deveria ser necessário haver uma disciplina escolar para isso, já que a sexualidade deveria ser um tema natural nas famílias. o problema é que muitos pais, como cresceram com esse tabu, também não se sentem à vontade para falar desses temas com os filhos. Aconselho a todos o livro “sexualidade para pais e educadores”, de Cosme Pacual, com quem tive o privilégio de fazer uma formação. O Cosme é um padre dominicano que fala da importância de educar para a sexualidade de uma forma absolutamente desconcertante – sobretudo para nós, cristãos, que herdamos tantos preconceitos em relação a este assunto.

  6. Parabéns à família Santos e à família Almeida! Que grande alegria! 🙂

  7. Bem, Teresa, se os seus filhos vissem mais televisão (por exemplo, notícias), saberiam o que significa “exceder”, “empréstimo”, prestação” e “inquiridos”… Os manuais estão feitos para crianças que veem televisão (mais ou menos 99% das crianças portuguesas).

    Parabéns à Rute! Tenho é pena que tenha deixado de escrever no blog… E já agora, Miriam é um nome lindo!

    • Tem razão! Se vissem mais televisão, saberiam o significado de palavras adultas como empréstimo. Mas familiarizados ou não com os conceitos em questão, eles continuam a ser para adultos, e eu prezo muito a infância. Quanto mais tarde as crianças se preocuparem com empréstimos, melhor! Quanto à Rute, penso que agora, já sem o peso da barriguinha, irá voltar 🙂 Ab

  8. Rogėrio Ribeiro

    Olá, Teresa!
    Para ser muito sintético è de facto preciso deixar as crianças viverem como crianças!
    Por vezes quando contemplo os meus filhos a brincar e reparo no seu estado de inocência comparado com outras crianças da mesma idade fico encantado!
    Mas até quando conseguirei preservar aquele estado de inocência?
    Adeus!

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