Em Caná da Galileia...


No útero da misericórdia

Férias familiares na Serra do Gerês. Este ano, e pela primeira vez em dezassete anos, não tenho um bebé ou uma criança com menos de três anos para cuidar. A Sara tem quase quatro e alinha com os irmãos em todas as brincadeiras, “explorando” por todo o lado como eles. Assim, enquanto os meus filhos correm pela aldeia e pelos montes em redor em animada celebração da vida e do verão, eu sento-me confortavelmente numa cadeira e leio. Que luxo, meu Deus!

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Entre os livros que trouxe para as férias, e porque quero estar atenta a todas as graças deste Ano Santo, está o Diário de Santa Faustina, a Apóstola da Misericórdia. Abro ao acaso, e leio ponto atrás de ponto, deixando-me inebriar pelo amor de Jesus assim manifestado. Um pequeno parágrafo oferece-me conteúdo de meditação para longas horas:

Escreve: Tudo o que existe está encerrado nas entranhas da Minha Misericórdia, e de forma mais profunda que a criança no ventre materno. (nº 1076)

Que imagem poderosa! O bebé no útero não tem consciência do amor que o envolve. Faça o que fizer, não poderá fugir a este amor. Silenciosa, invisível, a mãe alimenta-o e ama-o com ternura infinita. Ninguém poderá magoar este bebé sem primeiro magoar a mãe…

Será assim o amor de Deus? Será possível que, envolvendo este mundo, não esteja apenas uma frágil camada de ozono, que os homens têm poder para destruir e reconstruir, mas antes uma camada poderosa de misericórdia, que nada nem ninguém consegue destruir? Estaremos realmente no útero de Deus, cuidados e amados por Ele com tal força, que ninguém nos poderá magoar sem primeiro O magoar?

E o nosso país a arder? E os milhões que morrem na guerra e de fome? E aqueles 20 jovens que perderam o avião para as JMJ, por um engano qualquer, e ficaram a chorar no aeroporto? Não poderia o Senhor proteger uns e outros, nas grandes como nas pequenas coisas, ambas importantes? Conheço muitas histórias que provam como um pequeníssimo pormenor impediu um acidente, mas também conheço muitas histórias em que esse pequeníssimo pormenor, capaz de fazer a diferença entre o ir e o não ir, o pegar e o não pegar fogo, a vida e a morte, não aconteceu. Jesus assegura-nos no Evangelho que Deus conhece todos os cabelos da nossa cabeça, mas às vezes não parece!

As minhas perguntas ecoam dentro de mim enquanto observo os meus filhos a brincar na água, a subir às árvores, a beber água fresca no tanque. Um útero imenso, um útero feito de misericórdia, onde todos, sem exceção, vivemos, respiramos e nos alimentamos… Será verdade? Abro de novo o Diário e continuo a leitura do mesmo ponto:

Quanta mágoa me causa a falta de confiança na Minha Bondade! Os pecados que Me ferem mais dolorosamente são os de desconfiança.

Não quero duvidar, magoando Jesus com a minha falta de confiança. Quero sorrir quando tudo correr mal. Quero inspirar profundamente, embora pareça que só há cinzas no ar que respiro. Quero acreditar que Deus me ama mesmo quando parece que não se lembra de mim. Quero acreditar, com toda a fé do meu batismo, neste amor que ultrapassa a minha compreensão e que nunca, por toda a eternidade, conseguirei abarcar perfeitamente. No seu Decálogo, S. João XXIII escreveu assim:

Só por hoje, acreditarei firmemente que, embora as circunstâncias demonstrem o contrário, a providência de Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.

4 Comments

  1. Obrigada.
    🙂

  2. “Só por hoje, acreditarei firmemente que, embora as circunstâncias demonstrem o contrário, a providência de Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.” – às vezes, uma vez por mês, era perfeito!

  3. Catarina Silva

    Também eu agradeço: Obrigada
    Só por hoje acreditarei firmemente…..e esforçar-me-ei por acreditar todos os dias da minha vida….

  4. Vera Vaz Ribeiro

    e quanto medo sinto por saber que Deus me dá tanto sem eu merecer nada, mesmo quando vacilo,quando o abandono,como Pedro as vezes fiinjo que não o conheço, como pode haver amor tão grande para criaturas tão imperfeitas que somos, só mesmo com muito amor e misericórdia.Portanto só podemos agradecer e pedir perdão .

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