Em Caná da Galileia...


Nós, Jesus!

“Mãe, isto lê-se «pão» ou «pãe»?” O António debruça-se sobre o seu caderno diário, testa franzida, língua apertada entre os lábios com o esforço da concentração.

“Anda, faz lego comigo, mamã!” Impaciente, a Sara puxa-me pela manga e tenta atirar-me para o chão, onde os legos espalhados já me fizeram tropeçar.

“Então, mãe, tenho de saber ler! Ajuda-me!”

“António, se não te calas eu não consigo fazer as contas!” A Lúcia também quer trabalhar, e como partilha a mesa com o irmão mais novo, hoje não consegue concentrar-se.

O David entra na sala, com o livro de História e Geografia de Portugal na mão. “Mãe, não sei quando é Noroeste ou Nordeste. Como é que eu distingo?”

“Pãe ou pão? Diz lá, mamã!”

Entretanto, amuada, a Sara destrói a torre que acabara de construir sem a minha ajuda, fazendo um enorme estrondo, que enerva ainda mais a Lúcia.

Suspiro. O Niall chega tarde a casa, as minhas aulas foram particularmente difíceis hoje, e o horário que tenho este ano não me permite adiantar as refeições e a limpeza da casa como nos anos anteriores. Se não tenho cuidado, vou desatar aos gritos, dizendo que não consigo atender a todos ao mesmo tempo, ralhando com e sem razão. É tão fácil ceder ao “homem velho” de que fala S. Paulo e deixar-me levar pelas emoções!

Mas tenho uma alternativa, que me oferece o Evangelho: posso sempre estender os braços e, em vez de gritar com os meus filhos, gritar por Jesus. Não estão os Evangelhos cheios destes gritos? Raras são as orações bonitas e bem arranjadas! Eram gritos, gritos de autêntica aflição, e por isso, gritos de autêntica confiança, que os pobres e os doentes lançavam ao Senhor. Penso no cego Bartimeu:

Jesus, filho de David, tem compaixão de mim! (Mc 10, 47)

 

Também eu vou gritar, hoje, no silêncio do meu coração: “Jesus! Jesus, filho de Maria, tem compaixão de mim!” E vou continuar a gritar silenciosamente,  estendendo para Ele os braços, até Ele me responder e vir ao meu encontro. Depois, de mãos dadas com o meu Salvador, vou atender a um filho e a uma tarefa de cada vez. “Nós, Jesus”…

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One Comment

  1. Pilar Pereira

    Por aqui são muito menos filhos, as refeições estão prontas graças à Nina e ainda assim a sensação de não chegar a todo o lado é frequente… Nós, Jesus,… (ainda bem que falaste nisto porque já me andava a esquecer!)

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