Em Caná da Galileia...


Notre Dame, os edifícios, a pandemia e os sinais dos tempos

De vez em quando, na minha oração, procuro fazer sentido do emaranhado de fios que tecem a minha vida, o mundo, a Igreja. Procuro colocar os acontecimentos sob a luz que me chega do Evangelho e descobrir detalhes divinos. No fundo, procuro ler os sinais dos tempos, como Jesus pediu que fizéssemos.

Há alguns anos, no nosso país e noutros, o sistema das escolas católicas começou a desmoronar-se. Com a perda dos contratos de associação, a maioria viu-se condenada a despedir professores, perder alunos e, finalmente, a fechar portas. Olho com tristeza para tantos edifícios construídos com esforço, com o empenho de famílias e de gerações, com os trabalhos e os saraus dos alunos; lembro-me da orgulhosa inauguração de anfiteatros, ginásios, quadros interativos. Para onde foram as longas listas de espera por uma vaga num colégio católico? Os edifícios estão em pé, mas esvaziam-se a um ritmo alucinante. Dói a alma só de ver.

Entretanto, em plena Semana Santa do ano 2019, um terrível incêndio destruiu a Notre Dame, em Paris. O mundo inteiro chorou a catástrofe. Colocou-se na altura uma pergunta muito prática: onde iria o arcebispo de Paris juntar os seus sacerdotes para a missa crismal, daí a três dias?

Não sei onde os reuniu então, mas sei que, precisamente um ano depois, não os reuniu em lado nenhum, porque em função da pandemia, não houve sequer missa crismal na Semana Santa. A igreja de pedra que ardeu na Páscoa de 2019, fechou na Páscoa de 2020. Fico-me a meditar nisto, e logo outro pensamento me vem…

Naquela Semana Santa de 2019, Jesus Sacramentado foi salvo das chamas por um sacerdote corajoso, com formação de bombeiro. Na sua ânsia de salvar a vida, não se esqueceu do Senhor vivo na Eucaristia. Depois, ali no meio das chamas, pediu a Jesus Eucarístico que abençoasse a catedral. Na Semana Santa de 2020, este mesmo Jesus Sacramentado ficou encerrado em igrejas pelo mundo inteiro. Na ânsia de salvar a vida, foram muitos os sacerdotes que acharam mais seguro manter o Senhor vivo à distância. Mas nesta Semana Santa de 2020, foram também muitos os sacerdotes que, alegrando o Coração de Deus, O resgataram das igrejas encerradas e O levaram pelas ruas das cidades doentes, abençoando e curando, quais bombeiros da Notre Dame. Também nisto, o incêndio foi profético.

Vivemos uma mudança de época e de paradigma. Tanto os Papas Bento XVI e Francisco, como vários historiadores, o afirmaram. A imagem de um Papa solitário na Praça de S. Pedro a abençoar o mundo com o Santíssimo Sacramento, sob chuva miudinha e ao som das sirenes, ficará como emblema desta viragem.

Continuo a rezar, e penso no casal de santos que pude apresentar às Famílias de Caná, num dos nossos retiros: os últimos imperadores do grandioso império austro-húngaro, Carlos e Zita. A sua santidade construiu-se sobre as ruínas do seu tempo, que viu cair impérios e imperadores, transformar casas reais em museus e mosteiros em hotéis. Carlos morreu a rezar pelo seu povo, sem se dar conta de que já não era seu; e Zita educou os filhos para a eventualidade de virem a ser reis, de tal forma que, na sua casa, cada dia da semana se falava uma das diferentes línguas do império de que fora imperatriz – não fosse Oto, o filho mais velho, de repente precisar delas para reinar. Carlos e Zita foram santos, construindo sobre ruínas sem perder a esperança.

Aqui estamos nós agora, entre os escombros de tanta coisa. Não sei como é convosco, mas a nós, o confinamento ajudou a tomar decisões. Por exemplo, este ano marcou a nossa última experiência com escolas católicas, apesar de as duas aqui da zona se manterem, até ver, abertas: a partir do próximo ano letivo, todos os nossos filhos frequentarão a escola pública. Teremos nós desistido delas, ou elas de nós? Quando nos mudámos para Mogofores, há doze anos, vínhamos atrás do sonho antigo de educarmos todos os nossos filhos numa única escola católica, e quer a escola, quer o sonho, pareciam inabaláveis. Faz vertigens, o ritmo a que a vida pode mudar!

“Francisco, reconstrói a minha Igreja!” Disse Jesus um dia a S. Francisco de Assis, em plena mudança de época; disse de novo a Francisco, o Papa, há sete anos – em plena mudança de época. E diz-nos agora a nós, Família Power. A nós, Famílias de Caná. Nunca, como hoje, se falou tanto na Igreja Doméstica; e nunca, como hoje, se precisou tanto da Igreja Doméstica.

Reconstruamos então! Com cuidado, não vamos nós reconstruir paredes, edifícios e estruturas, que podem bem ser apenas “sepulcros caiados cheios de podridão”, como denunciava Jesus. Como em Notre Dame, esforcemo-nos por salvar das chamas, não os símbolos da vaidade humana, mas acima de tudo, a preciosíssima relíquia da Coroa de Espinhos, tingida com o Sangue do nosso Salvador…

 

 

 

6 Comments

  1. Sempre lúcido o seu testemunho.

  2. “nunca, como hoje, se precisou tanto da Igreja Doméstica”. Sinto tanto isto! E tenho tanta dificuldade em perceber como fazer da minha casa uma Igreja Doméstica, de como viver diariamente a minha fé, principalmente em família. Foi uma benção ter dado com este site… Muito obrigada.

    • Filipa, assim que nos for permitido, faremos novamente os nossos encontros e retiros familiares, e aí, em contacto com outras famílias, aprenderemos juntos como fazer! Um grande abraço!

    • Catarina Ramos Tomás

      O “como fazer”, a eterna pergunta.
      É maravilhoso ler o testemunho, é encantador ver que resulta, mas é o “como pôr em prática” que nos traz a angústia.
      Aos poucos, muito pouco, às vezes, quase nada, mas sem desistir. Leva tempo, mas vou conseguindo. E rezando, rezando muito.
      Obrigada Teresa, obrigada Power!
      “Foi uma benção ter dado com este site!”
      Sinto uma dormência, uma apatia no seio das nossas comunidades… Vivemos uma mudança de época e de paradigma… Talvez. Talvez voltemos à igreja das pequenas comunidades…

  3. Obrigada Teresa… este texto deixou-me a pensar.

    São mesmo tempos de mudança de paradigma e sinto mesmo toda a gente perdida e zangada. O meu pai costuma dizer que a história faz-se em ciclos e que eu ainda hei de assistir ao movimento de “regresso à terra”. Pode ser que quando a humanidade perdida e zangada bater o fundo que voltemos a encontrar o verdadeiro Centro.
    Bem hajam!

  4. Ana Maria Interlandi

    Obrigada Teresa, pelo testemunho… faz me refletir.
    Partilho as respostas dadas anteriormente…
    Também para mim foi uma benção ter encontrado este site.
    Deus vos abençoe!

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