Em Caná da Galileia...


O burrinho do Domingo de Ramos

Estando próximos de Jerusalém, Jesus enviou dois dos seus discípulos e disse-lhes: “Ide à povoação que está em frente de vós e, logo que nela entrardes, encontrareis um jumentinho preso, que ainda ninguém montou. Soltai-o e trazei-o. E se alguém vos perguntar: ‘Porque fazeis isso?’ Respondei: ‘O Senhor precisa dele, e logo o mandará de volta.’ ” (Mc 11, 1-3)

 

Conhecem a história do burrinho do Domingo de Ramos? Já a ouvi contada de muitas maneiras, mas é sempre, sempre um sucesso cá em casa. Partilho-a hoje convosco também:

O burrinho que os discípulos soltaram ficou um bocadinho ansioso, e esperou, inquieto, enquanto preparavam a sua montada. Mas pouco depois, transbordava de orgulho:  Entrando em Jerusalém, logo a multidão o rodeou, aclamando e gritando com ramos nas mãos. O burrinho não cabia em si de felicidade. Nunca imaginara tamanha emoção! De cabeça levantada, com o focinho aberto num sorriso de burro, as orelhas bem espetadas, ele trotava como um cavalo galante.

Como prometido, no final do dia os discípulos devolveram o burrito ao seu dono. No estábulo, inquieta, esperava-o a mãe burra: “Então, querido, tiveste um bom dia?” “Nem imaginas, mãe! Todos me aclamaram! Levantavam palmas e gritavam Hossanas à minha passagem!” A mãe sorriu para si mesma e nada disse. Mas no dia seguinte de manhã, foi ter com o filho e sugeriu-lhe: “Porque não voltas a entrar em Jerusalém? Experimenta voltar lá, a ver se te fazem a mesma festa de ontem!” Orgulhoso, o burrito concordou.

E lá foi ele de novo, cabeça bem levantada, orelhas espetadas, focinho aberto num sorriso de burro. Mas oh, desilusão! Ninguém parecia reparar nele, até ele atirar com uma banca de comércio ao chão, e tropeçar numa tenda, e barrar o caminho a um carro de cavalos. Então todos lhe gritavam: “Sai da frente, estúpido animal!” Foi um burrito triste e cabisbaixo que regressou a casa.

“Então, filho, foste aclamado por todos?” “Não, minha mãe, pelo contrário, todos me gritaram palavrões… ” Desabafou o burrito. A mãe, sorrindo, disse: “Nunca te esqueças da lição de hoje, querido: ninguém aclama um burrinho. Aclamam, sim, Aquele que o burrinho leva consigo…”

Cada um de nós é um pequeno burrito. Como o jumentinho de Jerusalém, também nós já estivemos presos, amarrados a muita coisa… Um dia, Jesus enviou os seus discípulos para nos soltarem e nos conduzirem até Ele. Será que nos recordamos desse dia? Do nome desses seus discípulos? Da hora? Do lugar onde estávamos? Terá sido uma Eucaristia diferente, um post de um blogue, um sorriso de um cristão, uma palavra amiga, um convite para sermos catequistas, um desafio…? Os discípulos soltaram-nos (ah, custou tanto, deixar-se soltar!) e trouxeram-nos a Jesus. E depois? Jesus subiu na sua montada e entrou, triunfante, em Jerusalém.

Quantas vezes, como o burrito da história, nos envaidecemos com os aplausos recebidos e nos considerámos o máximo? Transbordando de orgulho, achámos justas as palmas e as aclamações. “Que belo catequista ele é! Como canta bem! Que grande acólito! Que homem de Deus! Ah, nunca ninguém arranjou os altares como ela! E já repararam na beleza dos bordados que cobrem os altares? Espetacular, aquele padre! Como fala bem!…” A maior parte das vezes, nem precisamos dos elogios exteriores: “Rezo cada vez melhor. Já conheço imenso da Bíblia. Estou a pecar tão pouco! Qualquer dia entro no céu sem dar por isso.”

Nunca nos esqueçamos: somos apenas o jumentinho do Senhor. Como é fantástico o nosso Deus, que se serve de “burros” para entrar na cidade dos homens! Que seria de nós, se Ele não precisasse da nossa nulidade? Mas no momento em que deixarmos de transportar o Rei, deixamos de ter qualquer utilidade e somos devolvidos ao nosso “estábulo”.

Que o Domingo de Ramos nos ajude a recordar a história do nosso chamamento, e nos ensine a humildade de um Rei que, por nós, se fez o último dos últimos! Ámen.

One Comment

  1. Bom dia! Lá iremos aclamar o Senhor! Nunca me havia ocorrido tal reflexão em torno do jumentinho. E tão pertinente que é. Esta confusão que reina no intimo de todos, quando fazemos ou não a vontade do Senhor, quando seguimos ou não o Seu caminho… Que o Senhor nos ajude a recordar que o Amor é a essência e a humildade a virtude que suporta o Amor.
    Um excelente Domingo de Ramos! Celebremos o Nosso Rei e Senhor! que por Amor se fez Nosso Irmão…

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