Em Caná da Galileia...


O fogo que sara feridas

Está a chegar o dia de Pentecostes. Que tal fazermos juntos uma novena, pedindo ao Senhor o dom do Espírito? Aqui no site está a novena que escrevi, em Da Nascente – Orações. Iremos começar a rezá-la amanhã e, na vigília de Pentecostes, quando terminarmos, faremos uma festa caseira, com uma bela fogueira (na churrasqueira, claro, que estes dias de calor não são para mais) invocando o Espírito de fogo que descerá sobre nós. Quem alinha?

Tenho andado a pensar neste dom do Espírito, especialmente depois de ler alguns dos comentários ao artigo da Isabel Marantes. O tema que a sua família viveu e que motivou o seu testemunho é um tema muito doloroso, como só sabe quem já passou por ele. Temos muito a fazer, como Igreja, para ajudar as famílias a viver um luto que não é nada simples de viver, e temos de trabalhar com muito mais empenho para que a dignidade de todos os seres humanos, seja qual for a sua idade, seja garantida, na vida como na morte.

Mas há outro trabalho a fazer, e esse, só o Espírito Santo o pode fazer, com a nossa colaboração. Bem diziam os primeiros cristãos: “O Espírito Santo e nós…” (At 15, 28) Trata-se de sarar feridas.

Há feridas que se formam no exato instante em que somos magoados ou em que pecamos. Há outras, porém, que só surgem quando, passados anos ou décadas, nos damos conta de que tomámos, no passado, a decisão errada, quer porque fomos mal aconselhados, quer porque não possuíamos o discernimento ou a formação cristã que possuímos agora. O sentimento de culpa é uma ferida que arde mais que qualquer outra.

As questões que a Isabel Marantes levanta podem ter aberto ou reaberto feridas em alguns leitores. Outros têm convivido com a dor há muitos anos, sem que a ferida pareça sarar.

Eu conheço famílias que nunca recuperaram a alegria depois da perda de um filho, antes ou depois do nascimento, e famílias que mantêm o quarto do filho falecido com a exata disposição em que estava enquanto ele o ocupava. A ferida fica a sangrar anos a fio, e uma ferida a sangrar causa infeção, às vezes infeção generalizada que leva à morte na alma…

Acontece, que nós, cristãos, temos uma enorme vantagem em relação a todos os que não partilham a nossa fé: a nossa religião nasceu de um Coração despedaçado! Foi uma lança espetada no Coração que fez brotar Sangue e Água, dando origem à Igreja. Mais: a nossa religião nasceu quando Alguém coberto de feridas ressuscitou dos mortos. Não, as suas feridas não desapareceram, nem se evaporaram: foram glorificadas. A Tomé, Jesus Ressuscitado desafiou:

Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. (Jo 20, 27)

(Já sabem cantar o último cântico que escrevi, em que o refrão é este encontro de Jesus e Tomé? Eu vou continuar a perguntar, na esperança de que alguém responda na caixa de comentários 🙂 )

Já antes, Isaías tinha profetizado:

Pelas suas chagas fomos curados. (Is 53, 5)

À imitação do Mestre, cada um de nós só entrará no Céu quando todas as nossas feridas se transformarem em feridas gloriosas. E as feridas gloriosas são, para Jesus e para nós, fonte de felicidade, de alegria, de doçura, de salvação. Aliás, Deus nunca teria permitido que o mal e o pecado entrassem na humanidade se não fosse capaz de, desse mal e desse pecado, obter um bem maior.

Os cristãos são, pela natureza da sua fé, alegres. Sábado, o Ensinamento Mensal será precisamente sobre a Alegria. Não percam!

Que fazer, quando somos invadidos por sentimentos de culpa, ou por sentimentos de raiva e rancor contra alguém? A primeira coisa é, sem dúvida, dirigirmo-nos ao confessionário. O perdão de Jesus lavará uns e outros. Depois, é preciso invocar o Espírito, pedindo-Lhe que queime as nossas feridas e as sare profundamente. Por fim, num ato de vontade, distinto do sentimento ou da emoção, é preciso acreditar que as feridas de Jesus curaram as nossas feridas, glorificando-as. Agora, cada uma delas brilha como estrela no Céu da eternidade. Graças a elas, a estrada da humanidade ganha nova luz!

Invoquemos então o Espírito Santo, para que venha curar as nossas feridas, não fazendo-as desaparecer – o que seria impossível em muitos casos – mas glorificando-as. Assim curadas, elas não infetarão, envenenando a nossa vida e a dos que nos rodeiam, antes se transformarão, como as de Jesus, em Fontes de Salvação.

Na prática, o que significa isto? Significa que as nossas memórias deixam de gerar em nós raiva, revolta, culpa, ressentimento, e passam a gerar alegria, humildade, gratidão (sim, gratidão!), e paz – A paz esteja convosco! (Jo 20, 21) – esse dom que nasce de um Coração despedaçado e que Jesus Ressuscitado ofereceu aos amigos como dom primeiro. Tudo isto, claro, bem misturado com a dor, que rima sempre com amor.

Parece difícil?

Ser cristão tem de passar por aqui.

Vamos então rezar juntos a Novena de Pentecostes, para que o Espírito cure as feridas de uns e de outros, e a todos nos glorifique com Jesus?

Vem, Espírito Santo! Ámen.

2 Comments

  1. Pilar Pereira

    Sim, vamos!

  2. Olívia Batista

    Bem, ainda não sei cantar o cântico de que falas… É só agora reparei que tens outro em destaque: N. 2 “o teu nada” e estive a ouvi-lo pela primeira vez. Estou em lágrimas pela beleza da melodia e da voz, mas sobretudo da letra. É como ouvir o Meu Senhor a falar comigo! Que belo!

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