Em Caná da Galileia...


Um acólito, um fotógrafo e o poder da reparação

Durante a nossa preparação familiar para a Primeira Comunhão da Lúcia, foi surgindo um sonho entre os meninos: o David e o António, como acólitos que são, iriam ambos acolitar, segurando a patena, no momento solene da comunhão da irmã. Que sonho bonito! Partilhei-o com a Helena LeBlanc, querida mãe de Família de Caná e responsável pelo grupo de acólitos da nossa paróquia, e logo a Lena decidiu: ambos iriam estar ao lado do sacerdote, o David segurando a patena por ser mais velho, o António simplesmente contemplando.

E foi com esta alegria expectante que todos nos preparámos para o grande momento. Finalmente, ele chegou. A Lúcia seria a primeira a receber a Comunhão, porque como toda a sua família pertence ao coro, para não ficar longe de nós ficou logo no primeiro banco (em Mogofores, cada criança fica no banco com os pais). Com o coração aos pulos, a Lúcia ajoelhou-se na almofada nas escadas que sobem para o altar, e o senhor padre aproximou-se, o David de um lado, o António do outro. Os olhos de todos brilhavam.

E foi então que o desastre aconteceu. A Lúcia, noiva radiante à espera do seu Jesus, não deu por nada, graças a Deus! No momento em que o David se inclinava para segurar a patena sob a boca da irmã, o fotógrafo de serviço (que deve ter entrado em pânico ao ver que não ia conseguir fazer o trabalho que lhe tinha sido encomendado com o David à frente) puxou-o veementemente pelo cordão da túnica. O David corou e olhou para quem assim o maltratava, confuso, perdendo o momento da comunhão da irmã. Nos seus olhos brilharam duas lágrimas, que ele se apressou a controlar.

A comunhão dos meninos continuou, o senhor padre, infelizmente, como depois nos disse, não se apercebeu destes gestos para os parar, e o fotógrafo continuou a impedir o David de fazer o seu papel de acólito, acabando a criança por desistir de estender a patena. Eu passei o resto do tempo da comunhão dividida entre a vontade de agradecer a Jesus o dom da comunhão da Lúcia, e a dor de ver o David claramente lutando contra as lágrimas, ali nos degraus do altar, por causa de um fotógrafo que eu nem sequer tinha desejado que ali estivesse, pois não tinha qualquer interesse na fotografia do momento mais íntimo da vida espiritual da minha filha.

O papel de um fotógrafo é captar o momento, não manipulá-lo. Nenhum fotógrafo tem o direito de magoar um menino que serve humildemente o altar do Senhor para conseguir a sua fotografia. Nenhum fotógrafo tem o direito de humilhar uma criança.

O dia continuou feliz, com a presença da avó, dos tios e primos de Coimbra, dos padrinhos, do senhor padre e dos catequistas da Lúcia. O sol quente, a relva verdinha, o bolo branco, a amizade, a festa tranquila, tudo ajudou a tornar o dia inesquecível.

Mas no final de tudo, já depois da oração do terço do Mês de Maria no santuário, foi preciso conversar.

“David, já pensaste? Hoje foste parecido com os pastorinhos”, disse-lhe.

“Em quê, mãe? Não percebo…”

“Os três pastorinhos só queriam estar em paz com a sua Senhora, contemplando-A, escutando-A, meditando nas suas palavras. Em vez disso, eram continuamente assediados pelo povo, empurrados, puxados daqui para ali, obrigados a responder a interrogatórios sem fim, impedidos dos seus momentos especiais… Na última aparição, a Lúcia até ficou sem tranças! Alguém de entre a multidão teve o desplante de lhas cortar para as guardar como relíquias… Imagina a sua tristeza!”

“Pois é… Imagino bem! Eu hoje, durante a comunhão dos meninos, tive de fazer um esforço enorme para não chorar. Foi o maior sacrifício, porque só me apetecia chorar. Ia parecer muito mal, eles todos felizes a comungar, e eu a chorar…”

“David, o que é que Jesus fez para que nós O pudéssemos comungar agora?”

“Ele deu a vida por nós.”

“E deu a vida com muita dor! Comungar não é uma coisa simples, não. Comungar é partilhar a vida de Jesus crucificado. Foi na cruz que Ele Se tornou o nosso alimento.”

“… Então ainda bem que custou um bocadinho a mim também!”

“Ainda bem, sim. Há sacrifícios que, por serem tão difíceis, Jesus só pede aos seus melhores amigos. Tu deves ser muito amigo de Jesus, para Ele te ter pedido isto!”

“Isso eu sou.”

“Já ofereceste a Jesus o teu sofrimento de hoje?”

O David abraçou-me com muita, muita força.

“Vou oferecer agora.”

“Jesus, é por teu amor, pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria… ”

“Afinal foi bom assim, mamã. Tenho um sacrifício para oferecer!”

“Como os pastorinhos…”

“Como os pastorinhos!”

O David adormeceu. E eu deixei de pensar neste fotógrafo concreto, de quem conheci apenas um momento infeliz, e que talvez seja uma excelente pessoa, para pensar na mágoa de Jesus, que tem de lidar com fotógrafos agressivos um pouco por todo o lado, misturados nos mais belos sacramentos da sua Igreja.  Onde foi que nós, cristãos, errámos? Como foi que passámos a mensagem ao mundo que um fotógrafo numa cerimónia católica é mais importante do que um menino que serve o altar do Senhor? Será mesmo preciso fotografar o exato momento da receção de um sacramento? Primeiras Comunhões, Batismos, Crismas, Matrimónios: os mais belos sacramentos da Igreja ficam tantas e tantas vezes reféns dos fotógrafos que nós, cristãos, aceitamos sem questionar.

Provavelmente porque nós também colocamos os nossos interesses à frente dos do Senhor. Quantos  pais, um pouco por todo o lado, apresentam os seus filhos à Primeira Comunhão, ao mesmo tempo que a transformam na última. Quantos pais de crianças da Primeira Comunhão investem rios de dinheiro na roupa, nos acessórios, no cabeleireiro, no restaurante, e se esquecem de lhes falar de Jesus. Quantos pais de crianças de Primeira Comunhão estão de facto mais interessados nas fotografias do que no ato em si, fazendo com que os fotógrafos temam não conseguir captar o momento com a qualidade esperada e, portanto, compreensivelmente, tentem o tudo por tudo. Quantos paroquianos fazem do seu serviço à Igreja uma busca de poder e do primeiro lugar… Quantos!

Jesus, vem com o teu sopro e purifica a tua Igreja dos vendilhões que a invadem (e ainda há quem fale nas inocentes lojinhas de Fátima!), porque nós lhes abrimos a porta e até lhes fazemos uma vénia para que entrem.

Jesus, ajuda-nos a receber as humilhações como Tu recebeste a tua coroa de espinhos, sabendo que, sem elas, não alcançaremos nunca a santidade.

Ámen!

 

12 Comments

  1. Helena Atalaia

    Que maravilhosa a vossa conversa! Obrigada pela partilha de algo tão belo e íntimo. Obrigada pelo exemplo.
    Bjs

  2. Elsa Valverde

    Estava a ler este post e a pensar no Padre com que fiz a Primeira​ Comunhão e que também me casou por causa dos​ fotógrafos. Ele detestava intromissões como essa que aconteceu ao David. Quando me casei fiz questão de avisar o fotógrafo de que tinha que parecer invisível pois iria arriscar-se a levar um raspanete daqueles. Claro que tudo correu bem. Quanto à Primeira Comunhão, um grande beijinho para a Lúcia. Este ano a Rita também vai fazer no dia de Corpo de Deus. Que Deus nos ajude a continuarmos a preparar, em conjunto com os catequistas, a Rita para este momento tão especial. Um abraço enorme para toda a família!

  3. Olívia Batista

    Oh, que tristeza! Lá na paróquia, o sacerdote anterior a este, deu um valente “sermão” a quem queria tirar fotografias aos meninos (cada um tinha alguém a tirar fotos) e disse que nenhum devia perturbar as celebrações, aconselhou que ficassem num canto, acho que desde esse dia – e já lá vão mais de 12 anos – nunca mais ninguém se atreveu a andar por ali a tirar fotografias de qualquer maneira!

  4. Que situação tão infeliz! Na minha paróquia, o fotógrafo é católico praticante, portanto não se atreveria a uma coisa destas. De qualquer modo, o fotógrafo fica sempre do lado contrário ao do acólito, e fica afastado, para não perturbar ninguém.
    Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer.

  5. Maria da Conceição Simões

    Não consegui perceber o que se estava a passar. Fico muito triste, pois pensei que tinha sido um momento muito feliz para todos.
    Como percebeu Teresa ficamos sem saber se deviam começar a dar a comunhão ou esperar que as crianças acabassem. Foi quando peguei no cálice para libertar o Ministro da Comunhão. Nesse momento pareceu-me que o David estava com a patena sem problema.
    Continuo a achar que os fotógrafos deveriam todos ter formação para saberem como ocupar o seu lugar em todas as cerimonias.
    Esta formação é feita todos os anos , só que não vão. No ano em que fiz a de acólitos entre leitores, zeladores ,etc havia para fotógrafos.
    Graças a Deus a Teresa sabe como ajudar estas tristezas dos seus filhos.

    • Não fazia ideia de que havia formação para fotógrafos! Esse pode ser um bom critério, São, não lhe parece? Contratar os fotógrafos que têm a formação feita! Vamos pensar nisso para futuras ocasiões! Bj

  6. Célia Oliveira

    Nós temos um fotógrafo credenciado pela diocese, que paga anualmente as suas licenças. Eu já o vi trabalhar muitas vezes e sabe estar e fazer o seu trabalho sem causar embaraços e respeita o sítio e a cerimônia!! Apenas é mais caro e isso é que conta para a maioria na hora de decidir. É pena que depois aconteçam destes incidentes a quem menos culpa tem…

  7. Helena Isabel Barros Le Blanc

    Ola Teresa!
    Eu vi, com muita tristeza! Ele foi rude! Muito rude! Estava em pânico porque tinha “perdido” o momento da Lúcia, a primeira, e a segunda criança também já estava a comungar! Mas como adulto deveria ter-se controlado porque o único culpado da situação foi ele, pois não se posicionou convenientemente. Se fosse assíduo na Eucaristia de certeza que teria mais destreza e antecipação!
    Com muita pena observei!
    Como bem disse a Conceição, ainda bem que deste um sentido ao sofrimento do David (como já fizeste comigo)!
    Que Deus receba todos estes sacrifícios (pois temos – falo por mim – tanto por reparar)!
    Bjs

  8. Sónia Alexandrina

    Gostaria de substituir o título deste post por, “O Acólito reparador e misericordioso”, ou por, O momento – experiência carnal, ou digital?
    Julgo que o fotógrafo, o homem, esse que cometeu um acto reprovável e provocador de dor em alguns e raiva noutros, é o elemento menos importante neste episódio. Este não deve ter até hoje consciência da repercussão do seu gesto.
    O que há a destacar de verdadeiramente cristão é a atitude dum menino de pronta entrega da sua dor em reparação dos pecados ( neste caso, inclusivamente, os sofridos na própria pele) e a atitude de uma mãe que sabe interpelar e apelar a Deus, ao nível das desilusões de um menino.
    Depois, julgo que é, de facto, pertinente refletir e pensar por onde andam os nossos olhos e atenções: a viver plena e carnalmente, em verdadeira e absoluta comunhão os momentos da nossa vida, ou a tentar eternizá-los a custo da nossa ausência carnal desses momentos? No instante em que os estamos a reproduzir na máquina já os perdemos ao vivo e a cores… O digital desvia-nos, sem darmos conta, da experiência única que é a carnal, ali, ao vivo, com as cores que nenhuma máquina é capaz de captar. Neste ponto, todos os que andamos de tecnologias no bolso prontos a partilhar instantes (que, no fim de contas, ninguém viu nas cores reais), temos muito para ponderar e reconsiderar. Um dos muitos males, disfarçados de bem, dos nossos tempos. O diabo mora nos detalhes!
    Esta é uma consideração a fazer, especialmente para estes momentos de desejada intimidade com Deus, sem dúvida. Nada me admira que não tivessem qualquer interesse no registo fotográfico do momento, Teresa.
    Fotógrafo à parte, julgo que este seria o “sumo” (em suma) que nos querias servir para refrescar as nossas mentes, no que toca a estes gestos tão automáticos, como o de focar-se na tristeza de uma desilusão, em vez de na alegria da redenção, ou o de focar-se na euforia e pressa de registar os momentos importantes, mais na máquina, do que na (boa e velha) memória.
    Isto é que verdadeiramente nos toca no dia-a-dia. Eu já fui muitas vezes este fotógrafo que atropela os momentos (deixando de olhar nos olhos) para conseguir registá-los e, assim partilhá-los com a família próxima…

    • Já alterei o título do artigo, como sugeriste! De facto, o importante aqui não é o fotógrafo em questão, mas todo o contexto que nós, cristãos, criamos e que torna possível cenas como estas. Mas ainda mais importante, é a forma como aceitamos o sofrimento e o unimos ao de Jesus. Bj

  9. Pilar Pereira

    Fiquei com os olhos húmidos ao ler este post…
    Boa reflexão.

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