Em Caná da Galileia...


O poder curativo do Tempo de Família

Há momentos da vida em que sentimos que batemos no fundo. A semana passada, de grande intensidade na escola onde leciono, foi um desses momentos.

Lá em casa, todos notam quando a minha vida profissional não corre bem: segundo o Niall, o meu olhar deixa de ter brilho e perco o sentido de humor – e se há coisas graves na vida de um casal feliz, é precisamente a perda do sentido de humor! Segundo os meninos, farto-me de ralhar sem razão. A Lúcia é o meu barómetro, porque ela não tolera um grito. “Pára de ralhar”, diz-me. “Mas eu não estava a ralhar, Lúcia”, respondo, bem consciente do esforço imenso que fizera para manter o tom de voz nos limites do razoável. “Estavas sim, que eu bem ouvi”, confirma ela, muito sentida. Não tenho como fugir!

“Bater no fundo” é uma graça de Deus, claro. Quando Ele permite que tal aconteça, é porque nos quer dizer alguma coisa importante, e ajudar-nos a mudar algum rumo na nossa vida. Por isso, quando sentimos que tudo corre mal na vida, ponhamo-nos à escuta, porque o Senhor quer falar. É assim que diz o Evangelho! Dando como exemplos as maiores desgraças que possamos imaginar, Jesus explica:

Quando virdes estas coisas acontecer, levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. (Lc 21, 28)

 

Entretanto, é preciso curar as feridas da família, causadas pela minha impaciência e pela minha tristeza. As Famílias de Caná têm um remédio de máxima eficácia na cura de qualquer ferida familiar. Chama-se “Tempo de Família”.

“Mãe, mãe, vamos à praia! Está tanto calor!” Os meninos batiam palmas e davam saltos de excitação. Sorri. Pareceu-me ver o Senhor a piscar-me o olho e a dizer-me: “Vês o dia lindo que te ofereço? Não vais querer aproveitá-lo com a tua família?”

A praia estava, de facto, maravilhosa. Nove da manhã, e o areal era todo nosso, enquanto o mar, manso e morno, chamava aos banhos e às brincadeiras. Pouco a pouco, a irritação e o cansaço acumulados no meu corpo foram cedendo aos carinhos e às gargalhadas da minha família.

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Quando, sábado à tarde, partimos para mais uma missão, transbordávamos alegria!

Mas havia mais… Domingo, depois da missa, a Lúcia e o António tinham uma sugestão a fazer:

“Mãe, vamos ao lago verde!”

O “lago verde” é o “nosso” refúgio na serra do Caramulo, nos dias quentes de verão.

“Ainda ontem fomos à praia, Lúcia. Os manos mais velhos têm de estudar! Não pode ser.”

A Lúcia baixou os olhos e afastou-se em silêncio. Eu decidi ir sondar os mais velhos, para verificar se realmente precisavam de estudar.

“Claro que queremos ir!” Foi a resposta unânime do Francisco e da Clarinha. Corri a dar a novidade à Lúcia.

“Eu sabia! Eu sabia!” Dizia ela, saltando de alegria. “Estive este tempo todo a pedir a Jesus para tu dizeres sim! E Jesus ouviu a minha oração! Agora vou ter de Lhe agradecer”, concluiu, correndo de novo para o fundo do jardim.

E lá fomos nós para o lago, carregados de toalhas e fatos de banho, coletes de natação, brinquedos de praia… e uma mala de testes para corrigir! Os meninos passaram a tarde a nadar, a brincar, a cantar e a tocar guitarra. O Francisco teve ocasião de se sentar ao volante do carro, para o Niall lhe dar umas primeiras instruções antes de se inscrever nas aulas de condução. Eu corrigi os meus testes contemplando as maravilhas da Criação e a alegria da minha família, à luz doce do outono.

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O Tempo de Família é um tempo de retiro espiritual familiar. O retiro implica silêncio, e o Tempo de Família, com todas as suas gargalhadas e palavras, é um tempo de silêncio, porque faz calar em nós o ruído do mundo. Quanto chocalhar de banalidades e de mundanidades na nossa vida! De vez em quando é preciso deixar os problemas do trabalho, deixar os ajuntamentos de pessoas, deixar a televisão, deixar as notícias do mundo, deixar o consumismo e os centros comerciais, e fazer a família encontrar-se consigo mesma no silêncio da sua partilha, das suas confidências e de muitas gargalhadas. Para nós, nada como um passeio pela natureza para o conseguir!

Quando precisamos realmente deste Tempo de Família – o único capaz de curar as nossas feridas, as nossas mágoas, as nossas mútuas acusações – nós não hesitamos em dizer “não” a todas as outras solicitações, desde compromissos profissionais, a festas de aniversário dos amigos, a visitas, a atividades na paróquia. Há apenas uma coisa mais importante: a Eucaristia, o Tempo de Família por excelência, porque nos insere no Tempo da Família de Deus.

É o Tempo de Família que, como uma ponte de luz, faz a ligação entre o Antigo e o Novo Testamentos, nos últimos versículos do último profeta, Malaquias.

E Ele converterá os corações dos pais aos filhos, e os dos filhos a seus pais. (Ml 4, 6)

Domingo ao fim da tarde regressámos do “lago verde” transbordantes de felicidade. E quase ao mesmo tempo, amigos muito queridos bateram à porta da nossa casa, vindos de longe para nos visitar. Que alegria! Abrimos a porta com confiança, sabendo que as nossas bilhas estavam de novo cheias, capazes de transbordar alegria e amizade. Conversámos, rimos, brincámos, partilhámos gargalhadas e confidências, e experimentámos a amizade do Senhor, que une entre si as Famílias de Caná dispersas pelo nosso país. Que forma tão bela de terminar um fim-de-semana de cura interior! Do Tempo de Família ao Tempo de Famílias…

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6 Comments

  1. Que alegria ver estes pedaços da vossa vida! Às vezes tenho a sensação de que as coisas más estão todas a passar aqui bem perto e no meu egoísmo fico a lamentar-me… e a cura aqui tão perto…
    No entanto não posso deixar de ver que é preciso uma coisa antes da cura acontecer: todos na família devem/querem dizer sim a esse tempo exclusivo de família e de Deus… e às vezes é difícil ver que nem todos numa família caminham na mesma direção.
    É preciso rezar muito pelas “nossas” famílias!
    Beijinhos do tamanho do vosso areal!

  2. Ah até eu respirei essa paz, senti esses raios de sol… as famílias precisam disso…natureza e uns dos outros… e Deus claro, no centro de tudo! Afinal basta -nos pouco para sermos felizes!

    beijos Teresa com saudadinhas

  3. Que inspiração, Teresa! Obrigada!

  4. Pilar Pereira

    “Sabedoria” foi o que me veio à cabeça quando li este maravilhoso post. Obrigada por esta partilha!

  5. Que bela partilha!!! Suspirei daqui do Brasil!
    Deus os abençoe!

    • Que alegria, chegarmos ao Brasil!!! Rezamos para que em breve tenhamos aí no outro lado do oceano belas Famílias de Caná!

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