Em Caná da Galileia...


O que o rei Saul, o pastorinho David e alguns educadores (não) têm em comum

Ora digam-me cá: as histórias dos dois livros de Samuel e dos dois livros de Reis, que a liturgia diária nos apresenta nos anos pares, também fazem furor aí em casa? Cá em casa, neste mês de janeiro, são a novela de cada dia. Ninguém quer perder um episódio! Na semana passada, a primeira leitura apresentou-nos o Rei Saul, já sem o favor de Deus, na posição mais vulnerável em que um homem pode estar: acocorado numa gruta, fazendo as suas necessidades. Este versículo é sempre ansiosamente esperado pela minha família, que não segura as gargalhadas. David, o pastorinho a quem Deus já prometera a coroa, tem a oportunidade de matar Saul, o inimigo, ali mesmo. Mas não o faz. Nunca pagaria o mal com o mal, explica depois David ao seu rei. E esta magnanimidade de David toca profundamente Saul, que se arrepende do seu pecado.

Já sem risos, conversamos sobre esta coisa de pagar o mal com o bem. A Sara, a brincar com legos no tapete no meio de nós, parece distraída. Mas não está.

“Mãe, um dia na escolinha um menino puxou-me os cabelos. Eu fui dizer à… (a senhora que vigia o recreio) E sabes o que ela me respondeu? Ela disse para eu lhe puxar também, a ver se ele gostava. Isso é pagar o mal com o mal, não é?”

Trocamos olhares em silêncio. Como explicar a uma criança de cinco anos que ela sabe mais do que um adulto? E que o adulto não fez por mal, embora tenha feito mal? Dou graças a Deus pelos nossos quarenta minutos diários de oração familiar, que nos permitem pautar a vida pelos critérios do Evangelho, dia após dia.

No Antigo Testamento, a Lei dizia:

Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe. (Ex 21, 23-25)

“Fazendo assim, andávamos todos desdentados e zarolhos!” Comentou o Francisco quando lhes li esta passagem. De facto, o mal não se corrige com o mal, antes se adensa. Só o bem é capaz de cortar a espiral do mal. Reagir com maldade às maldades que nos fazem é próprio dos fracos, que se deixam levar pelos seus impulsos naturais. Reagir à maldade com bondade imerecida só é possível aos fortes, àqueles que, tendo poder para fazer o mal, preferem o bem.

Se alguém te bater numa face, oferece-lhe a outra… (Mt 5, 39)

Dois mil anos de cristianismo ainda não foram suficientes para interiorizar esta nova doutrina de Jesus. A maior parte de nós ainda não chegou sequer ao ponto de a desejar para a sua vida, quanto mais de a praticar! A maior parte de nós ainda acha que há coisas que justificam arrancar os olhos e os dentes uns aos outros…

Se Deus fosse tão “justo” para connosco como nós somos para com quem nos faz mal, o que seria de nós?…

One Comment

  1. ❤️gostei muito, obrigada

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