Em Caná da Galileia...


Os movimentos na Igreja, a Igreja em movimento

Com frequência, escuto comentários de pessoas crentes e, geralmente, empenhadas nas suas paróquias: “Os Movimentos da Igreja são totalmente desnecessários!” “Quem me dera que não houvesse Movimentos!” “Parece que os Movimentos inventam o seu próprio Cristo!”

Geralmente, estes desabafos denunciam alguns pecados dos cristãos: pecados de divisão, de competição, de rivalidade, de superioridade. Quantas vezes nos apercebemos desta realidade! Isso não acontece, contudo, por culpa do Movimento, mas pelo pecado dos seus elementos. Talvez por não terem o acompanhamento espiritual necessário, os membros que assim se sentem separados dos irmãos estão simplesmente a contradizer o espírito de serviço e amor fraterno que o seu Movimento com toda a certeza deseja.

Mas se levantarmos os olhos e olharmos um pouco mais longe, para a vasta maioria dos cristãos desses mesmos Movimentos, veremos um esforço de serviço e de santidade muito superior ao pecado que todos, sem exceção, vamos cometendo. E sobretudo, uma dose enorme de alegria em Jesus.

Querer uma Igreja sem Movimentos é como querer uma Igreja sem ordens religiosas.  Imaginemos a Igreja sem carmelitas, salesianos, jesuítas, redentoristas, dominicanos, missionários de todo o tipo… Que seria da Igreja se ela fosse apenas hierárquica, e não carismática? No dia 14 de junho de 2016, a Santa Sé publicou uma Carta aos Bispos sobre a Relação entre os Dons Hierárquicos e Carismáticos para a Vida e a Missão da Igreja. Aí se diz:

João Paulo II, ao longo do seu Magistério, insistiu particularmente no princípio da co-essencialidade destes dons: «Repetidas vezes sublinhei que na Igreja não existe contraste nem contradição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática, da qual os Movimentos são uma expressão importante. Tanto uma como outra são co-essenciais na constituição divina da Igreja fundada por Jesus, uma vez que concorrem conjuntamente para tornar presente o mistério de Cristo e a sua obra salvífica no mundo»[30].(nº10)

E ainda:

Em síntese, a relação entre os dons carismáticos e a estrutura eclesial sacramental confirma a coessencialidade entre dons hierárquicos – de por si estáveis, permanentes e irrevocáveis – e dons carismáticos. Apesar destes últimos, nas suas formas históricas, não serem garantidos para sempre[52], a dimensão carismática nunca pode faltar à vida e à missão da Igreja. (nº13)

 

Olhemos agora para o universo… Deus podia ter criado uma só espécie de astros, uma só espécie de flores ou de animais, pessoas de uma só cor. Deus podia ter criado um mundo cinzento e um Espaço limitado. Mas não: a superabundância do amor divino manifesta-se num verdadeiro excesso da sua Criação.

Deus é um verdadeiro adepto da diversidade. E eu acho que sei porquê: nenhuma flor é capaz de transmitir, sozinha, as cores de Deus; nenhuma estrela é capaz de reproduzir, sozinha, o brilho de Deus; um só oceano não basta para nos falar da profundidade do amor de Deus, e um só pico montanhoso é insuficiente para nos cantar as alturas da sua grandeza. Finalmente, quando criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus multiplicou as cores de pele, dos olhos e do cabelo, as formas do rosto, as características psicológicas, os talentos, os dons, e até as limitações. Como seria triste o mundo se fôssemos todos brancos, ou todos pretos, ou todos de inteligência mediana! Como seria triste o mundo se só houvesse mar, ou só houvesse serra, se fosse sempre verão ou sempre inverno! Até para nos oferecer a sua Palavra, Deus escolheu quatro evangelistas diferentes, e a Bíblia, como sabemos, não é um só livro, mas uma verdadeira biblioteca. Na diversidade, Deus espelha o seu amor.

A Igreja sem Movimentos e sem ordens religiosas seria na mesma Igreja, mas empobrecida. E os diferentes atributos de Deus deixariam de ter trovadores à altura, pois cada ordem e cada Movimento exalta em particular uma característica divina. Alguns trabalham a unidade, outros a diversidade; alguns exprimem o silêncio divino, outros a Palavra divina; alguns procuram a quietude de Deus, outros a sua urgência missionária. Nenhum é completo em si mesmo, porque completo, só Deus. Mas porque é o mesmo Deus que neles opera com a sua graça, cada um deles desafia os cristãos que o compõem na totalidade da sua existência.

Será a ordem dominicana melhor que a carmelita? Serão as Missionárias da Caridade mais santas que as do Verbo Divino? Cada ordem religiosa tem a sua missão e a sua beleza próprias. Cada uma delas oferece um caminho de santidade. Podemos ser tão santos num Carmelo como numa missão na selva africana. Mas há uma coisa que não podemos: estar nos dois lugares ao mesmo tempo. Precisamos de escolher, a partir das nossas características pessoais e a partir da missão que o Senhor nos atribui. A isso chama-se vocação.

Com os Movimentos acontece a mesma coisa. Porque eles implicam a pessoa total e propõem um caminho específico de santidade, dificilmente estaremos de alma e coração em dois Movimentos ao mesmo tempo, embora ninguém nos proíba de o fazer. Podemos beber de várias fontes, mas comprometermo-nos a sério, será com uma. Coloca-se aqui também a questão da vocação, e antes de nos comprometermos, precisamos de a escutar no silêncio da oração.

Como diz a Carta atrás referida, o Espírito Santo não suscita, na Igreja, os Movimentos todos ao mesmo tempo. A cada época, Ele oferece os Movimentos que melhor respondem às necessidades da Igreja e do mundo. A nós, aqui e agora, e perante um mundo que quer destruir a família, o Espírito Santo oferece-nos as Famílias de Caná. E nós vamos responder-Lhe na Vigília do seu dia mais solene, o Pentecostes…

3 Comments

  1. Este post hoje foi para mim!

    Obrigado!

    Abraço

  2. Helena Le Blanc

    Ola Teresa
    Muito bom post/tema num momento em que a minha família reflete sobre “o compromisso”!
    Há tanta coisa mal esclarecida na Igreja… Tantos filhos de Deus que andam à deriva por causa disso!
    Obrigada Teresa!
    Que Deus nos abençoe a todos!

  3. Ines Miranda Santos

    Amen!
    E especialmente neste fim-de-semana peço que recordem a CVXp nas vossas orações. A CVXp estará reunida em Assembleia Nacional (www.an2017.org). Que não sejamos surdos ao Espírito, mas prontos e deligentes para aprender a “Cuidar e Enviar”.

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