Em Caná da Galileia...


Palavras, silêncio e a Palavra

Uma das coisas que mais me custou na estadia no hospital foi – não se riam – a televisão sempre ligada no quarto que partilhava com mais três pessoas. Para descansar a cabeça, dirigia-me ao refeitório, onde havia muitas mesas disponíveis e onde me fartei de trabalhar a este computador, escrevendo ensinamentos e artigos. Mas também no refeitório a televisão estava sempre, sempre ligada. Era preciso um esforço sobre-humano, especialmente numa situação de debilidade física como a minha, para me abstrair de todas as coisas que ali eram ditas. Jogos, novelas, notícias do mundo, informações que nada significam para a minha vida, tudo ali passava, de manhã à noite, num contínuo martelar dentro da minha cabeça cansada.

Lembro-me do sofrimento semelhante, contado pela minha irmã, quando o seu menino de cinco anos passou largos meses no hospital, a curar-se de um linfoma, partilhando o quarto com outros meninos. Também aí a televisão estava sempre ligada. A minha irmã queria brincar com o menino, contar-lhe histórias, fazer jogos, mas a televisão não o permitia. Chegou a apresentar queixa à direção do hospital, obtendo como resposta: “As pessoas têm direito a ver televisão.” Ao que ela respondeu: “E não terão as pessoas também direito a não ver televisão?”

A televisão tornou-se omnipresente na vida das famílias. Sei que, como bem disse uma leitora num comentário neste site, a minha família deve pertencer ao 1% de famílias portuguesas em que a televisão está desligada a maior parte do tempo, ligando-se sem fundamentalismos quando pretendemos ver alguma coisa em concreto. De resto, não a utilizamos para ter ruído de fundo em nossa casa, ou para sermos vagamente informados e entretidos com as histórias e as notícias que os outros acham que nos interessam.

Assim, no hospital sofri um verdadeiro ataque televisivo, com novela atrás de novela, história atrás de história, concurso atrás de concurso. Quando, a dada altura, o Luís Goucha disse que ia contar histórias de crianças mortas às mãos dos seus pais, atingi o ponto limite. Mesmo sem força, saí da cama e pedi licença para ir à capela.

Ah, que bem que me soube o silêncio da capela vazia! Sobre o ambão, estava finalmente uma Palavra que valia a pena escutar: a Palavra de Deus. Li-a, meditei-a, ajoelhei-me no chão frio e agradeci a Deus o dom da sua Palavra.

Agora estou em casa. Em vez da televisão, estou rodeada dos sons fantásticos de risos, conversas, alguns choros e alguns gritos, muitas gargalhadas e muita alegria. Mas estou com um problema que nunca pensei me afetasse tanto: não consigo participar nesta barulheira animada, porque não me sai qualquer som da garganta! Sei que as cordas vocais estão a funcionar, porque logo depois da operação consegui falar alguma coisa, mas neste momento, estou totalmente afónica. E custa tanto, este silêncio! Só agora me dou conta da quantidade de coisas que quero dizer ao longo do dia. Sem voz, não consigo responder às piadas sempre prontas do Francisco e do Niall, não consigo juntar-me à Clarinha, que canta a várias vozes o dia inteiro pela casa, não consigo ralhar ao António que bateu no David, nem contar histórias aos pequeninos que vêm ter comigo de livros na mão, suplicantes. Resta-me fazer lego silenciosamente no chão da sala.

O Francisco sugeriu-me, com um piscar de olho, que aprendesse código Morse e que usasse o conversor de Morse que ele mesmo programou no seu computador. Mas eu prefiro andar pela casa com um sininho. Quando quero falar, toco o sino e todos se calam, apurando os ouvidos. Murmuro as palavras que quero dizer, quase sem som, e à minha volta faz-se silêncio total. Só no silêncio me podem escutar! Sorrio, contente com a atenção.

Palavras. Silêncios. Vale a pena meditar um bocadinho em todo este assunto…

Porque o Senhor, nosso Pai, quer falar connosco e nós não O ouvimos, tão barulhentos estamos no nosso dia cheio de sons, informações, palavras…

O Senhor disse então: «Sai e mantém-te neste monte, na presença do Senhor. Eis que o Senhor vai passar.» Nesse momento, passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do senhor; mas o Senhor não se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. Passou um tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto com um manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna.” (1Rs 19, 11-13)

 

 

2 Comments

  1. Pilar Pereira

    Realmente, se nem os outros ouvimos quando não nos calamos, não podemos ouvir o Senhor se estamos rodeados de barulho, muito dele feito por nós! O “silêncio é de ouro” porque é nele que melhor escutamos Quem mais nos ama…

  2. rápidas melhoras e bons silêncios :)).

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