Em Caná da Galileia...


Part-time, finalmente!

Há anos que eu invejo – no bom sentido – as minhas cunhadas irlandesas e todas as suas vizinhas e amigas. Eu explico: elas são quase todas mães trabalhadoras, mas são também quase todas mães trabalhadoras em part-time.

Renunciar a exercer uma profissão para cuidar da família é a vocação de algumas mães, e geralmente uma vocação temporária, quando os filhos são pequeninos. Conheço grandes mães que estão em casa a tempo inteiro e fazem um trabalho magnífico! Mas nos dias de hoje, a maioria de nós exerce uma profissão, geralmente porque precisa. E nada há de errado nisso, pois a nossa profissão pode ser a nossa forma de servir os irmãos.  Foi o caso de Santa Gianna Molla, que exerceu Medicina até à morte, apesar dos pedidos delicados do marido para que deixasse a sua profissão e se dedicasse inteiramente ao cuidado dos três filhos pequeninos; é o caso de uma grande amiga minha, que mesmo com nove filhos, não renuncia a ser enfermeira a tempo parcial num lar de idosos, porque como ela diz, os idosos precisam do seu carinho cristão e dos terços da Divina Misericórdia que ela reza continuamente à cabeceira dos que vão partindo.

Mas entre exercer uma profissão como extensão da sua vocação maternal, e não ter tempo para ser mãe por causa da sua profissão, vai uma grande distância. E no nosso país, são cada vez mais numerosas as mães que delegam quase em absoluto às escolas e aos ATLs a educação dos seus filhos. Nas várias reuniões de pais a que fui, neste início do ano, apercebi-me da enorme necessidade que a escola sente de esticar o seu horário até ao limite, e a enorme pressão que os pais fazem sobre a escola para que estique e estique e estique.

Há uma outra “instituição” que estica e estica, permitindo às mães portuguesas manter os seus empregos a tempo inteiro: chama-se “Avós”. No nosso país, são frequentes os avós que assumem o papel, não de avós, mas de pais. Conheço vários. Vão levar os netos à escola, vão buscá-los, dão-lhes o lanche e fazem o jantar, para os pais levarem para casa quando vão recolher os filhos. Temos “super-avós”, mas será que estamos a gerar “super-pais”? O Niall, que na sua tradição irlandesa tem uma experiência totalmente diferente, costuma dizer: “Se em Portugal um dia os avós decidissem fazer greve, o país ia abaixo.”

Parece-me a mim então que a pressão está a ser feita sobre as pessoas e instituições erradas: pressionamos a escola, pressionamos os ATLs, pressionamos os avós. E os empregadores? E o governo? Porque dependemos demasiado da escola e dos avós, não exercemos a pressão suficiente sobre os nossos chefes. Se não tivéssemos onde deixar os nossos filhos depois da escola – como acontece, por exemplo, na Irlanda, que desconhece a nossa ampla rede de ATLs – seríamos obrigadas a trabalhar menos, e teria de haver uma solução para isso.

Graças a Deus, num país onde são promulgadas tantas leis contra a família, surgiu ainda com o anterior governo uma lei a favor, ainda que pequenina:  a Lei nº 84 de 2015. Esta lei aprova como modalidade de trabalho na função pública a meia-jornada, sem o trabalhador perder nenhum direito e com 60% de remuneração. A lei aplica-se a todos os trabalhadores da função pública com filhos  (ou netos… lá está…) menores de doze anos ou, independentemente da idade, com filhos com deficiência ou doença crónica. Se aqui a divulgo, é porque sei que ela não foi suficientemente divulgada. Há certamente muitas trabalhadoras da função pública que, embora precisando de trabalhar, podem viver e educar os filhos com vantagem com menos 40% de ordenado, fazendo alguns cortes e algumas escolhas.

E foi essa lei que eu decidi aproveitar este ano, e que tenciono aproveitar até a Sara fazer doze anos. Agora, pela primeira vez na minha vida de mãe, “a melhor parte” é também “a maior parte” do meu dia. Posso levar os meus filhos à escola às nove horas e recolhê-los às três e meia, antes do lanche.

Quando voltar à Irlanda, se Deus quiser, e me perguntarem sobre a minha profissão, poderei responder com orgulho: “I am a part-time English teacher”. Enquanto preparo o lanche dos meus filhos, enquanto corro de uns para os outros para ajudar nos trabalhos de casa, para apertar um par de patins, para ensinar a subir à árvore em segurança ou para contar uma história no sofá, eu experimento uma profunda sensação de realização pessoal. Agora sinto que, apesar de trabalhar fora de casa e de adorar fazê-lo, a maior e melhor parte do meu dia é passada com os meus filhos. Porque acima de tudo, primeiro que tudo, e mais importante que tudo, eu sou mãe. Professores, os meus alunos terão muitos; bons trabalhadores, os meus chefes terão muitos; mas mãe, os meus filhos só têm uma…

6 Comments

  1. Fico contente com a tua nova situação, Teresa. 🙂 Mas sabes, poderes levar os teus filhos às nove e ires buscá-los às três e meia da tarde não é só porque estás em part-time – é também porque estás em part-time numa escola ou agrupamento que entende o verdadeiro sentido do part-time. Há sítios em que as horas e o ordenado são reduzidos, sim, mas o horário está muito mal distribuído pela semana…
    Quando regressar ao trabalho, gostaria que fosse em part-time, mas com uma boa distribuição das aulas pela semana! “I too want to be a part-time English teacher!” 😀

    • Temos uma grande luta pela frente, Pilar, na mudança de mentalidades neste nosso país! Começa por cada uma de nós, não é verdade? Se tu fizeres um pouquinho de pressão, e eu também, para ter um horário verdadeiramente part-time, e não dois dias de aulas das oito às seis, então já somos duas a fazer pressão. Se mais alguém fizer, já somos três. E um dia destes, o que era estranho entranha…

  2. E assino por baixo! 🙂

  3. A função pública tens estes benefícios, quem me dera que o privado também os tivesse porque de certeza aproveitava. Digo-vos que por estar a amamentar a minha filha quiseram tirar-me 3 dias de majoração de férias, é uma luta constante em ser mãe e trabalhadora, quando há promoções na careira ou determinadas vagas de chefia é difícil escolher uma mulher que coloca ser mãe em primeiro lugar.
    Obrigada por este post, precisava de o ler. Ás vezes penso que sou só eu que sou diferente.

    • É realmente um problema a reação das chefias quando se coloca a maternidade em primeiro lugar. Principalmente porque quem ocupa esses cargos de chefia foi escolhido precisamente porque deu prioridade à vida profissional face à vida familiar, e por isso não entende as posições dos outros.

  4. Penso que não é por desconhecimento que as pessoas não usufruem dessa lei, mas sim porque o salário não o permite. Sendo funcionária pública, assim que vi a publicação da lei também pensei em trabalhar em part-time e ter mais tempo para as minhas filhas. Mas estando a criar as minhas filhas sozinha, com a redução ficaria com cerca de 400€/mensais, que não chega para as despesas.
    Penso que esta é a grande realidade do nosso país, mesmo que a lei fosse extensível ao setor privado poucas seriam as pessoas que poderiam usufruir dela, tendo em conta os salários atuais. A média de salários da Função publica não é o que apregoa a comunicação social, grande parte dos trabalhadores recebe o salário mínimo ou pouco mais.

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