Em Caná da Galileia...


Partidas e chegadas, estrelas e relâmpagos

No sábado de manhã, o Francisco e a Clarinha partiram para Taizé. Há muito que sonhavam fazer esta viagem, e depois de esperarem, em vão, por uma compatibilidade de datas com as peregrinações da diocese e de outros grupos jovens, decidiram ir sozinhos. A eles juntaram-se duas amigas, e lá foram felizes, num autocarro cheio de jovens portugueses.

Parece que já lá chegaram, a julgar pelas fotos enviadas por whatsapp domingo ao fim da tarde:

Durante uma semana, irão rezar, conhecer outros jovens, partilhar, meditar a Palavra. Taizé marcou profundamente a minha juventude e a do Niall, e certamente fará o mesmo com os nossos filhos.

De repente, sábado de manhã a casa ficou vazia. “Só” cinco filhos à volta da mesa! Que silêncio! E pensar que ficaram os cinco mais barulhentos e que exigem mais cuidados! Como é possível os dois mais velhos fazerem tanta falta?

Mas o sossego não demorou muito: menos de duas horas depois, a casa voltava a encher-se, desta vez com os três priminhos catalães. Vieram, como todos os verões, passar quinze dias de férias em Portugal, e três ou quatro destes dias são sempre aqui em casa. Estes dias e os dias do Acampamento de Caná são os mais ansiados pelos nossos filhos mais novos, durante todo o ano.

Ainda os mais velhos iam no autocarro a caminho de Taizé, e já os mais novos montavam tendas no jardim.

Quanta animação! Brincadeira, passeios de bicicleta, jogos de escondidas um pouco por toda a rua, aventuras em Náturia (o “nosso” descampado), conversas secretas nas tendas com a chuva a cair, ceias à meia-noite, cabeças a espreitar fora das tendas para ver as estrelas… Oito crianças com menos de doze anos em casa, e só uma dorme cá dentro – adivinhem qual 🙂

Antes de partirem para Taizé, pedi aos meus filhos que dessem um abraço meu ao Irmão David, único irmão português nesta comunidade ecuménica de uma centena de irmãos. Na sua adolescência e juventude, o David participava, como eu, dos Convívios-Fraternos da diocese de Portalegre e Castelo Branco. Cruzámo-nos várias vezes nos convívios, como animadores. O grupo de Portalegre, que o David frequentava, ia todos os anos a Taizé; o de Castelo Branco, onde eu vivia a minha fé, ia algumas vezes. Um dia, o David foi, como costume, mas já não voltou. E por lá continua, feliz.

A vida, como o verão, é feita de partidas e chegadas. E é feita de tendas, que nos recordam que estamos aqui de passagem, uma passagem muito, muito mais breve do que imaginamos…

Quem está acostumado a rezar o Terço todos os dias, está também acostumado a contemplar a vida a partir do seu mistério. Reza-se mistério a mistério, vive-se mistério a mistério, e pouco entendemos do que nos vai sucedendo, da forma como Deus vai conduzindo a nossa jangada sobre as águas rebeldes.

Muitos de nós temos medo de partir e de deixar partir, instalados que estamos na vida a que nos habituámos. Como é difícil para muitos, decidir-se por uma vocação, deixar a casa paterna atrás do amor esponsal, escolher caminhar num Movimento da Igreja, mudar de terra ou de emprego, ou simplesmente permitir-se converter o seu coração! O medo impede-nos, assim, de nos adentrarmos no mistério. Mas é só no mistério que encontramos o Senhor, como Moisés descobriu ao aproximar-se da Sarça Ardente.

Penso no Irmão David, na sua ousadia em abandonar um curso universitário a meio para assumir a sua vocação. Penso no Francisco e na Clarinha, na sua determinação em partir para Taizé, mesmo sem um grupo organizado, jovens adultos capazes de tomar a vida nas mãos. É esta a liberdade dos filhos de Deus de que nos fala S. Paulo (Gl 5, 1) a liberdade interior de quem não se sente aprisionado a este mundo, nem ao “sempre se fez assim”…

Ontem à noite, antes das estrelas, foram os relâmpagos a iluminar o céu. Que maravilha! Nenhum fogo-de-artifício se lhes compara. Como um fósforo a raspar, os relâmpagos pareciam flechas luminosas. Ou flashes de máquinas fotográficas, como os pequeninos descobriram. “Os anjinhos devem estar todos a tirar fotografias, mãe! Quando chegar ao céu quero vê-las”, brincava a Lúcia. Alinhados no jardim, cabeças lançadas para trás, os meninos contemplavam o céu, extasiados. Apenas a Sara me segurava a mão com força.

Contemplar as estrelas e os relâmpagos é privilégio de quem não tem medo da noite, de quem ousa viver em tendas mesmo que chova, de quem não se barrica por detrás de estores corridos ou de muros altos.

A felicidade, parece-me a mim, é privilégio de quem não tem medo de partidas e de chegadas…

 

 

13 Comments

  1. Que maravilha… Ao mesmo tempo constato o tão longe que ainda estou dessa felicidade. Retive esta parte que me tocou especialmente:
    “Muitos de nós temos medo de partir e de deixar partir, instalados que estamos na vida a que nos habituámos”
    Peço ao Senhor que me ajude a não ficar instalado nesta vida a que me habituei e a encarar com certeza e confiança o mistério dos Seus desígnios.
    Bem-haja Teresa pela sua partilha.

  2. Vera Rodrigues

    Obrigada pela partilha!
    A Felicidade é mesmo um privilégio para quem não tem medo! De partidas, de chegadas, do Amor e de perdoar quando preciso!

  3. Estive em Taizé há uns anos, com o meu grupo de escuteiros. Foi indescritível o que senti ali, sentada no chão a rezar em tantas línguas. Que bom que o Francisco e a Clarinha possam ter essa experiência! Um beijinho para todos!

  4. Catarina Silva

    E passou pela cabeça da Teresa, ainda que ao de leve, deixar de escrever!!!
    Como é que eu ia viver sem estes belíssimos textos!? Poderia viver, sim, mas certamente, muito menos feliz!
    Querida Teresa, li num texto seu que só saberíamos quem tinha rezado por nós quando chegássemos ao céu….Por isso também eu lhe digo: Não fique triste com o nosso fraco feedback, nem com a nossa fraca adesão aos retiros. Pois apesar de ser motivo para sentir alguma tristeza e desalento, se olharmos aos corações que toca com esse dom que Deus lhe deu, essa tristeza passa logo a alegria!
    Teresa, não desanime, pois só vai saber verdadeiramente quantas almas converteu quando chegar ao céu! E eu desconfio que são muitas! 🙂
    Um abraço e obrigada por mais um lindo texto!

  5. Que alegria, os vossos comentários! Assim vale a pena escrever 🙂 Bem-hajam!

  6. Natércia Fernandes

    Olá, Teresa😊

    Obrigada pela partilha e reflexão, quem ganha somos nós.🌸
    É verdade, o medo paralisa-nos e faz-nos criar raízes no sítio errado, deixar de tomar as decisões certas, de não fazer a vontade de Deus. Se Deus é amor e Nele não há temor, talvez estejamos a precisar de levar uma injeção do amor de Deus para que o medo desapareça e sejamos livres. 😄

    O mundo é mesmo pequeno! Há uns anos cruzei-me com o irmão David em Lausanne, numa noite de oração, com o grupo de jovens onde andava.

    Fiquem todos com Deus! Abraços de Zurique🤗

  7. Obrigada Teresa por essa oração na vida quotidiana!
    Não ter medo das partidas e chegadas, e do caminho feito entre umas e outras! É verdade…não temer a verdadeira felicidade! Que bom foi rezar isso na minha vida… durante o dia de hoje!
    “Dizer que temos fé, sem sair do nosso barco, é como dizer que sabemos mergulhar, sem saltar da nossa margem. Se queremos experimentar a verdadeira alegria, precisamos de arriscar. Então descobrimos que, com a nossa mão na mão de Jesus, caminhamos sobre as águas…” dizia a Teresa numa partilha há 2 anos.
    Conheci “Taizé” no encontro ibérico no Porto…as fontes da alegria!!! Que maravilha!!!

  8. Susana Machado

    Que partilha maravilhosa, quanto tenho a minha filha que no próximo Domingo parte também para Taizé, mas no caso dela vai num grupo organizado, pois pensávamos que só assim era possível!!! Como é que a Clarinha e o Francisco organizaram a sua ida individual? Será que a Teresa nos pode orientar?

    Beijinhos

    Susana Machado

  9. Que linda partilha! É verdade… é essa confiança, essa fé que devemos pedir a Deus para todos nós!! Para partir e (sobretudo) deixar partir…
    Estive em Taizé várias vezes quando era mais nova… na altura, para além do irmão David, também estava lá outro irmão português… Acho que se chamava João… Há dois anos que ando a tentar convencer o meu marido a irmos lá em família! 😉
    Beijinhos!

  10. Susana Machado

    Obrigada Natália, pela informação.

    Beijinhos

  11. Susana Machado

    Olá Natália desculpa voltar a incomodar mas será que me sabes dizer por quanto valor fica a viagem de autocarro para Taizé e de onde partem? Ou então diz-me p.f. onde posso obter todas estas informações.
    Obrigada

    Susana

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