Em Caná da Galileia...


Pedras

Acordei cedo, esta manhã, com os sons excitados dos mais novos na cozinha. “Estão a preparar o teu aniversário”, disse-me o Niall, levantando-se. “Fica mais um bocadinho, que eu vou ver se está tudo pronto. Eles estão felicíssimos.”

Alguns minutos mais tarde, tive permissão para entrar na cozinha. A Sara e o António saltaram-me para o colo. “Parabéns, mamã!” Exclamaram. Depois conduziram-me à mesa. “Gostas?” Perguntaram.

A mesa fora posta com esmero: oito canecas, um prato para a papa do Daniel, o chocolate em pó, o talher necessário. Ao centro, uma jarra cheia de flores frescas, brancas e belas, acabadas de cortar no jardim. “As tuas preferidas!” Dizia-me a Sara. E entre as flores e as canecas… pedras.

“Gostas, mãe?” Os meninos não conseguiam controlar a excitação. “Outro dia, quando tu tomavas conta do Daniel, no rio, nós apanhámos as pedras mais bonitas do mundo e escondêmo-las. Depois trouxemo-las para casa num dia em que fomos sozinhos… Diz lá se não são lindas!”

Olhei. São, de facto, pedras magníficas. Eu diria, pedras preciosas. Peguei nelas, uma a uma, enquanto a Sara e o António mas descreviam com carinho: “Vês, esta parece as falésias da Irlanda. Dá para imaginar o mar ali em baixo, e aqui são as rochas de onde os manos saltavam para a água… Aquela é um trono. Vês? Se fôssemos pequeninos, seria giro sentarmo-nos ali!”

“Era mesmo o presente que tu querias, não era, mãe? Estas pedras? São tão, mas tão lindas!”

As do António estavam dentro de uma garrafa de plástico cheia de água. Assim, explicou ele, conservavam as cores vivas que a água corrente do riacho lhes conferia. De facto, assim era: brilhantes, arredondadas, bonitas. Tão bonitas.

Pedras preciosas, oferecidas com uma ternura preciosa.

Haverá presente melhor?

Estes dias não têm sido fáceis para mim. Ando cansada do tele-tudo, com saudades da escola a sério, com alunos a sério, aqueles que nos dão um abraço e um sorriso de vez em quando e cheiram a suor depois de um intervalo intenso atrás da bola. Tenho saudades da escola dos meus filhos, onde são os professores a ensinar-lhes as matérias, deixando para mim uma supervisão distante, sem a intensidade excessiva destes dias. Tenho saudades da vida da paróquia, dos encontros sem a mediação das máscaras nem da internet, das entradas e saídas livres na igreja, da conversa com os amigos no final da missa, no átrio agora encerrado, enquanto os meninos jogavam à bola. Tenho muitas saudades do Cantinho de Caná, que agora ainda nos está vedado. Tenho muitas saudades dos encontros das Famílias de Caná, dos nossos risos barulhentos, dos nossos piqueniques intensos.

E tenho feridas. Muitas. Que doem e sangram.

Às vezes, sozinha, permito-me chorar um pouco. Só um pouco. Depois contemplo o milagre da minha família e da felicidade que partilhamos, e sabe bem.

Mas hoje, ao acordar para os meus 48 anos, dei-me conta da minha ingratidão. Quando os meus filhos, transbordando alegria e ternura, me oferecem pedras – pedras simples do leito de um humilde regato – aceito-as com o mesmo entusiasmo com que aceitaria diamantes, rubi ou esmeraldas. Porque é que, quando é o Senhor a oferecer-me dificuldades, desilusões e sofrimentos, não os aceito com o mesmo entusiasmo com que aceitaria elogios, sucessos e palavras simpáticas? Não serão as pedras que o Senhor me dá, pedras preciosas, sempre? Como dizia o santo Job:

Se aceitamos os bens das mãos do Senhor, não aceitaremos também os males? (Jb 2, 10)

Pedras. A beleza está nos olhos de quem a vê. E a paz, no coração de quem diz “sim” a tudo o que o Senhor pede ou oferece.

E eu aqui, com alguns “nãos” prontos a sair! Por onde tem andado a minha fidelidade?

Nunca recebi presente mais belo. Obrigada, António e Sara!

 

 

10 Comments

  1. Catarina Silva

    Parabéns querida Teresa! É de facto um lindo presente!
    Coragem! E que essas feridas sarem depressa, ou que pelo menos deixem de doer e sangrar!
    Beijinho

  2. Joana Morais da Rocha

    Obrigada por este post cheio de santidade e de pecado. Obrigada pela sua santidade e pela sua humanidade. Obrigada, Senhor, pela vida da Teresa e por tê-la de alguma forma no meu caminho.

    Parabéns!

    Abraço

  3. Querida Teresa!

    que belas pedras… que meninos tão encantadores!!! Bálsamo maior de todas as feridas!
    Ainda bem que chora… assim poderá rir com a leveza da dor superada! Eu acredito que as lágrimas são dom de superação…
    Isto são apenas mais uns meses e em breve os panos cairão e ser e estar voltarão a confundir-se!
    Um beijinho muito grande

  4. Andreia Ribeiro

    Sou nova por aqui, mas tenho aprendido tanto com o vosso exemplo que não queria deixar de a felicitar e desejar muitas felicidades e muitos anos de vida junto da sua linda família e amigos! Ah, e enquanto lia o post lembrei-me logo das Bem aventuranças: “bem aventurados os que choram porque serão consolados “(é assim?)

    • É assim mesmo, Andreia 😉 Bem vinda, sempre! Nós por aqui gostamos que os encontros virtuais se tornem sempre, sempre reais. Quem sabe, depois da pandemia, nos possamos encontrar num retiro de famílias? Um abraço, e obrigada!

  5. Rogério Tavares Ribeiro

    Feliz Aniversário Teresa e que a vida vos sorria sempre!

  6. Feliz aniversário, Teresa!

  7. Manuela França

    Parabéns Teresa! Que texto bonito, que lindo presente de aniversário que deixa aos leitores 😊
    Nós Jesus, não é assim sempre?
    Manuela

  8. Muitos parabéns, Teresa! Fiquei maravilhada com esta atitude tão bela dos seus filhos e de como viveu esse presente. Dar é também saber receber!
    É sempre bom passar por aqui! Não costumo comentar muitas vezes, peço desculpa! Recebo tanto e nem agradeço! Às vezes é por ler numa corridinha sem ter tempo de parar, outras é porque o que escreve ainda fica a fazer eco… Agora, antes de adormecer, já tinha tratado de tudo, lido e confirmado todos os assuntos e senti uma secura.. Pensei:”preciso de beber água fresca!” E que boa água aqui vim beber! Muito obrigada e muitos Parabéns! Que Deus vos abençoe sempre!
    Espero que as dificuldades passem rápido, mas deem muitos frutos!

  9. Olga Mateus Lopes Fonseca

    Parabéns, Teresa! A beleza está na simplicidade…sobretudo quando tudo está envolto em amor! É um exemplo para todas nós! Mulher dotada e especial! Um grande beijinho para si e para todos os seus filhos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *