Em Caná da Galileia...


Peregrinação Nacional Jubilar das Crianças a Fátima

10 de junho de 2017. E o Santuário de Fátima encheu-se de cor, de luz, de balões, de crianças.

Pela primeira vez, a nossa paróquia juntou-se a esta grande peregrinação nacional, graças sobretudo ao empenho e ao entusiasmo da querida família Silva Teles, Família de Caná sempre pronta a arregaçar as mangas para levar todos a Jesus. Como é bom encontrar as Famílias de Caná a dar tudo, e a dar até doer, num dos serviços mais exigentes – porque com menos retorno – da vida de uma paróquia, como é a catequese!

Não é fácil ir a Fátima com um autocarro cheio de crianças a nossa cargo. Não é fácil ajudá-las a suportar o calor, o cansaço, as celebrações longas, as caminhadas lentas entre uma atividade e outra, as contagens constantes, as filas para as casas de banho… “Que seca!” “Isto demora muito?” “Posso jogar no meu tablet durante a missa?” Estamos demasiado acostumados a facilitar a vida aos mais novos e oferecemos-lhes poucas ocasiões para enfrentarem algum cansaço e algum desconforto. Não se reza apenas quando apetece, quando nos sentimos bem, quando há uma sombra. A Jacinta, a Lúcia e o Francisco também aprenderam a gerir o seu cansaço, a enfrentar as multidões, a deixar a brincadeira de lado quando se tratava de rezar, e nós queremos que estes meninos façam a mesma caminhada de santidade. Sonhamos alto? Sim, sonhamos alto. Alguém tem de sonhar alto, não é verdade?

No final da Eucaristia, as crianças vibraram com os Parabéns a Você cantados à Senhora do Rosário, acompanhados de uma largada  de balões brancos. Depois, cada uma das quarenta mil crianças no recinto recebeu uma linda azinheira para plantar no seu jardim. O entusiasmo foi aumentando, e o Santuário transformou-se num mar de bonés coloridos que acenavam a Nossa Senhora, numa versão infantil do Adeus a Fátima. Os olhos de alguns de nós encheram-se de lágrimas mais do que uma vez…

“Hoje Jesus vai ter muitos balões para brincar, mamã!”

“Como assim, António?”

“Então, não vês? Estão quase, quase a entrar no céu!”

A hora do piquenique é sempre a hora perfeita para dissipar o cansaço e reatar os laços que nos unem. O dia 10 não foi exceção! Algumas crianças foram almoçar com os pais, que as acompanharam seguindo nos seus carros particulares. Outras ficaram com os catequistas. A confusão era muita, o espaço apertado para tanta gente, o tempo curto. Onde podíamos nós fazer um piquenique inspirador? Enquanto recolhíamos as merendas da bagageira do autocarro, ocorreu-me uma ideia tão divertida quanto ousada: pedi ao condutor o favor de abrir as portas das bagageiras por completo, sentámos as crianças lá dentro, à sombra fresquinha com o ar a circular por todos os lados, e ali mesmo abrimos as nossas merendas, para partilharmos uns com os outros o que tínhamos trazido. Como soube bem comer assim! Quando à noite, já em casa, os quatro pequenos Power fizeram a sua oração de ação de graças, foram unânimes: “Jesus, obrigada pelo piquenique, que foi o melhor da nossa vida!” De facto, não é preciso muito para contentar uma criança! Aprendamos com elas a descomplicar.

Depois do almoço, bem instalados na Basílica da Santíssima Trindade, assistimos a uma belíssima peça de teatro, feita pelo Colégio de S. Miguel, colégio  católico com contrato de associação, em Fátima. O sol bailou ali também, através da arte e do empenho dos alunos. Dei comigo, interiormente, a pedir ao Senhor que salve as suas escolas católicas, que as mantenha abertas a todos e não só aos que podem pagar, porque o trabalho que nelas se faz é mesmo muito bom…

“Agora vamos entrar no autocarro e as crianças vão adormecer de imediato”, comentava alguém. Qual quê! Na viagem de regresso, todos riam e conversavam, e várias crianças pediram para cantarmos, fazendo-me tocar, à guitarra, cântico após cântico. “Vamos rezar novo Terço?” Propôs o João. Vamos a isso! Já tínhamos rezado um Terço na viagem até Fátima, por que não rezar outro na viagem de regresso? Talvez as crianças adormeçam, finalmente, ao som da Avé-Maria. Mas o que é isto? Uma criança pede para conduzir um Mistério do Terço, outra já está na fila para conduzir o segundo, e ali atrás há ainda uma menina a pedir para conduzir o terceiro… Se a primeira se engana nas palavras da Avé-Maria, a segunda já as sabe de cor, e os últimos meninos a orientar um Mistério até conhecem as invocações finais.

Cansaço? Barulho? Confusão? Quando num autocarro, no regresso de uma peregrinação, várias crianças pedem para não pararmos de cantar, e se oferecem para conduzir os Mistérios do Terço, que mais podemos nós fazer do que dar graças a Deus e a Nossa Senhora do Rosário?

Como as Famílias de Caná, também as centenas de catequistas que povoaram o Santuário de Fátima neste dia 10 de junho conhecem e dão cumprimento ao pedido de Jesus:

Deixai vir a Mim as criancinhas, não as impeçais, porque é delas o Reino dos Céus. (Mt 19, 14)

E é só isto que nos é pedido. Mesmo que custe um bocadinho. Mesmo com cansaço e no meio de muita confusão. Mesmo com os erros e com as fragilidades que fazem de nós humanos. Mesmo que, por vezes, nos sintamos desiludidos ou tentados a desistir. O resto é trabalho d’Ele…

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