Em Caná da Galileia...


Pobres de espírito

Hoje de manhã fomos à praia. Foi uma daquelas manhãs misteriosas, envoltas em neblina e tocadas pelo dedo de Deus, em que os meus filhos saltaram, correram, brincaram e mergulharam, disfrutando do areal inteiro, agradecidos pelo dom do céu, do mar e da areia que, para nós, é sempre perfeito. Depois, pelo meio dia, foi preciso regressar, fazendo de carro o trajeto de 30 quilómetros que nos separam do mar.

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E foi durante a viagem de regresso que nos foi oferecida uma oportunidade de meditação: num cruzamento, dois carros parados, o triângulo a avisar que algo se passava, e duas pessoas aos gritos, com os coletes refletores vestidos. Abrandei, sem parar; e porque tínhamos a janela aberta, e porque as pessoas gritavam realmente muito alto, pudemos perceber o que se passava: um dos carros tinha batido ao de leve no outro, e apesar de não se notar qualquer risco, o dono do carro insistia em chamar a polícia. A condutora do carro que batera gesticulava e gritava, num português com sotaque, procurando fazer o seu interlocutor entender que nada de grave se passara e não havia qualquer necessidade de ficar ali eternamente parados. “É só um bocadinho de sujo!” Gritava ela, desesperada. Debruçando-se pela janela, a Clarinha, que viajava a meu lado, confirmou a inexistência de qualquer dano. Depois riu-se: “E tu com o teu carro todo riscado!” De facto, nas férias da montanha raspei com o nosso monovolume numa parede de granito, para evitar o precipício do outro lado. O carro ficou bastante magoado, e eu perdi a vontade de conduzir na serra…

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Seguimos o nosso caminho. Rezei rapidamente uma Avé-Maria por aquelas duas pessoas, e a sua história serviu-me de meditação sobre o que é isto de pobreza espiritual. Esta pobreza é tão importante, que Jesus a proclamou como primeira fonte de bem-aventurança:

Bem-aventurados os pobres que o são no seu íntimo, porque é deles o Reino dos Céus. (Mt 5, 3)

Para ser pobre de espírito não basta não ter dinheiro em excesso. É preciso ser agradecido por tudo o que nos é dado, seja uma praia com sol, seja uma praia com chuva. E é preciso também não ter nenhum apego. E isto, sim, isto é o mais difícil. Um pequeno toque no nosso carro, um risco minúsculo, e logo nos descobrimos ricos, sofregamente ricos de nada e de coisa nenhuma.

Depois vem um terramoto, como o que abalou Itália há dois dias, e percebemos que afinal não possuímos nada a sério, pois tudo – casa, bens, família ou amigos – nos pode ser tirado de um momento para o outro, durante o próprio sono, sem que possamos fazer valer qualquer pretenso direito. O que daríamos para ter de volta a nossa família problemática, a nossa praia ventosa, o nosso carro riscado! Abrimos então as Escrituras e encontramos o que é, verdadeiramente, ser pobre em espírito:

Saí nu do ventre da minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Bendito seja o nome do Senhor! (Jb 1, 21)

Uma pobreza assim só pode mesmo ser a fonte da felicidade…

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