Em Caná da Galileia...


Quando fazes a amniocentese?

Esta pergunta a uma grávida de 46 anos é tão frequente, que merece aqui algum destaque. A minha resposta, naturalmente, é que não faço amniocentese. Então surge a surpresa: “Mas não é obrigatória na tua idade?”

A amniocentese é um diagnóstico pré-natal invasivo, que comporta um risco mínimo de aborto espontâneo (geralmente 1 em 100 ou um em 300, dependendo da perícia do médico e do tempo de gestação) e que serve para uma única coisa: detetar malformações genéticas no bebé, ou dito depressa e bem, verificar se o bebé é ou não portador de trissomia 21 (síndrome de Down).

Há doenças diagnosticadas em bebés ainda no útero materno que podem ser corrigidas, algumas através de operações especialíssimas intrauterinas, outras logo à nascença, se tiverem sido corretamente diagnosticadas. Para isso, existem as ecografias morfológicas, que não são invasivas e não comportam qualquer risco para o bebé ou para a mãe. Mas as doenças cromossómicas não podem ser corrigidas. Assim, a amniocentese é totalmente supérflua. Saber se o bebé que vai nascer é portador de trissomia 21 é tão irrelevante como saber se é menino ou menina. Num caso como no outro não há como alterar os factos. Dá jeito saber antes? Talvez. Eu estou desejosa de saber se vem aí um menino ou uma menina. Mas não correria qualquer risco, por mínimo que fosse, de perder o meu bebé para ter essa confirmação. Nem sequer seria eticamente correto. Por que hei de correr risco de perder o meu bebé para saber antecipadamente se tem ou não trissomia 21, mesmo que as estatísticas digam que, na minha idade, as probabilidades são bastante elevadas?

A não ser, claro, que eu colocasse a hipótese de matar o meu filho, caso se confirmasse o diagnóstico de trissomia 21. Clarificando então a função da amniocentese na nossa sociedade: ela serve para eliminar as crianças com trissomia 21 antes de nascerem. As estatísticas não enganam: 95% ou mais das crianças diagnosticadas com trissomia 21 são abortadas. Há até países que se orgulham de terem “eliminado” a doença…

Muitos obstetras (não a minha, graças a Deus) colocam a questão da amniocentese como praticamente obrigatória: “Está na altura de fazer a amniocentese”, dizem. Segundo sei, alguns são até bastante insistentes, quase colocando a questão como uma obrigação moral da mãe depois dos 35 anos e transmitindo a sensação de que, recusando, a mãe está a ser irresponsável. Claro que o verdadeiro receio dos obstetras é virem depois a ser acusados pelas mães de não terem diagnosticado o síndrome (sim, há mães, com os bebés nos braços, que acusam os médicos de não as terem avisado do que aí vinha). Os livrinhos que nos são oferecidos pelas várias marcas nas consultas pré-natais, com o calendário da evolução do bebé, a evolução de mês para mês, etc, também apresenta a amniocentese como natural e obrigatória: “15ª semana. Chegou a altura da amniocentese. Com este exame, irá poder detetar qualquer anomalia cromossómica no seu bebé, para a partir daí poder tomar decisões ponderadas sobre o futuro da sua gravidez.” Soa bem, não soa? Qual é a mãe que não quer tomar decisões ponderadas? Por que não explicam eles as coisas com palavras claras, que todos entendam? Podiam dizer, por exemplo, assim: “15ª semana. Se tencionar matar o seu filho caso ele seja portador de trissomia 21 ou algo semelhante, pode fazer um exame invasivo chamado amniocentese.”

Conheço várias mães católicas, que nunca abortariam os seus filhos, que fizeram amniocentese por estarem convencidas de que era um exame obrigatório e necessário para corrigir eventuais problemas no bebé, de tal forma o exame lhes foi proposto pelos profissionais de saúde.

Parece-me a mim que a recusa deste exame claramente tendencioso é um ato necessário para a nossa afirmação de cristãos. Para a defesa da dignidade dos nascituros, sujeitos a riscos desnecessários (por ínfimos que sejam) no lugar onde deviam estar mais protegidos. Para a defesa da dignidade das crianças portadoras de trissomia 21, presentes especialíssimos que Deus confia a alguns pais. Para a defesa da vida. De toda a vida.

Não, não faço amniocentese. E se o Senhor nos quiser enviar uma criança portadora de algum síndroma ou alguma deficiência, cá estaremos para conduzir o barco e para responder como sempre: “Eis-me aqui!”

14 Comments

  1. É isso mesmo Teresa, eu com 41anos além da amniocentese, queriam “á força” que fizesse uma análise ao sangue que vai para um determinado laboratório para saber quase todas as anomalias.
    E sempre que disse que não, fui olhada como uma mãe totalmente irresponsável.
    Mas quando souberam que estava grávida, no trabalho a reação foi ” ohh com essa idade…” até a minha chefe disse ” ai não esperava isso de si”- porque como tinha um trabalho bastante exigente e sem “horários” fui despromovida…
    Ainda hoje, ás vezes no jardim, na paragem autocarro dizem “que neta tão bonita que tem” e eu sorrio.
    E que saudades tenho de estar grávida, pois eu adorooo tudo.:)
    E atenção que a amniocentese pode dar resultados falsos!!!!!!
    Eu há 20 anos atrás grávida pela primeira vez, disseram que tinha de fazer, e eu fiz, mas nem pensei se seria obrigatório, nem para o que era concretamente…E acusou que através das medidas do perímetro cefálico, acusava ter trissomia 21, fomos chamados à maternidade Alfredo da Costa pela diretora de obstetrícia (tudo muito solene e atrevo-me a dizer macabro) e somos informados com uma frieza e ligeireza de que o nosso filho tinha a dita trissomia 21 e quando queríamos agendar o aborto.
    Eu gelei, acho que por fração de segundos o meu coração parou, o quê abortar o meu bebé tão desejado que Deus me presenteou????
    Disse-lhe logo que não, e saí de lá em lágrimas, não pela noticia,mas por quase “me obrigarem” a abortar.
    Portanto, nem é um exame fiável é….
    Ohhh Teresa, que bênção, e estão sempre nas nossas orações mais o oitavo bebé da Familia power:)))
    Nós Jesus!!!

  2. Como eu te compreendo! Nesta última gravidez, essa também foi a pergunta que mais foi feita. Eu não quis e já tinha 41 anos. A médica que me seguiu é católica e aceitou sem problemas a minha decisão. Mas quando cheguei ao hospital, para aulas de preparação, foi a primeira pergunta quando disse a idade e informaram-me que se fosse seguida no hospital tinha que fazer. Não fiz é nunca farei. Acho um exame bastante invasivo e com bastantes riscos desnecessários. Conheço uma pessoa que é médica ficou grávida com 44 anos e não fez. Um grande beijinho para todos e em especial para ti e para esse bebé.

  3. Parabéns pela valentia

  4. O problema é que em grupos de jovens católicos também é promovida a teoria de que o aborto por malformação do feto ou violação é legítimo. Sendo eu batizada e crismada mas completamente arredada da igreja não posso aceitar esta posição. Se a vida é um valor em si mesmo, não pode ter menos valor por ter uma malformação. Acho isto de uma hipocrisia atroz.

    • Querida Cláudia, a posição da Igreja é absolutamente clara, cristalina: vida é vida e só Deus a pode dar e tirar. O grande, grave problema está na falta, na enorme falta de formação de catequistas e orientadores de grupos de jovens, escuteiros, etc, em relação à doutrina da Igreja. É tão grande esta falta de formação, e causa-me imensa impressão como é que não existe a obrigatoriedade de um curso de formação em doutrina católica para catequistas e outros animadores cristãos. Não entendo e luto contra isto dentro do meu pequeno espaço. Bj

      • A falta de formação é gritante. Eu afastei-me da igreja, porque me afastei da doutrina da igreja e achei que não fazia sentido continuar. Mas choca-me que tantos se afirme católicos, assumam papeis de responsabilidade na Igreja, (catequistas, dinamizadores de grupos, etc. ) e se afastem tanto da doutrina. As vezes parece que nunca abriram o catecismo da Igreja Católica. Para terminar, acho que mais vale poucos mas bons. Ás vezes acho que a igreja devia ser mais radical… Se acreditam têm que manifestar. Faz algum sentido um catequista que vive em união de facto porque não quer casar? Faz algum sentido batizar um filho e escolher para padrinho alguém que não professa a religião? Faz algum sentido casar católicamente quem nunca põe um pé na igreja?

  5. Há 12 semanas nasceu o meu milagre… pequenina, com 50 cm e pouco mais de 2 quilos e meio. Mas encheu o meu e o nosso mundo familiar de felicidade e alegria.
    Grávida pela seguna vez com 47 anos, já nao primeira gravidez com 39 anos me recusei a fazer os dois testes. E a razao é exactamente a que tu, querida Teresa, aqui escreveste.
    Mais: independentemente dos riscos do(s) teste(s) – a análise ao sangue nao comporta riscos – eu nao quis saber porque à partida nunca iria abortar. Portanto, para quê “estragar” os meses da gravidez com algo que nao podia mudar?
    Fartei-me de ler estatísticas (é o que dá ser “cientista”) e ia dando em maluca: a estatística da trisomia 21 só vai até aos 44 anos, sabiam? E a probabilidade de ter um bébé “deficiente” é muito elevada. So what? Estatisticamente a probabilidade de engravidar naturalmente aos 47 anos também era mínima. Mas a Deus nada é impossível. Homens de pouca fé…
    Eu vivo na Alemanha e sei que a maior parte das pessoas que souberam da minha gravidez e da minha decisao de nao fazer testes pensou que eu era uma irresponsável. A minha resposta às pessoas que me abordavam sobre o tema de ter um filho deficiente era: se tiver um filho saudável e ele tiver um acidente e ficar paraplégico? Ou cancro? Ou uma meningite? Deito-o fora?
    Olhai para os lírios do campo.

    • Tens grande sabedoria, Teresa! Eu também penso que aceitar a deficiência do nosso bebé quando ele nasce e o apertamos nos braços é muito mais simples que viver uma gravidez com o “fantasma” de uma deficiência, um peso enorme numa criança a quem não conhecemos o rosto… Assim que ele ou ela nascer, venha como vier, tudo o que queremos é salvá-lo, amá-lo, fazê-lo feliz! Para quê alimentar fantasmas antes? Felicidades para os quatro!

  6. Teresa isto vai para além da religião, vivemos em tempos de “liberdade” e informação como nunca se viveu, cada vez mais se defende a “opção”, de preferência seguindo uma determinada corrente… Quem não segue é olhado de lado. Há um ano uma amiga fez a amniocintese porque pensava que era obrigatório e soube que o filho tinha um tipo raro de trissomia e que não há taxa de sobrevivência, ela continuou com a gravidez e foi acusada de todo o tipo de coisas, o bebé viveu 9 dias e digo-te este bebé foi amado e mudou muitas vidas, a minha incluída. Se foi fácil, não foi, mas foi um gesto de amor enorme!

  7. Catarina Ramos Tomás

    O mundo em que vivemos, lida mal com a diferença! Pelo menos no primeiro impacto!
    Primeiro estranha, depois entranha!
    Até dentro das Paróquias…

    Tive a graça de ser a escolhida para receber no primeiro ano de catequese um menino com trissomia 21.

    Porque cresci sendo a irmã mais velha de uma deficiente, foi-me natural acolhe-lo.
    Dois anos passados, digo com certeza que ele nos deu mais a nós, catequistas e grupo, que nós a ele. E nunca houve um único comentário. Ele é um dos nossos!

    Fiz ligeiras adaptações, mas chegados ao terceiro ano a mãe dele perguntou-me “e agora? Ele não fala, como se vai confessar?”

    Estou tentada a socorrer-me da Pastoral da deficiência…

  8. Nada disto é novo… talvez no ano passado a Teresa falava sobre isto, todas as formas de heresia, tidas como modernas, têm séculos… Lembrei-me de Jesus no deserto… as tentações, as propostas em si mesmas não continham mal algum… Tal qual a nossa cultura de morte, tão, tão bem intencionada que quem defende a vida, a sua própria vida que antecipe difícil até, é que é censurado… Nestes tempo em que o sucesso é medido como a concretização das tentações feitas a Jesus. Este é um tempo belíssimo de esperança!!! Que a Graça de Deus vos acompanhe!!!

  9. Isso mesmo mãe. Adoro os teus posts que leio ás vezes.

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