Em Caná da Galileia...


Que fazeis?

Hoje começa a Quaresma, essa grande oportunidade de conversão, renovada a cada ano. Na nossa casa, podemos dizer que a Quaresma começou ontem, terça-feira de Carnaval, pois na verdade, passámos o dia a preparar esta nova etapa do ano litúrgico!

De manhã, no meio de brincadeiras e de muito rebuliço, conseguimos arrumar a casa, completando a grande limpeza que temos procurado fazer nos últimos tempos. Antes dos tempos litúrgicos fortes, e como já contei aqui no site, gosto de deitar fora o “lixo” que vamos acumulando, de roupas a brinquedos, de papéis a recordações. Começar a Quaresma com a casa lavada e arrumada sabe melhor!

Mas bem mais importante do que deitar fora o lixo material é deitar fora o lixo espiritual. E para isso, nada como uma boa confissão.

“Senhor padre, tem tempo para confessar uma família de pecadores?” Pedi delicadamente, durante a manhã. Marcámos a confissão para as duas da tarde, e às duas em ponto lá estávamos nós, armados de bicicletas, patins e bolas, pois ir ao Santuário sem brincar pelo menos meia hora no imenso pátio do Colégio não vale!

Depois da confissão – que apenas a Sara não fez – rezámos a Via Sacra, no Santuário. Enquanto contemplámos as pequenas gravuras na parede do Santuário, fomos lendo, à vez, a partir do texto magnífico de True Life in God, e conversando sobre o sofrimento de Jesus. Pouco a pouco, à medida que a Via Sacra se adensava, fomos penetrando no mistério da Cruz e deixando que o profundo amor de Deus nos atravessasse por completo. Como é bom, rezar a Via Sacra! Terminámos cantando – eu escutando, porque ainda não consigo cantar – alguns cânticos aqui “Da Nascente”, sobre a Paixão de Jesus. Já os aprenderam, para os cantar neste tempo litúrgico nas vossas paróquias?

Depois de um animado jogo de futebol no campo e de muitas voltas de bicicleta e patins, regressámos a casa. Sem interromper o espírito festivo, começámos a construir o Canto de Oração Familiar.

“Este ano, propus no Ensinamento Mensal meditar na mensagem de Fátima”, expliquei à família reunida. “Neste tempo de Quaresma, vamos aprofundar a mensagem do Anjo de Portugal. Sabem que ele apareceu aos pastorinhos quando eles brincavam, e perguntou-lhes: «Que fazeis?» Depois ensinou-os a rezar, a fazer sacrifícios, a reparar pelos pecados do mundo…”

“O Anjo não queria que eles brincassem? Coitados!”

“Queria, sim. Mas queria que, mesmo durante a brincadeira, pensassem em Jesus. Por exemplo, no meio de um jogo, podes sempre dizer: «Obrigado, Jesus, por esta alegria!» E quando tens de fazer os trabalhos de matemática, podes dizer: «Jesus, ajuda-me a entender esta matéria! Dou-te este sacrifício por teu amor!»”

“Ah, então era isso que o Anjo queria!”

“Sim, o Anjo queria que eles aproveitassem todo o tempo para rezar e fazer sacrifícios. E eles aprenderam muito depressa! Vamos nós também aprender?”

“Para pôr flores no Canto de Oração?”

“Para pôr flores, claro. Ao fim do dia, durante a oração, quem tiver feito sacrifícios irá oferecer a Jesus uma flor. Quando chegar a Páscoa, o Canto de Oração será uma verdadeira Festa de Primavera!”

Pusemos mãos à obra. Mudámos a cortina do Canto de Oração Familiar, pendurámos nela as imagens dos Mistérios Dolorosos, colocámos uma fita vermelha atravessada, símbolo do Sangue Precioso de Jesus, e escrevemos um letreiro com a mensagem do Anjo em poucas palavras:

Que fazeis? Orai! Oferecei! Reparai!

A Sara teve direito a colocar a primeira flor, fruto do seu pequenino sacrifício de partilhar um brinquedo com o António…

Logo à tarde, começaremos “oficialmente” a Quaresma, com a participação na missa da imposição das cinzas. E depois, sem perder tempo, iremos concentrar-nos na nossa tarefa de conversão, todos os dias, até à grande festa da Páscoa.

E aí em casa? Está tudo a postos? O ensinamento mensal já está no site, para vos ajudar nesta caminhada. Vamos! O tempo é curto!

Que fazeis? Orai! Oferecei! Reparai!

One Comment

  1. Conceição Simões

    Gostava de partilhar esta oração para esta caminhada, dos Dehodianos. Pessoalmente , tirando os pensamentos da Teresa, tocou-me o coração.
    Uma Santa Quaresma para todas as famílias.
    Oratio
    Senhor, que, mais uma vez, me ofereces a graça da Quaresma, tempo favorável, dia de salvação, ajuda-me a vivê-lo no segredo onde me vês, me amas e me esperas. Sei que as coisas exteriores têm a sua importância. Mas quero vivê-las na tua presença. Gostaria de fazer muitas obras de penitência durante este tempo. Mas, se fizer poucas, que sejam no teu amor, o que é mais importante do que fazer muitas para atrair a admiração e a estima dos outros. Quero fazer o que puder na oração, na mortificação, na caridade fraterna; mas quero fazê-lo na humildade e na sinceridade diante de Ti. Infunde em mim o teu Espírito Santo que me conduza e guie pelo deserto da penitência, durante esta Quaresma. Ámen.
    Contemplatio
    Que sou eu? Cinza e pó. O pó é levado pelo vento. Assim acontece com a minha pobre natureza. Sou acessível a todo o vento da tentação. A minha vontade é tão móvel como o pó. Em que é então que me posso orgulhar? Que lição de humildade!
    Porque é que o barro e a cinza se orgulham, pergunta o Sábio (Eccli 10, 8). Todos os homens, diz ainda, são apenas terra e cinza (17, 31). Os povos, depois de um rápido brilho, são como um amontoado de cinza depois do incêndio, diz Isaías (33, 12).
    A nossa vida desaparecerá como se extingue uma faúlha, diz o Sábio, e o nosso corpo cairá feito em cinzas (Sab 2, 3).
    Abraão dizia: «Ousarei falar a Deus, eu que não sou senão cinza e pó?» (Gen 18, 27).
    No entanto, falou a Deus com humildade e confiança.
    Tal deve ser o fruto desta cerimónia. Devo recordar-me, todos os dias, do meu nada e da minha fragilidade. O sinal material apagar-se-á da minha fronte, mas o pensamento que exprime deve permanecer gravado na minha memória.
    Sou apenas nada, no entanto irei ter com Deus, mas irei com humildade. Irei lamentando as minhas faltas, irei fazendo reparação e confissão pública pelos meus pecados e pelos dos meus irmãos.
    Irei com a consciência da minha fraqueza, mas mesmo assim confiante, porque Deus é bom, porque o Filho de Deus tomou um coração para me amar e partir este coração para deixar escorrer sobre a minha alma o perfume da sua misericórdia (Leão Dehon, OSP 3, p. 196).
    Actio
    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «E este o tempo favorável é este o dia da salvação» (2 Cor 6,2)

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