Em Caná da Galileia...


Quinze dias com as Missionárias da Madre Teresa

Foi há vinte e poucos anos atrás. Nas minhas últimas férias de verão como universitária, decidi perguntar às Missionárias da Caridade sediadas em Lisboa se podia passar quinze dias com elas, ajudando-as no seu trabalho no Lar de Acolhimento para Abandonados e partilhando a sua vida. Disseram-me que sim. Informei a minha mãe e o Niall, e parti para Lisboa de comboio. Apanhei um táxi para a morada que me foi indicada, em Chelas, e de repente vi-me sozinha numa praça barulhenta cheia de barracas. Olhei para todos os lados, mas nem sinais de um convento. Toquei à campainha do número que me fora indicado, mas ninguém respondeu. Que fazer? Alguns rapazes com ar pouco recomendável passaram por mim, a rir e a fumar. Um homem bêbedo falava sozinho mesmo à minha beira, e duas motorizadas levantaram uma onda de poeira ao acelerar. Em algumas barracas ali perto ouviam-se berros sem fim. Alguém discutia a sério! Fui tomada por uma onda de pânico. Onde me tinha eu vindo meter, assim sozinha?

Foi então que se abriu uma porta, e duas irmãs sorridentes me fizeram sinal. “Viemos ver se já tinhas chegado!” Disseram. “A campainha da porta tem estado avariada e não queríamos que ficasses muito tempo aqui fora à espera. Sabemos que isto pode ser um pouco confuso aqui no bairro!” Eu suspirei aliviada e entrei na sua casa. Exteriormente, nada a distinguia das casas em redor; mas no interior, tudo respirava paz, limpeza e tranquilidade. Imagens da Madre Teresa e de Jesus enfeitavam as paredes. Sentados em roda, os velhinhos conversavam animadamente. “Vem cumprimentar o Dono da Casa”, disseram-me as irmãs. E encaminharam-me para uma capela minúscula, onde o Santíssimo estava exposto. Era, de facto, a hora de adoração diária das quatro irmãs que ali viviam, e eu tinha a honra de a partilhar!

Foram quinze dias de trabalho intenso e de oração ainda mais intensa. A missa diária era às sete da manhã. As irmãs acordavam-me dez minutos antes, mas elas já estava a pé desde as cinco horas… Depois do almoço, fazíamos uma hora de adoração diante do Santíssimo, em que se rezava o terço e cantava, sempre de joelhos e costas direitas, como a Madre Teresa ensinava às irmãs. Ao fim da tarde, Vésperas e mais oração silenciosa. E durante todo o dia, trabalho árduo, quer na Casa, quer no bairro. Uma vez por semana, as irmãs distribuíam bens alimentares pelos pobres, que acorriam em grande número. Antes da distribuição, todos entravam para o salão e se sentavam em roda, para escutar uma lição de catequese e a leitura do Evangelho. Que grande ideia!

Dois dias antes de eu regressar a casa, uma mulher bateu à porta. Trazia uma enorme barriga e quatro crianças pequeninas pela mão. As irmãs acolheram-na e depois entregaram-me as crianças: “Estes dias que ainda tens, vais ajudar-nos com elas”, explicaram-me. “A mãe vai dar entrada hoje no hospital para ter o bebé, e como o marido é alcoólico profundo, ela vai deixar os filhos aqui connosco até regressar e poder cuidar deles.” Foram as crianças mais insubordinadas que tive de cuidar até hoje. Eu não tinha qualquer experiência com crianças, mas lembro-me de ter ficado um pouco assustada pensando que, um dia, teria mesmo de aprender! Quando deixei a casa das irmãs, a mãe ainda não regressara da maternidade.

Numa tarde, durante a oração, os gritos no pátio interior do prédio eram tão altos, que se tornava difícil escutarmo-nos umas às outras. Espreitando pela janela, apercebi-me de que alguns homens e algumas mulheres se agrediam. Fiquei cheia de medo. “As irmãs vivem sempre assim, nesta confusão?” Perguntei-lhes, aflita. A madre superiora sorriu: “Esta é a nossa vocação,” explicou-me. “Nós queremos estar onde estão os pobres mais pobres. Queremos rezar através do seu sofrimento, dos seus gritos, do seu pecado. A nossa oração só terá valor se estiver embebida nesta renúncia à nossa própria tranquilidade. Se não partilharmos tudo com eles, como os podemos ajudar? Não somos assistentes sociais! Nós estamos aqui para viver a vida dos pobres.”

Logotipo oficial da canonização da Madre Teresa

Logotipo oficial da canonização da Madre Teresa, Radio Vaticana

O que me levou a querer passar quinze dias com as Missionárias da Madre Teresa? Não foi uma crise de vocação: naquela altura, eu já tomara a decisão de casar com o Niall. Foi antes a vontade de descobrir como podemos conciliar uma vida de oração com uma vida de serviço; uma vida de clausura interior com uma vida rasgada, embebida no sofrimento dos outros, embebida no sofrimento pelos outros.

Aprendi muita coisa naqueles quinze dias. Aliás, penso que fazer a experiência da rotina de um convento “radical” – quer no serviço, quer na contemplação – faz muito bem a quem pretende constituir uma família. E porquê? Porque nos revela a importância das rotinas, da fidelidade às pequenas coisas, da obediência à vontade de Deus. As irmãs mostraram-me que é possível fazer imensas coisas num só dia, tendo sempre no centro a hora da oração e nunca prescindindo dela. Ensinaram-me a rezar o terço caminhando ou conduzindo. Mostraram-me o que é não desperdiçar um minuto do nosso dia com futilidades. Confirmaram a minha crença de que podemos viver no mundo sem ser do mundo, imersos na vida dos nossos irmãos sem perdermos a nossa fidelidade ao Senhor. Ajudaram-me a vencer os medos da vida e dos outros. E provaram-me que é possível rezar mesmo quando à nossa volta o caos é total – tudo belas lições para quem estava prestes a formar uma família numerosa!

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Santa Teresa de Calcutá, rogai por nós! Ámen.

 

 

2 Comments

  1. Gostei bastante de ler sobre a sua experiência, Teresa. Realmente, seria bom que todos tivéssemos experiências assim para eliminarmos das nossas vidas tanta coisa supérflua que só atrapalha o nosso crescimento espiritual.

  2. Teresa, obrigada pelo seu testemunho.

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