Em Caná da Galileia...


Rankings, prendas de Natal e o mais importante

Sala de aula de inglês. Dia de entrega dos testes escritos. Vou caminhando por entre os alunos e entregando os testes, enquanto comento brevemente o desempenho de cada um. Um dos meninos, com doze anos, está particularmente triste e tem uma lágrima no olho. “Não é caso para tanto!” Digo-lhe. “76% é uma ótima nota. Às vezes, até os bons alunos falham, e não há nada de errado nisso. Para o próximo teste tenho a certeza de que chegas à nota máxima!” Ele encolhe os ombros e mantém o olhar triste e molhado. “A professora diz isso, mas quem vai ficar um mês sem playstation e sem telemóvel sou eu.” Páro, chocada com o que ouço. “Por causa de um 76%? Não acredito! Vais ver que estás enganado.” Depois do fim-de-semana, encontro-o de novo na sala de aulas. “Então, o teu pai que disse?” Pergunto, curiosa e preocupada. Ele fica um momento em silêncio e depois responde baixinho: “Ainda não lhe contei.”

Sala de catequese. Um grupo de meninos de dez anos, curiosos e irrequietos, escutam-me com atenção. Falamos do Natal e da escola. Um deles, falador, intervém fora da sua vez, e eu repreendo-o: “É preciso esperar pela vez para falar! Levanta o dedo que eu já te pergunto.” Mas ele tem a resposta pronta: “Ah, eu nunca me porto bem, nem aqui nem na escola. Não preciso: tenho sempre as notas máximas!” “E é só isso que importa?” Pergunto-lhe. “Claro! O bom comportamento não faz nada. Mas se as notas baixarem, se tirar menos de 80%, aí eu fico sem playstation e sem telemóvel. Isso sim, é grave!” Escutando a conversa, outro menino pergunta-me, inocentemente: “Teresa, se não são as notas que importam na escola, o que é?”

Podia continuar a contar-vos história após história, ao longo de vinte anos de professora. Porque histórias tenho muitas, destas e das outras, dos pais que nada exigem e nada conhecem, e que apenas aguardam o fim da escolaridade obrigatória para o filho ajudar na empresa caseira. Numa mesma turma, encontramos um bocadinho de tudo, e quando entregamos um teste a um aluno temos de ter em mente todo este contexto. Porque se a um é preciso dizer “não desanimes”, a outro é preciso repreender: “Não estudaste nada e não podes continuar assim!”

“Teresa, se não são as notas que importam na escola, o que é?”

Cá em casa, temos uma grande variedade em termos de sucesso académico. Mas nunca nos passou pela cabeça castigar ou recompensar pelos resultados. Deus não o faz a ninguém, e pobres de nós se o fizesse! Ao fim de 2000 anos, não devíamos já ter outros resultados na História para Lhe mostrar?! A haver castigos e recompensas – prática rara na nossa família – é pelo esforço e pelo trabalho.

Prendas de Natal como recompensa? Falta delas como castigo? Mas porque trocamos nós prendas no Natal? Precisamos de rever esta questão. Porque se o Natal é o aniversário de Jesus, trocar presentes simples entre nós, sobretudo entre pais e filhos, é um gesto que apenas pretende dizer: “Eu amo-te incondicionalmente e quero fazer festa contigo. Tu és mais do que as tuas notas, do que o teu comportamento e do que tudo. És o meu filho, és a minha filha.” Jesus nasceu para bons e maus, para os que merecem e os que não merecem. A gratuidade do Presépio continua a ser pedra de tropeço para muitos e muitos pais, que compram o sucesso académico dos filhos com telemóveis e playstations.

Os rankings das escolas estão aí, a levantar poeira e a reacender a guerra entre pública e privada, como todos os anos. O sucesso académico, na verdade, mede-se em números. E na minha opinião, a escola tem uma grande função, que é precisamente a de transmitir aos mais novos os saberes académicos que as gerações passadas adquiriram. São saberes coletivos, que ultrapassam a esfera familiar e nos inserem na grande família humana, e por isso é bom que sejam transmitidos por muitos e variados professores, de muitas e variadas formas. O dia em que descobrimos que os nossos filhos sabem muito mais do que nós, e nos sentamos a seu lado a escutar as suas explicações de física e de astronomia, de literatura e de matemática, é um dia a festejar! Passa-se a estafeta às novas gerações, e dá-se-lhes todo o apoio para que se lancem nesta magnífica corrida do conhecimento e do aprofundamento da verdade. Se tudo isto puder ser feito em ambiente cristão, numa escola católica, melhor. Mas nem a melhor das escolas católicas pode fazer a outra parte.

Porque nada mais se mede em números. Nem os valores, nem a educação, nem a fé. Os meus filhos gostam da sua escola, estudam e trabalham. Mas eles sabem perfeitamente que os números não são a parte mais importante. O “discurso” repete-se cá em casa, filho após filho:

“Quando falar com o teu diretor de turma, quero que ele me diga que tu trabalhas, que tu te esforças, que não és preguiçoso, que gostas de ajudar os colegas, que estás ao lado dos últimos, que te sentas junto de qualquer menino sem fazer distinções, que emprestas as tuas coisas, que participas na equipa mais fraca para puxar por ela. Se as notas forem boas, ficamos todos muito felizes. Se forem más, vamos juntos procurar soluções. O caminho nem sempre é fácil, o que para uns é simples, para outros é difícil. É preciso trabalhar mais e melhor? Nós, Jesus, vamos conseguir! O importante já lá está: a partilha, a fraternidade, a generosidade.”

“Teresa, se não são as notas que importam na escola, o que é?”

Vamos responder aos nossos filhos, este Natal, com a verdade cristã. Deixemos de fazer exigências e de pôr condições, e amemos sem limite as crianças que o Senhor nos confiou. Dia após dia, oração familiar após oração familiar, façamos o trabalho que nenhuma escola pode fazer: ensinemos-lhes aquilo que é mais importante.

Quando elas o descobrirem, deixarão de precisar de recompensas ou de castigos, porque a sua alegria ou a sua tristeza, bem como a alegria ou a tristeza causada aos pais, serão a recompensa ou o castigo necessários; deixarão de precisar de incentivos exteriores para estudar, para se empenharem e se esforçarem, porque o Evangelho diário, explicado na catequese familiar também diária, as fará crescer no amor a Jesus, a Quem quererão amar sempre um bocadinho mais, “dando até doer”, como dizia Santa Teresa de Calcutá. Estudar quando não apetece, estar calado quando se quer conversar, escutar o professor quando o colega do lado faz tudo para nos distrair, vencer a preguiça com pontualidade e prontidão, pertence a este conjunto de pequenos sacrifícios cheios de amor, que unidos a Jesus, podem salvar o mundo. É preciso que os nossos filhos saibam disto.

Se somos cristãos, temos de educar os nossos filhos como cristãos. Mesmo quando se trata de rankings. Mesmo – mesmo – quando se trata do Natal…

3 Comments

  1. Ai, Teresa, este post é tao importante…
    Com o que tu foste mexer!
    Obrigada pelas tuas palavras, que me vêm dar um incentivo e um apoio à minha maneira de ver a escola.
    A minha filhota comecou este ano a primeira classe e é uma excelente aluna.
    Como eu sei que ela é muito inteligente, tenho de ter imenso cuidado com as minhas atitudes, para nao cair na tentacao de ficar desiludida quando ela traz um teste de 92% em vez de 100%.
    Sobretudo tenho muito medo de ela cair nessa de dar a resposta de “posso fazer o que quiser desde que tenha sempre boas notas”.
    Para mim o mais importante é ajudar a minha filha a usar a inteligência que Deus lhe deu (lembro-me sempre da parábola dos talentos) para o bem e nao para o mal. Ser educada, amiga de todos, ajudar os mais fracos, partilhar com os que têm menos, nao fazer pouco dos que sao diferentes…
    E ajudá-la a compreender que o sucesso escolar é dela, nao é meu.. Que nao tem de o fazer para me pôr contente mas sim para ter um futuro aberto à sua frente.
    Sobretudo quero que seja uma pessoa boa e feliz. Hoje só se fala em como ajudar os filhos para que sejam adultos com sucesso. O que interessa o sucesso se sao egoístas, arrogantes, mesquinhos, solitários e infelizes?
    As famílias de Caná, sobretudo a família Power, “ajuda-me a deixar de fazer exigências e de pôr condições, e amar sem limite a criança que o Senhor me confiou. Dia após dia, oração familiar após oração familiar, façamos o trabalho que nenhuma escola pode fazer: ensinemos-lhes aquilo que é mais importante.”

  2. Bem… eu até tenho vergonha de admitir, mas também já fiz parte das mães que recompensavam pelas boas notas. O facto de ter crescido como cristã, de me ter apercebido que nada daquilo fazia sentido, que não era assim que os meus pais me educaram, mudaram a minha maneira de ser e de fazer as coisas. Neste momento apenas o esforço (fazer tudo ao nosso alcance para ter bons resultados), a amizade e a partilha são as coisas mais importantes, mesmo com negativas na pauta: e ter negativas na pauta é muito deprimente!

  3. O melhor de nós é o essencial. O melhor de nós é o que Jesus nos pede todos os dias. O melhor de nós é o que nos faz viver verdadeiramente. Aqui em casa, a cada teste, a pergunta é “deste o teu melhor?”. Nem sempre a resposta é sim. E quando a resposta não é sim,mesmo que a nota seja boa, há lugar a um porquê. Cada teste é sempre motivo para avaliar o esforço, muito mais que a classificação. Raramente não há parabéns. Ao mesmo tempo há também um podes fazer um bocadinho melhor… Carla

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