Em Caná da Galileia...


Saudações, a saúde e o sacramento da caridade

A graça do Senhor nosso Jesus Cristo esteja com todos vós!” (Rm 16, 24)

O capítulo 16 da Carta aos Romanos, que vos propus este mês no Ensinamento Mensal (e que não sei se já leram), contém esta saudação de S. Paulo, semelhante a tantas outras em cada uma das suas cartas.

Muito semelhante – ou talvez nem por isso – às que, por estes dias, vamos trocando, não é verdade?

“Fiquem bem. Fiquem em casa!”

“Cuidem-se!”

“E não se esqueçam: fiquem em casa!”

Assim termina a maior parte dos e-mails que vamos trocando entre colegas de trabalho, entre alunos e professores, entre amigos, entre paroquianos. A pandemia apoderou-se de todas as áreas da nossa vida, das mais pessoais às mais públicas. E até determina a forma politicamente correta de nos despedirmos uns dos outros.

“A saúde primeiro”, dizemos.

Lembro-me dos comentários que fui escutando de cada vez que estive grávida.

“O que importa é que tenha saúde!”

“Rapaz ou rapariga, que importa? Desde que seja perfeitinho!”

E os comentários que sempre ouvimos, no contacto normal entre amigos, muito antes da pandemia:

“Temos saúde, que mais havemos de desejar?”

Lembro-me ainda de todas as vezes em que, referindo-se à morte do nosso Tomás, as pessoas me dizem:

“Não há nada pior que perder um filho. Que é o meu divórcio, comparado com isso?”

E lembro-me do arrepio que me sobe pelas costas ao ouvir esta pergunta retórica. Sempre achei que perder um filho, amado e feliz, que adormecia entre o pai e a mãe e ao som das avé-marias, era muito preferível a passar por graves episódios de falta de amor ou por guerras conjugais, não importa quanto o Tomás tenha sofrido (e sofreu mais do que alguém que nunca viu um caso semelhante possa tentar sequer imaginar). Antes a morte de um filho que um divórcio, penso, e digo-o hoje pela primeira vez em voz alta, apesar de saber que meio mundo me vai cair em cima.

É que eu creio na vida eterna. Que importa ao homem ter saúde e ser “perfeitinho”, se perder a própria alma? (Cf. Mc 8, 36)

A ditadura da saúde.

Não, a saúde não vem primeiro. Não, a pandemia não é o problema número um do mundo. Não, não importa acima de tudo que um bebé nasça saudável. Mais grave que qualquer pandemia, é a guerra que continua a dilacerar o mundo e a matar inocentes. Mais grave que não ter saúde, é não ter amor. Mais grave que morrer por doença, é morrer por maus tratos. Mais grave que contrair o vírus, é haver lares onde o pai viola a filha, o marido bate na mulher, os irmãos não se entendem. E podem ter a certeza: se a covid-19 afetasse apenas o terceiro mundo, ou tivesse ficado circunscrita à China, ninguém, a não ser os afetados, daria ao tema mais do que dois minutos de telejornal semanal.

Insistir na necessidade de poder em breve ir à missa nestes tempos de pandemia é faltar ao mandamento de Deus “Não matarás!” Já ouvi e li padres dizerem esta barbaridade. Muitas das nossas escolhas de vida podem implicar riscos acrescidos na vida dos outros, como ir à missa – ou à escola, ou ao trabalho, ou ao supermercado – engripado, ou como conduzir acima do limite da velocidade ou a falar ao telemóvel, ou como não vacinar os filhos, ou até como deixar os filhos dar um passeio de bicicleta na via pública, pois podem ser atropelados. Durante todos os meus anos de mãe tenho sido criticada, e duramente criticada, por permitir que os meus filhos subam a árvores, andem de bicicleta na rua sem capacete (ui! Nem é bom escrever isto!) e façam uma série de outras coisas potencialmente mortais. Sou uma assassina?

Porquê fazer deste tema quase um dogma de fé agora, durante a crise da covid-19? Porquê entrar por aí, transformando em culpa – e culpa muito grave – os legítimos anseios dos cristãos? Incomoda-me que, de repente, meio mundo esteja de acordo com afirmações tão cruéis e ideológicas, sem minimamente as questionar. E porque o clericalismo que vivemos subiu a níveis desastrosos durante a pandemia, se tais afirmações forem feitas por sacerdotes, então são recebidas como afirmações sagradas.

“A segurança primeiro”. Não. O amor primeiro.

“Pois, mas ir à missa nestes tempos de pandemia é falta de amor.”

Ora aí está! Não há mais nada a dizer. Atingimos o cúmulo da nossa apostasia. Participar no Sacramento do Amor por excelência é agora descrito como falta de amor. O Sacramento da Caridade, que os três Evangelhos sinóticos descrevem como Instituição da Eucaristia e João descreve como Lava-Pés, tornou-se arma de genocídio…

saudações

(Nota: não estou a questionar a decisão dos nossos bispos, nem a apelar à desobediência, pois já escrevi longamente sobre a importância desta virtude. Este artigo, se tiverem a amabilidade de o reler sem preconceitos, refere-se apenas ao debate que vai sendo mantido nas redes sociais, entre amigos, entre sacerdotes e leigos, naquilo que podemos chamar simplesmente de troca de opiniões “não oficiais”. Por enquanto, e convém que se diga, o tema da suspensão das missas está aberto a discussão, pois discutir um assunto com seriedade e respeito, sem apelar à rebelião, não é desobedecer. A não ser, claro, que a Igreja afirme que determinado assunto está encerrado para discussão, como fez com temas que, teimosamente, alguns insistem em trazer para discussão sem, curiosamente, provocarem críticas por estarem a faltar à obediência.)

 

 

10 Comments

  1. Obrigada pela frontalidade Teresa! Pela certeza da fé com que escreve e que ainda que estejamos longe nos contagia!

  2. Vem aí a Missa para todos Teresa! Está quase!
    Vem e é desejada por muitos… o caminho pelo deserto também faz parte da Vida! Eu acredito que desta atitude tão disruptiva com a tradição milenar dos cristãos, dos católicos, virá algo de bom, que Deus Nosso Senhor assim o permitiu…
    A dor e a morte têm um lugar estranho na vida dos humanos e confesso-me desde sempre perplexa perante o Mistério da Dor no caminho da Salvação. Por isso Mistério…
    Que nos deixemos guiar pelo Amor!
    Um beijinho grande a todos!!!

  3. Atingimos o cúmulo mesmo… E que triste cenário! Milhares de GNR a “guardar” o santuário de Fátima..o silêncio e talvez aprovação de quem podia fazer algo… despachos,decretos ou sei lá quê… Que cenário triste este! Prefiro já nem comentar porque posso pecar gravemente em pensamentos e palavras…e não ficar por aí!
    Povero Gesù!
    O Amor não é amado…mas vencerá! Sempre vencerá!
    E não….a saúde, a segurança e coisas afins….não são o mais importante!!! Perderemos tudo…porque estamos já a perder o essencial da vida..a própria Vida.

    • Obrigada pelo comentário, Filipa. O amor não é amado, mesmo, e essa é a minha grande dor. Não consigo entender o grande silêncio dos crentes. Mesmo aqui no site. Muito menos a aceitação passiva do que se passa, em nome de uma obediência que nem sequer é necessária, porque nada está nas nossas mãos de leigos. Pedir, fazer ouvir a nossa voz, suplicar, contestar, não é pecar. Os nossos queridos pastores precisam de saber que temos sede e fome de Deus, do Deus Vivo, e que nada se compara à Eucaristia. A Igreja Doméstica não cresce à custa da falta da Eucaristia. Nem se lhe opõe, como infelizmente se vem vindo a escrever e a afirmar. A dormência em que caímos tem-me feito pensar muito…

      • Tenho vivido uma revolta grande com isto tudo… Em nome dos direitos humanos (seja isso o que for!!!!) e do vírus e das tretas todas pode-se tudo… até afirmar com convicção que o aborto é a solução nestes tempos para todo o mundo…… Nunca pensei foi que os nossos pastores ficassem tão tranquilos (aparentemente) perante isto. Eu sinto-me impotente…e mais ainda na condição em que me encontro neste momento. Sem sacrário, sem eucaristia, sem comunhão, sem comunidade… Não tem sido fácil viver com alegria estes tempos e menos ainda com esperança. Estamos a cultivar a pandemia do medo, do afastamento, da desconfiança. Bem…eu prefiro não comentar muito Teresa e fico no meu silêncio.

  4. Catarina Ramos Tomás

    Estes tempos são estranhos. Confesso que me tem feito refletir esta atitude da Igreja.
    Trabalho com pessoas em situação de sem abrigo. Mantivemos todos os serviços, triplicamos o número de refeições, duplicamos o número de pessoas em dormitórios. Temos neste momento contacto direto com um número claramente superior de pessoas do que há dois meses atrás.
    E sim, adoptámos medidas de proteção.
    Penso no número de refeições que servimos diariamente. E se de repente, tivéssemos fechado tudo e não houvesse comida? O que seria daquela gente? Junta-se mais gente à porta do refeitório todos os dias, duas vezes por dia, que à porta da igreja ao domingo…
    Mas não podiam ficar se o alimento…
    Balanço entre a surpresa pela passividade e obediência da igreja e pelo sentimento de que me faz falta deixar de ser refilona e aceitar esta decisão como algo que vem de cima e não está ao meu alcance.
    Cá por casa é difícil explicar como de repente passámos de “não faltamos à missa” para ” não podemos ir à missa”
    Mas afinal não era essencial???

  5. “Contestar”? A Eucaristia é uma graça de Deus, e como graça de Deus, não a merecemos, pelo que não a podemos exigir, nem batalhar por ela, nem protestar pelo seu regresso.
    Recebêmo-la como um dom, e agradecemos. A Eucaristia é um milagre, e ninguém tem direito a nenhum milagre! A humildade também é reconhecer isso.
    Os nossos pastores decidiram, e não deve ter sido fácil essa decisão. Respeitar a decisão não é apenas obedecer. É também evitar criar divisões/sectarismo na Igreja, numa altura já de si difícil espiritualmente.
    Não foi a Teresa que disse, há já alguns anos, que mais importante do que ter razão é continuarem unidos como bons irmãos? Mais importante do que a Teresa ter ou não razão, parece ser não criar divisões no Corpo de Cristo (que, para além de ser o Santíssimo Sacramento, é também a própria Igreja).
    Mesmo que a Teresa tenha razão, a Escritura questiona “de que serve ao homem preocupar-se?”, pois “não ganhará um só centímetro”…
    Neste momento, nada de bom se ganhará em contestar – pois a decisão de regresso já foi tomada por quem a pode e deve tomar – e é possível causar, com a contestação, um grande mal, uma grande ferida de divisão, completamente desnecessária.
    Resta-nos aguardar o regresso anunciado das missass comunitárias, na certeza de que Deus nunca nos abandona.
    Agora, acerca de um outro post, ninguém disse que ver a missa na televisão “é a mesma coisa”: seria o mesmo que dizer que não precisamos de voltar a estar com os nossos familiares, já que nos habituámos a vê-los no skype/whatsapp/zoom/etc…

    • Que grande confusão,meu Deus!
      Às custas da dita obediência tanto mal se tem feito. 😞
      Somos um povo de respeitinhos humanos e fazemos festinhas na própria consciência para que não nos arranhe.
      Que triste realidade a nossa….
      Sigamos todos esses tais pastores que de tanto zelo e amor até precisam de militares para controlar as suas ovelhas!
      Obedeçamos. Amém! E já agora: porque não vamos festejar a Vida no festival do Avante??! Talvez encontremos lá caras conhecidas….sem WhatsApp no meio!
      Por favor!

    • A mim, leiga, ovelha de Cristo, o meu bispo ainda não dirigiu uma palavra sobre o tema. Até agora, que eu saiba, os bispos dirigiram-se aos sacerdotes, ou falaram para os cidadãos portugueses, numa linguagem civil que não reconheço, enquanto “ovelha de Cristo”: “em consonância com autoridades civis e sanitárias”. Portanto, a minha obediência não foi ainda posta à prova. E por isso, até agora, tenho encontrado a Eucaristia onde consigo. E posso-lhe dizer que já descobri mais do que um lugar onde me permitem que me alimente, graças a Deus. Mas mantenho-o em segredo por respeito a esses sacerdotes corajosos.
      Disse muito bem: a Eucaristia é um dom. E como é um dom de Deus, não reconheço a ninguém o direito de o impedir que chegue a quem Deus bem entender que chegue. Considero um abuso de poder cancelar Eucaristias comunitárias. Outra coisa seria escrever aos fiéis, às ovelhas, dizendo-lhes que estão dispensadas do preceito dominical. Mas impedir um filho de se abeirar da mesa do Pai, quem tem o poder para o fazer? Ninguém. E por isso, o Papa ainda não o fez, se estiver atenta…
      A Igreja sempre afirmou que a obediência deve ser justa, isto é, não podemos obedecer contra a própria razão. Uma coisa é obedecer no que se refere à forma – celebrar assim ou assado, comungar assim ou assado, festejar assim ou assado, e é uma pena arranjar divisões por tão pouco – outra, bem diferente, é ir contra tudo o que, ao longo de 2000 anos, a Igreja afirmou. Como dizia a Catarina Tomás, o bom senso diz-nos que não podemos dizer a um filho “não podes faltar à missa” e, no domingo seguinte, “não podes ir à missa”.
      Unidade sem liberdade de expressão? Isso tem outro nome, como sabe. E eu não fiz um voto de silêncio.
      Quanto ao seu uso da expressão evangélica, “que adianta”… Que estranho! Então vamos desistir de lutar? Não é isso que Jesus diz nessa passagem, se a conhece bem. Diz-nos que nada se compara à salvação das almas. Nem a saúde, nem o dinheiro, nem a vida física.

  6. Sónia Alexandrina Santos

    Pois, a obediência…
    A obediência e a confiança em quem toma decisões na igreja transformou-se agora, de repente, numa bandeira querida por tantos, mas é só para este assunto, suponho…
    Para outros assuntos já não é a obediência, nem a confiança na sabedoria dos bispos, ou o que afirma o catecismo que segue à frente das condutas.
    É perturbador como a mesma virtude pode servir a dois senhores…

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