Em Caná da Galileia...


Solenidade de Cristo Rei

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

O UNIVERSO NÃO ESTÁ ENTREGUE AO ACASO

Este domingo é de festa: é a grande solenidade de Cristo, Rei do Universo! E se o Universo tem um Rei, então ele não está entregue ao acaso, mas é sabiamente conduzido à plenitude final: “Eu sou o Alfa e o Ómega, diz o Senhor Deus, Aquele que é, que era e que há de vir, o Senhor do Universo.”

Quando pensamos em reis, pensamos em riqueza, palácios, tronos, joias, poder. Como sempre, o Evangelho vem virar do avesso os nossos pensamentos. De facto, ao longo dos três anos da sua vida pública, Jesus sempre fugiu das ocasiões em que O tentaram fazer rei, um rei segundo os nossos conceitos mundanos, capaz de vencer os inimigos.

Mas no Evangelho deste domingo, diante de Pilatos, prisioneiro, roubado de qualquer réstia de poder que pudesse possuir, roubado da sua dignidade humana, roubado do seu direito a uma defesa justa, Jesus afirma ser Rei. É que nesta situação de total vulnerabilidade, não há qualquer perigo de que a sua realeza seja confundida com a realeza mundana a que estamos habituados. “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”, explica Jesus. O Rei que está diante de Pilatos terá por coroa, espinhos; por joias, três cravos; e por trono, uma cruz. Por exército, terá um punhado de mulheres a chorar com Ele; por ministros à direita e à esquerda, terá dois ladrões.

Crucifixo venerado nos jardins do mosteiro beneditino de Einsiedeln, Suiça

Quem quereria seguir um Rei assim? Ainda hoje, a cruz permanece sinal de escândalo, e apresenta-se como um objeto agressivo capaz de ferir as suscetibilidades dos não-crentes, pelo que convém que seja retirada da via pública, dizem os entendidos. Se considerarmos o Universo como uma belíssima tela, a cruz afigura-se-nos como um rasgão feito grosseiramente no seu centro, que a desfeia. E no entanto, é este rasgão na “carne” da Criação que paradoxalmente a salva e a recria. Tudo faz sentido por causa dele. Tudo se transfigura por causa dele. Jesus é Rei do Universo, e é paradoxal que o Universo, tão belo, polvilhado de estrelas, tenha por Rei um Crucificado. Há uma Cruz pendurada na parede do mundo. Não desviemos o olhar. Ajoelhemos e adoremos.

“É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?” Pergunta Jesus a Pilatos. Não basta escutar da Igreja, dos nossos pais, catequistas ou amigos, que Jesus é Rei. É preciso ter a certeza interior da fé para, também nós, o afirmarmos sem vergonha nem hesitação. Jesus não é apenas o Rei do Universo, o Rei da minha paróquia, o Rei dos meus pais, é também o meu Rei. Seremos nós capazes, diante desta Cruz imensa, de afirmar a nossa fé? No mundo ocidental, é-nos pedida alguma coragem para o fazermos sem falsos respeitos humanos. Mas no mundo árabe, onde muitos nossos irmãos cristãos vivem, é preciso estar disposto a dar a vida. Afirmava Shahbatz Bhatti, ministro para as minorias do Paquistão, hoje proposto para canonização, numa entrevista que lhe custou a vida em 2011: “Quero partilhar aqui que acredito em Jesus Cristo, que deu a vida por nós. Eu sei o significado da cruz. E eu quero seguir a cruz. E estou pronto a dar a minha vida para defender as minorias que não podem expressar a sua fé. E nenhuma ameaça me fará mudar de ideias. Prefiro morrer a ceder nesta luta.”

Morrer ou ceder. Seguir o Crucificado até ao fim ou seguir o mundo e as suas seduções. Eis o desafio que nos é a todos proposto. Se somos súbditos deste Rei Crucificado, precisamos de nos deixar crucificar com Ele. “Venha a nós o vosso reino!” Pedimos diariamente na oração que nos ensinou. O reino virá, sim, mas para nossa alegria e salvação, desejemos ardentemente que venha através de nós, e não apesar de nós. Que em cada dia sejamos capazes de o edificar um bocadinho mais!

E onde estão a glória e a majestade? Onde estão os atributos divinos que o salmo deste domingo canta: “O Senhor é Rei, revestiu-Se de majestade, revestiu-Se e cingiu-Se de poder”? Onde estão “as visões da noite” de Daniel, que vê o Filho do Homem a receber “o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas” a servirem-n’O? Sabemos, pela fé, que no final da História Jesus será por todos reconhecido na sua realeza: “Ei-l’O que vem entre as nuvens e todos os olhos O verão”, diz o Apocalipse.

Imagem venerada no seminário de Alcains, diocese de Portalegre e Castelo Branco

Mas a glória e a majestade de Cristo Rei não são apenas para um futuro distante; são para saborear aqui e agora, na paz, na alegria profunda, na recompensa que já experimentam todos os que têm a coragem de seguir a Cruz. Porque como diz a célebre oração, “é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.”

Hora da missa. Na Hóstia e no Cálice consagrados, num mesmo momento, na mesma fração de tempo e por toda a eternidade, está o Crucificado e o Ressuscitado, o Abandonado e o Rei, a fraqueza e a glória. E eis que este Senhor, que reina sobre todo o Universo, quer descer ao mais ínfimo da sua Criação e habitar dentro de mim, a última das suas criaturas! Deixarei que Ele entre e reine? Vem, Senhor Jesus!

 

One Comment

  1. Catarina Silva

    Maravilhosa esta reflexão!
    A Teresa sempre fez lindas e profundas reflexões das leituras bíblicas, no entanto este estado de graça em que se encontra, tem-na inspirado ainda mais… 🙂

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