Em Caná da Galileia...


Todos os dias da nossa vida

Num dia especial, o Niall escreveu-me um postal que me fez rir à gargalhada. Está cheio de brincadeiras que só nós os dois entendemos, “piadas privadas” construídas ao longo de vinte anos de esforço, de desafio, de problemas, de falhas, de sucessos, de lutas, de desentendimentos, de reconciliações, de lágrimas, de risos, em suma, de amor. Deixo-vos com algumas frases, mesmo correndo o risco de não fazerem qualquer sentido para vós:

Let it snow all summer long, let cats piddle in the sock basket, let ants crawl in the fridge, let the petrol run out of the car and all the clothes unironed for weeks; let me fall over lego and you over marbles and let cats be born over and over again; let a child knock over your favourite statue and decapitate the Holy Child’s image; let a million leaks appear in the garden; let it all happen together if it wants to but nothing nothing nothing will ever separate me from you.

(Ainda que neve o verão inteiro, que os gatos façam chichi no cesto das meias, que as formigas rastejem pelo frigorífico, que o gasóleo acabe no carro, que as roupas fiquem por passar durante semanas; ainda que eu tropece vezes sem conta nas peças de lego, e tu nos berlindes espalhados pelo chão; ainda que os gatos passem a vida a nascer no quintal; ainda que uma criança atire ao chão a tua imagem preferida e decapite o Menino Jesus; ainda que haja um milhão de fugas de água no jardim; ainda que tudo isto aconteça ao mesmo tempo, nada nada nada alguma vez me separará de ti.)

 

É a palavra dada. É a vida empenhada, entregue, perdida. Porque amar é garantir ao outro que nunca, jamais, por razão alguma, o deixaremos.

No seu livro “O Reino de Deus está próximo”, César das Neves diz que a geração atual é a primeira na História que desconhece por completo a noção de honra. A palavra dada já não empenha ninguém. Compromissos? Só enquanto “apetecer”.

As estatísticas falam em 70% de matrimónios atuais que terminam em divórcio. O casamento dura enquanto durar a fase inicial de pura paixão. Esquecemo-nos que ninguém chega “ao outro lado” de absolutamente nada – no desporto como nos estudos, na carreira como na vida familiar – sem passar pela fase dura e crua do esforço. Lembram-se como foi aprender a nadar? A andar de bicicleta? Ou como foi tirar um curso superior? Ou aprender um ofício? Ah, quantas vezes não apetecia! Quantas vezes experimentámos o cansaço de noites inteiras sem dormir, ou de músculos doridos pelo esforço! Celebramos S. Valentim em fevereiro, porque o amor amadurece no solo frio do inverno.

“Já não sinto nada por ela, já não sinto nada por ele.” Desde quando te comprometeste com os teus sentimentos? Existirá, na liturgia do matrimónio, algum momento em que tenhas dito: “Prometo amar-te enquanto sentir algo por ti”? Já não te recordas da promessa feita?

“Pois, mas entretanto apaixonei-me por outra pessoa…” Apaixonar-se não está em nosso poder, é verdade. Até te podes vir a apaixonar outra e outra vez! Mas feita a promessa, sabemos o que fazer com nova paixão: afastá-la para o lado e aliar ao amor primeiro o sacrifício e o esforço, confiando que, a nosso lado e por nós, luta também Aquele que Se comprometeu com ambos, capaz de transformar em “vinho novo” qualquer “água turva” que Lhe ofereçamos.

“O problema é que descobri que me enganei, que tudo foi uma ilusão, que não sou feliz com ele / com ela…” Acontece. Paciência! Entraste no “avião” errado, mas agora não vais pôr todos os tripulantes em perigo e abrir a porta para saltares fora. Por engano ou não, é este o voo que livremente escolheste. E enquanto a viagem durar, não há fuga possível sem causar a morte dos que voam contigo. Tens a certeza de que serás mais feliz matando os que te amam?

Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da nossa vida.

 

Dei-te a minha palavra. Entre gente honrada, não é preciso mais para que saibas, com a certeza absoluta, que nada me poderá separar de ti.

Se o amor entre esposos não estivesse sujeito a todo o tipo de obstáculos, se fosse um amor quase instintivo, como o que existe de pais para filhos, não precisaria de promessas. Fazemo-las exatamente por causa dos momentos difíceis. Para que elas sustenham o amor em tempo de guerra e o façam chegar, são e salvo, ao outro lado de qualquer maré.

Mas então, deverei ficar ligado para sempre a alguém que me maltrata, que se entrega a drogas e ao álcool, ou que me é infiel? Não estou a falar dos casos dramáticos em que, sim, deixar o outro pode ser a única coisa a fazer, como quando, em casos extremos, os pais se vêem na obrigação de deixar um filho entregue a si mesmo. Não são estes casos que engrossam as estatísticas: são os outros, os dos discursos modernos do tipo “não apetece mais”, “deixaste de fazer sentido para mim”, “descobri que não sou feliz contigo”, “encontrei-me a mim mesmo noutra relação”.

O verdadeiro amor é sempre até ao fim. Ainda que custe. Ainda que já não sinta. Ainda que esteja a “trair os meus sentimentos” – antes “trair os meus sentimentos” do que trair-te a ti! Isto é amor. Tudo o resto é fantasia. Não sou eu que o digo, é Jesus:

Quem procura a sua vida, há de perdê-la; e quem perde a sua vida por amor de Mim, há de encontrá-la. (Mt 10, 39)

Sabe-o quem, paciente e honradamente, se empenhou na felicidade do seu amado: uma manhã qualquer, ao acordar, dá-se conta de que o verão chegou, fazendo amadurecer os frutos onde antes murcharam as flores. O tempo das flores foi belo, sim, mas os frutos maduros alimentam muito mais…

Porque também podemos meditar nestas coisas a rir, deixo-vos com um vídeo engraçado, capaz de nos fazer rir de nós próprios e da nossa falta de consciência perante os compromissos que assumimos. Antes, uma ressalva: a escolha deste vídeo não pressupõe qualquer juízo de valor, positivo ou negativo, do canal em questão, que com exceção deste vídeo, desconheço por completo.

 

 

 

 

8 Comments

  1. Tão lindo este post, tão sincero, tão verdadeiro…
    Obrigado pelo vosso testemunho que me continua a maravilhar e a inspirar a ser melhor, todos os dias…

    Beijinhos

  2. Catarina Silva

    Olá Teresa,
    Muito bonito o seu testemunho. Compreendo perfeitamente o que diz. Defendi o mesmo principio desde muito nova e batalhei muito por ele. No entanto, e com base na minha própria experiência, tenho de lhe dizer que por vezes existem situações muito complexas, em que a permanência numa relação, pode levar à destruição psicológica das pessoas, sobretudo dos filhos. Muitas vezes pensa-se que o ideal para os filhos é estarem com os pais juntos, porque sim, porque é assim que deve ser (eu pensei assim durante muitos anos). Hoje eu sei que o ideal para os filhos é terem paz e viverem com exemplos de relações saudáveis e felizes. As relações saudáveis e felizes estão cheias de dificuldades, problemas, atritos, cansaço, preocupações….tudo bem. Só não está tudo bem quando deixa de existir o respeito, o AMOR. Acredite Teresa (sei bem do que falo) não há nada, nada que desestabilize mais as crianças que viverem num ambiente de desrespeito, de insegurança, sem paz e sem amor. As crianças são muito sensíveis ao ambiente em que vivem, mesmo que se tente disfarçar….elas percebem tudo.
    Podem viver numa família com dificuldades financeiras, podem não ter roupas de marca, brinquedos caros, telemóveis, tablets…enfim, podem não ter uma série de coisas, desde que sintam segurança, tranquilidade e amor, são crianças felizes.
    O problema, é que muitas vezes os casais vivem vidas de autentico inferno, separam-se e continua o inferno mesmo separados. Continua o desrespeito a a maledicência um contra o outro, arrastando os filhos para um caos ainda pior.
    Eu, que já me divorciei e que vivo numa nova relação há já 15 anos, digo-lhe:
    Cada caso é um caso. Cada novo casal deve tentar conhecer bem a pessoa com quem quer começar uma relação. Os namoros devem ser vividos sem nenhuma pressa pela união física, concordo que um namoro casto é meio caminho andado para o sucesso da relação.
    E depois, mais tarde, os casais devem sempre perante uma nova dificuldade (das inúmeras que aparecem na vida) recordarem aquilo que os uniu. Se aquilo que os fez apaixonar um pelo outro continua lá, então não há nada a temer. É agarrarem-se ao que sentem um pelo outro, estender a mão a Deus e lutar. Lutar sempre! Sempre juntos nas próprias diferenças, complementando-se um ao outro, sacrificando-se um pelo outro. Sem nunca esquecer o mais importante: o respeito um pelo o outro (e pelos filhos!) e o AMOR!
    O AMOR resolve tudo!

    • Eu pensei em si ao escrever este post, Catarina, e por isso disse que não estava a falar nas situações dramáticas! Estou a falar nas outras, que são a maioria! Bjs!

  3. Que linda declaração de amor…. To be continued…

  4. 👏👏👏

  5. Olívia Batista

    Que bonita declaração te escreveu o Niall!!! Tal como a tua… e sim, todos os dias da nossa vida é muito tempo!
    Das coisas que mais me custa é ver casais onde a traição, a indiferença e a falta de amor são presença constante nas suas vidas… depois vejo passar aqui um casal de mão dada que irá comemorar 60 anos de matrimónio: 60! Consegues acreditar? E isso deixa-me mais confiante de que é possível ter uma longa vida em comum com alguém.
    bjs e parabéns pelos vossos 20 anos!

  6. Obrigada pela postagem… estava à espera deste texto!

  7. Helena Barros Le Blanc

    Ola Teresa!
    Que bom! Que lindo! Gostei em particular o exemplo do avião.
    Recordo-me que durante o meu primeiro ano de casamento queixava-me algumas vezes dele, e tu, ao contrário de todos is outros, pedias-me paciência com ele e “colocar-me nos sapatos dele”. Eu sentia que o defendias. Eu quantas vezes fiquei confusa! Uma amiga apoia a outra….
    Hoje percebo tanto as tuas palavras de então e de agora! Agradeço-te por não teres sido minha amiga na medida que eu queria, mas amiga fraterna! Obrigada pelo Vosso exemplo! Um abraço

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