Em Caná da Galileia...


Tríduo Pascal – celebrando a Palavra em família

Estamos quase, quase a iniciar o tempo litúrgico mais curto e mais transformador do ano: o Tríduo Pascal.

Tudo preparado, em cada casa onde vive uma Família de Caná? São horas! Não deixemos nada ao acaso. Já leram o Ensinamento Mensal?

A Olívia e a Isabel já partilharam aqui e aqui em Testemunhos as suas propostas e eu também já o fiz abundantemente. Hoje é dia de trabalho! É em nossa casa que o Senhor quer celebrar a Páscoa, e há que preparar tudo, a partir do pouco que temos e somos.

Aqui, hoje, Quarta-Feira da Traição, vamos fazer o jogo de procurar, pela sala, trinta moedas escondidas, em forma de corrida a ver quem junta mais. Será uma forma divertida de conversarmos sobre a corrida ao dinheiro e os atropelos de que somos capazes por sua causa.

Logo à noite tiramos à sorte quem é que vai lavar os pés a quem, amanhã, para que todos façam ambas as experiências, lavar e deixar-se lavar (há já quem tenha expressado as suas preferências, mas paciência, sorte é sorte 🙂

O dia de Quinta-Feira Santa será passado na cozinha e em muitas leituras, preparando a ceia bíblica. Não lhe chamamos ceia hebraica, porque não pretendemos reconstituir a Ceia de Jesus, antes queremos celebrar a Palavra, com pratos que surjam mencionados na Bíblia, o pão ázimo, tão central nestes dias em que sentimos na pele a fome da Eucaristia, e muitas passagens bíblicas, que cada membro da família anda atarefadamente a preparar, relacionadas com os alimentos. Vamos ver como corre!

Sábado será o dia mais ocupado, sendo o dia em que aguardamos a ressurreição do Senhor. Vai ser preciso pintar ovos cozidos para a caça aos ovos de domingo de manhã e, quem sabe, a caça ao coelho…

O nosso Coelhinho da Páscoa 🙂

Aproveitando a sugestão da Isabel Marantes (nós por aqui adoramos sugestões e rotinas novas), iremos fazer papelinhos com os versículos que contam a história da Páscoa para esconder junto de cada ovo e, por fim, completar a passagem da ressurreição da missa do dia.

Vai ser ainda no sábado que prepararemos o Cantinho de Oração para a noite da Vigília Pascal, passando da morte à vida, porque de Quinta para Sexta-Feira Santa despiremos o nosso “altar”, retirando a cortina e todas as decorações, como se faz na igreja.

Como veem, será “um grande dia, aquele sábado” (Jo 19, 31)…

Continuo a sentir muita confusão entre os fiéis diante daquilo que julgam ser uma obrigação: assistir às cerimónias destes dias pela televisão ou online, como uma alternativa superior à Celebração da Palavra em casa. Recebi inclusive algumas propostas maravilhosas de celebrações familiares para estes dias, que no entanto, acrescentavam estranhamente: “para fazer depois de acompanhar a missa online“.

Já escrevi sobre o tema, mas felizmente, neste momento não sou apenas eu a fazê-lo. Ficam aqui mais dois artigos que poderão querer ler, para tirar dúvidas, da parte de sacerdotes, caso não me julguem competente para fazer as afirmações que fiz: um no site da Aleteia, outro no jornal Voz da Verdade. Espero que ajudem!

Vamos por partes. Em primeiro lugar, é preciso que seja dito que não há nada que possamos fazer em casa, nenhuma celebração da Palavra que chegue perto do valor infinito da Santa Missa.

Mas ninguém está aqui a falar da participação na Santa Missa, uma vez que essa nos está vedada. Nós somos corpo e espírito, e a especificidade dos sacramentos que o Senhor instituiu é precisamente o facto de necessitarem que estejamos corpo e espírito em cada um deles. A covid-19 ainda não alterou a doutrina, apesar de muitos acharem que sim! Ora vejam como a Família Miranda Santos fez a sua adoração – corpo e espírito – a Jesus (muito) Escondido, num destes domingos:

Assim, assistir à Missa online não nos permite participar da Missa (o que não significa que o Senhor não abençoe a nossa intenção e a recompense).  A mim pessoalmente só faz aumentar a fome, fazendo-me sentir como um pedinte espreitando para dentro da janela da casa onde os ricos se banqueteiam. Queiramos ou não, ninguém pode participar na missa sem um corpo. Mas claro que a missa online pode também ser um consolo e uma forma de ajudar a celebrar quem vive só ou, vivendo em família, não tem companhia na celebração da Palavra. E se ajuda, porque não? Podemos, naturalmente, rezar online; só não podemos celebrar sacramentos.

Mas sem qualquer dúvida, tendo que escolher, para não sobrecarregar a família, a escolha deverá ser pela Celebração da Palavra (porque, e só porque não temos acesso à Santa Missa). Quando uma família se reúne em oração em sua casa para celebrar a Palavra de Deus, no meio de muitas imperfeições, soletrando algumas palavras mais difíceis, inventando alguns rituais simples, mas acompanhando Jesus na sua Paixão com os textos da Bíblia, essa família está verdadeiramente a tornar-se Igreja Doméstica. Não o disse Jesus?

Onde dois ou três (ou quatro, ou dez…) se reunirem em meu nome, Eu estarei no meio deles. (Mt 18, 20)

O padre António Assunção, leitor assíduo deste site e meu amigo desde a infância (é a primeira memória de pároco que tenho…) deixou aqui nos comentários, num destes dias:

“E no centro sempre “Nós Jesus” … ou como em 1964 vivia e escrevia o notável deputado italiano Igino Giordani: “o encontro com o irmão torna-se uma espécie de Missa mística. Eu, o irmão, Jesus…” sendo esta a citação completa:
“Quando dois ou mais irmãos estão unidos no nome de Jesus, Jesus está misticamente presente no meio deles, tal como desce realmente sobre o altar às palavras do sacerdote consagrante. Assim, o encontro com o irmão torna-se uma espécie de Missa mística. Eu, o irmão, Jesus: nesta tríade circula o amor da própria Trindade, pois naqueles que amam Ele desce e habita, com o Pai e com o Espírito Santo”.

Unidos em oração durante todo o Tríduo, rezando uns com os outros, mesmo à distância, mesmo sem nos vermos ou ouvirmos, porque “em espírito e verdade”, sabemos o segredo mais bem guardado da nossa vida (e talvez faça bem ler sobre a Bilha da Comunhão, aqui no site ou na nossa Carta Fundacional):

Nós, Jesus!

Ámen.

 

 

 

5 Comments

  1. Olá família power. Vou dar o meu singelo testemunho e perguntar algumas coisas. E a primeira vez que em família vamos celebrar a Páscoa como igreja doméstica que somos . Vamos fazer tudo em pequenos passos porque ainda não estamos tão experientes como vocês. Hoje tiramos do site abcarquidiocesebraganca sugestões de como fazer o triduo pascal e embora não seja a nossa diocese vamos seguir o esquema simples.na quinta antes do jantar fazer leitura d.s.joao e partilhar um pouco de pão a cada membro da família,sexta acender uma vela as 15h e tapar com pano encarnado a cruz e vigila pascal fazer leituras, acender uma vela no centro da mesa e CD um acender a sua vela. Fizemos uma vela círio pascal pa acender sábado será que podemos? E depois ouvirmos as celebrações na TV ou rádio.

    • Olá Ana!
      Boas ideias, essas. Podem fazer tudo o que quiserem, porque não se trata de tentar replicar nenhum sacramento, nem “brincar às missas”. Expliquei a diferença no Ensinamento Mensal. Mãos à obra! Assistir na TV ou rádio é facultativo, como expliquei, visto não permitir “cumprir o preceito”, de que estamos dispensados. Fica à sensibilidade de cada um. O importante agora é que essa Igreja Doméstica louve o seu Senhor!
      Um abraço, Teresa

  2. antónio assunção

    Olá a todos
    Começo por partilhar uma experiência Terminei agora de participar com Jesus no meio à distância na Missa Crismal celebrada AO VIVO numa Sé da nossa diocese com um grupo reduzido de sacerdotes e o bispo da diocesano “desta forma tão estranha e tão única, mas unidos uns aos outros e ao povo de Deus que servimos”
    Será assim para quem celebrar “na tua casa” esta Páscoa, conforme lhe for possível (e bom seria com a participação de todos os que estão em casa)
    E como?
    Uns beneficiando das “coisas admiráveis” dos midia (audio ou video) escolhendo em família (aqui já será preciso amar, perder…) uma celebração participando com Jesus no meio à distância como se estivessem na celebração AO VIVO, porventura só ouvindo ou mesmo respondendo, cantando… respondendo… Cada um (e melhor cada família) como for(em) capaz(es)
    Outros farão “em tua casa” em família com Jesus no meio presente “onde dois ou três Eu estou” (aqui já será preciso amar, perder…) uma celebração com a Palavra e os outros sinais exteriores possíveis… (“Crucifixo e o Evangelho” Papa Francisco – 08abr2020) com a participação interior ativa de todos (mas como cada um for capaz) rezando, cantando, ouvindo, respondendo… e no momento próprio fazendo a comunhão espiritual… terminando com o compromisso de amor de “uns aos outros” e a todos (como é possível neste momento de “clausura” com um telefonema… ou com a cariatividade do amor tão necessária neste e em todos os tempos e sempre com a oração… acompanhando todos e também alguns que partem para a vida concreta do serviço ao bem comum para que a vida continue para bem de todos os que estão doentes e carecem de outros serviços)
    Santa Páscoa para todos

    • João Miranda Santos

      Obrigado por esta partilha, tinha ouvido que as missas crismais seriam adiadas e por isso esta manhã estivemos a rezar aqui em casa com as leituras da missa crismal e a rezar especialmente pelos sacerdotes que este ano ficariam privados desta celebração de união aos seus bispos e à Igreja e de renovação das suas promessas sacerdotais. Afinal estivemos em comunhão pelo menos com a celebração da sua diocese!

  3. antónio assunção

    Bem hajam
    Alegro-me que se tenham “recolhido em oração” em comunhão com Jesus no meio entre vós e também à distância, pois ninguém nos pode retirar essa presença, como dizia Chiara Lubich [1920-2020] “Jesus no meio”, 25 julho1960
    “E se as igrejas forem fechadas, mas quem poderá destruir o templo vivo de Deus que é Cristo no meio de nós? E se os sacramentos forem cancelados, como não poderemos nós saciar nos daquela fonte de água viva que é a caridade viva no meio de nós, que é Cristo no meio de nós?”
    Santa Páscoa (celebrada em três dias (Tríduo Pascal) = a 1 Mistério Pascal de Cristo, celebrado na Última Ceia (antes), na Paixão/Morte/Sepultura (na Sexta(Sábado) e na Ressurreição, já com a celebração da Ceia (depois) com os dois discípulos de Emaús na tarde desse dia

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